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Análise: China está perto de suplantar os EUA na corrida científica; Brasil segue em defasagem

Sputinik Brasil 26/02/2026
Análise: China está perto de suplantar os EUA na corrida científica; Brasil segue em defasagem
Foto: © Foto / Pixabay

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a China conseguiu se aproximar de assumir o protagonismo nas chamadas "tecnologias cruciais" graças ao investimento pesado do governo na educação e pesquisas, enquanto o Brasil ainda carece de uma política de Estado para superar a defasagem tecnológica.

Um estudo publicado na revista Nature apontou que a China está se aproximando de suplantar a hegemonia dos Estados Unidos no campo científico.

Realizado pelo Instituto Australiano de Política Estratégica (ASPI, na sigla em inglês), think tank com sede em Canberra, na Austrália, o estudo indicou que a China assumiu o protagonismo em 90% de 74 das chamadas "tecnologias cruciais" para os interesses nacionais de um país. O estudo classifica o feito como "a mudança dramática do século".

Dentre outras áreas, as tecnologias cruciais abrangem inteligência artificial, biotecnologia, infraestrutura digital, tecnologia da saúde, tecnologias verdes, espaciais e sistemas autônomos de defesa.

À Sputnik Brasil, Evandro Menezes de Carvalho, professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que a China alcançou este feito devido ao modelo de governança liderado pelo Partido Comunista da China, comprometido com a chamada modernização chinesa.

Ele explica que o país asiático investe uma fatia significativa de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, ao lado da crescente relevância das universidades públicas no incremento do ecossistema de inovação, juntamente com as empresas públicas e privadas.

"A infraestrutura do país é um fator importante. Ela não só cria oportunidades, mas também demandas por inovação. E, com a melhoria desta infraestrutura, e aqui incluo a chamada 'nova infraestrutura', criam-se as condições para saltos significativos no campo científico", afirma o especialista

No recorte do Brasil, ele afirma que o país está mal na disputa justamente porque suas universidades públicas carecem de recursos financeiros e humanos para competir e cooperar com a China, e de infraestrutura para abrigar projetos em grande escala e quantidade que se relacionem com esta nova realidade internacional.

"Continuamos sendo um país cuja economia depende do extrativismo de nossos recursos naturais. E a ciência e os cientistas não estão incluídos na estratégia nacional de desenvolvimento soberano para atingirmos o estágio de economia moderadamente próspera."

Carvalho diz não ter dúvidas de que o Brasil poderia aprimorar parcerias no âmbito do BRICS para impulsionar sua capacidade científica, e cita como exemplos a Liga de Universidades dos Países BRICS, iniciativa do Centro BRICS da Universidade Fudan, na China, e o BRICS Network, iniciativa que reúne universidades dos países membros do grupo para fomentar pesquisas conjuntas, mobilidade acadêmica e inovação. No total, 20 instituições brasileiras integram a iniciativa.

"O Brasil precisava se engajar mais neste diálogo acadêmico com todos os países do BRICS agora ampliado. Mas, mais uma vez, dependemos de recursos públicos significativos. Não temos sequer condições, muitas vezes, de receber uma delegação estrangeira no mesmo nível de receptividade que nos dão quando os visitamos", aponta.

O foco da China em educação foi um elemento essencial para que o país alcançasse o feito, segundo aponta João Rodrigues Chiarelli, professor adjunto da Universidade Federal dos Pampas (Unipampa) (2024-2025), co-coordenador da atividade de extensão Oficina de China e Leste Asiático (Ofchila/UFRGS) e pesquisador associado do Grupo Ásia do Núcleo de Política e Relações Internacionais (NUPRI/USP).

"Sem apoio de recursos públicos, não há tecnologia de ponta. Hoje, a China se apresenta como pioneira no setor de tecnologia devido a decisão das políticas públicas de longo prazo - que foram pensadas nas futuras gerações e no futuro do país, para que eles não dependam de fatores externos ou de pressões externas para desenvolver sua sociedade."

Ele acrescenta que a China investiu de forma pesada em processos de captação de pesquisadores, de importar trabalhadores qualificados, adotar de forma massiva projetos de cooperação técnica e ODA (Assistência Oficial ao Desenvolvimento, na sigla em inglês) para melhorar seu setor de tecnologia.

"Processos estes que contam com mais de trinta anos de investimento e que agora começam a apresentar resultados."

No caso do Brasil, Chiarelli afirma que, apesar das iniciativas do governo federal em ampliar a rede de universidades federais nos últimos anos, o país ainda carece muito em adoção de políticas públicas que tornem o desenvolvimento da tecnologia como ponto estratégico.

"Não basta 'apenas' investir na ampliação do parco quadro de pesquisadores no país, mas também investir na forma de enquadrá-los em setores chaves. A Ceitec, única fábrica de microchips no hemisfério Sul, foi quase privatizada pela gestão de Paulo Guedes e todo o seu setor sensível - assim como seus cientistas - foram enviados ao exterior, tornando o país ainda mais sensível e vulnerável às mudanças e pressões econômicas."

Apesar das adversidades, Chiarelli aponta que "o Brasil possui configurações particulares que não nos coloca completamente despreparados".

Ele destaca que o país tem o maior quadro de universidades federais que trabalham como um hub, a carreira de pesquisador é compreendida como parte da funcionalidade dos docentes das IES (Instituições de Ensino Superior), e a maioria das universidades federais consta com laboratórios, técnicos e assistentes para a promoção da pesquisa.

"Contudo, carecem de investimentos, falta ampliar, valorizar e qualificar o quadro de pesquisadores - e pesquisa é um processo que se executa com capital público, devido aos custos operacionais, incertezas da produção da ciência e morosidades da natureza da pesquisa. E pesquisa é um ato que não se faz sozinho, a adoção de protocolos, parcerias e cooperação técnica são pontos chave para a promoção da ciência e isso pode ser uma alternativa, convidar outros parceiros."