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Brasil atinge 81,3 milhões de inadimplentes e reacende busca por crédito no início de 2026
Com mais de 30% das famílias inadimplentes e juros elevados, especialista avalia desde empréstimos tradicionais até alternativas como antecipação de precatórios
São Paulo, fevereiro de 2026 - 78,2% das famílias brasileiras declararam ter pelo menos uma dívida em aberto em maio de 2025, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e, em agosto de 2025, a inadimplência atingiu 30,4%, o maior patamar já registrado. Além dos gastos com as festas, viagens e compromissos típicos de dezembro e janeiro, o começo do ano traz uma concentração de despesas como IPVA, IPTU, matrícula escolar e renovação de seguros.
“Esses dados são um reflexo do cenário de aperto financeiro no país”, afirma André Sana, cofundador da Precato, fintech especializada na compra de precatórios. “Quando o orçamento fica pressionado por dívidas, juros altos e despesas concentradas no início do ano, muitas famílias acabam enxergando o empréstimo como a única saída para reorganizar as contas. O problema é que, dependendo da modalidade escolhida, isso pode aprofundar ainda mais a situação financeira”, alerta o executivo.
De acordo com o especialista, as principais formas de acesso a crédito no país seguem concentradas em cinco frentes, cada uma com vantagens e limitações próprias.
Empréstimo pessoal
O empréstimo pessoal é uma modalidade de crédito sem garantia e de fácil acesso. “Apesar da conveniência, o endividamento pode se tornar muito caro a médio e longo prazo”, adianta Sana. As taxas variaram entre 6,5% e 9,9% ao mês entre as principais instituições, o que significa cerca de 180% ao ano, de acordo com dados do ano passado do Procon SP+1. Na prática, isso significa que uma dívida relativamente pequena pode dobrar em poucos meses, especialmente quando o consumidor precisa recorrer a novas parcelas para cobrir compromissos anteriores. “É um tipo de crédito que cumpre um papel emergencial, mas dificilmente funciona como solução sustentável para quem já está com o orçamento comprometido”, completa.
Cartão de crédito (rotativo ou parcelado)
De fácil acesso e com diferentes emissores, do banco tradicional à loja de departamento, “o cartão de crédito é um recurso de fácil acesso e, se bem administrado, pode ser uma boa opção”, explica Sana. Entretanto, o executivo também alerta: “Porém, caso a fatura não seja paga, a pessoa pode ter que arcar com parcelamentos longos, de custos altos, o que torna o cartão uma armadilha para famílias com orçamento apertado”.
Com juros médios que chegaram a aproximadamente 445% ao ano, de acordo com o Banco Central, o rotativo no cartão de crédito representa uma das modalidades mais caras para quem parcela ou atrasa a fatura.
“O cartão costuma ser usado de forma recorrente para gastos cotidianos, o que faz a dívida crescer de maneira silenciosa. Quando a fatura deixa de ser paga integralmente, o consumidor entra em um ciclo de juros que se retroalimenta e rapidamente foge do controle. É por isso que o cartão está sempre entre os principais motores da inadimplência no país”, completa Sana.
Crédito consignado
O crédito consignado tem se destacado como uma opção relativamente mais barata diante das outras modalidades. Dados do Banco Central indicam que a taxa ao ano está na faixa de 26%. Mas é preciso ficar atento: “Por ser descontado diretamente da folha ou benefício, como o INSS, o consignado reduz o risco de inadimplência, porém compromete parte da renda por meses ou anos”, reflete Sana.
“O desconto automático pode dar a sensação de organização, mas reduz imediatamente a renda disponível e limita a capacidade da família de absorver novos gastos obrigatórios como impostos do início do ano ou emergências. Para consumidores já no limite das despesas mensais, isso pode significar trocar um problema de curto prazo por um compromisso prolongado, que afeta o planejamento financeiro ao longo de todo o contrato”, explica.
Crédito com garantia (home equity / auto equity)
De acordo com dados da ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), o volume de empréstimos com garantia de imóvel cresceu de R$ 9,8 bilhões em 2018 para R$ 24,6 bilhões até 2024, e só nos primeiros oito meses de 2025 já chegaram a R$ 27,8 bilhões. “Essa modalidade, cujo imóvel ou veículo é oferecido como garantia, possui taxas mais competitivas comparadas a empréstimos sem garantia, por isso tem aparecido com mais frequência nas ofertas do mercado”, afirma Sana.
“O avanço dessa linha também indica um interesse maior dos bancos por operações de menor risco. Como há um bem atrelado, a inadimplência tende a ser menor, o que permite juros mais competitivos. Para o consumidor, isso significa parcelas mais baixas, mas também a necessidade de cautela, já que o não pagamento pode colocar o imóvel ou veículo em risco”, complementa.
Antecipação sem risco de novas dívidas
Para os mais de 270 mil brasileiros que têm uma quantia a receber do governo após ter vencido uma ação judicial, seja por indenizações, diferenças salariais ou valores atrasados, o precatório representa um crédito certo, mas com pagamento muitas vezes demorado, sujeito ao cronograma e às limitações orçamentárias do Estado. “Muitos credores esperam anos para receber, mesmo depois de uma decisão favorável. É um dinheiro garantido, mas que, na prática, não chega no curto prazo”, explica Sana.
Diante disso, a venda do precatório surge como uma alternativa para quem precisa de liquidez sem assumir novas dívidas. “Trata-se de uma cessão de direitos. O credor passa adiante o valor que teria a receber do governo para uma empresa especializada e recebe o valor antes do prazo, geralmente em poucos dias”, explica o empresário.
“Enquanto outras opções de crédito podem gerar endividamento ou comprometer a renda, a venda do precatório é apenas a antecipação de um valor que já pertence ao credor”, afirma Sana. “Não é empréstimo, não há risco de perder patrimônio e não se cria um ciclo de recorrência de pagamentos. Para quem já está no limite do orçamento ou mesmo não quer comprometer sua renda parcelas futuras, isso faz diferença”, conclui.
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