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Pesquisa da Ufal revela padrões sazonais e fatores de risco para o suicídio

Entre as variáveis estudadas, a duração do dia foi o fator de mais impacto nos índices apresentados no Brasil

Por Manuella Soares - jornalista 11/02/2026
Pesquisa da Ufal revela padrões sazonais e fatores de risco para o suicídio
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Os pesquisadores descobriram que as taxas de suicídio são maiores nos locais com períodos mais longos de luz solar. No Brasil, há queda de casos no inverno.

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) analisou dados de suicídio em 5.259 municípios brasileiros entre 2010 e 2019, revelando padrões sazonais significativos e associações com variáveis ambientais. A pesquisa, que envolveu 106.497 casos, foi realizada com o objetivo de compreender o perfil espaço-temporal e os fatores ambientais que influenciam as taxas de suicídio no Brasil, um fenômeno global com consequências profundas na saúde pública.

Os resultados do trabalho realizado pelos pesquisadores do Centro de Medicina Circadiana (CMC/Famed/Ufal) Daniel Gomes Coimbra, Jorge Artur Peçanha de Miranda Coelho e o orientador Tiago Gomes de Andrade, foram publicados na Journal of Affective Disorders, uma das mais importantes revistas científicas internacionais sobre saúde mental.

Os dados confirmaram que as taxas de suicídio têm um padrão sazonal, atingindo o pico em dezembro, próximo ao solstício de verão, e registrando os números mais baixos em junho, que coincide com o solstício de inverno. Além disso, observou-se que as taxas de suicídio aumentam à medida que avança para o sul, com uma associação significativa entre a latitude e a amplitude (ou força) sazonal.

A pesquisa identificou o desalinhamento temporal social-solar (dGMT) como um fator relevante, indicando que municípios localizados mais a oeste em seus fusos horários tendem a ter taxas de suicídio mais elevadas. Esse desalinhamento e a sazonalidade sugerem um envolvimento do relógio biológico, segundo os pesquisadores.

Variáveis como o índice de urbanização e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também foram analisadas, revelando que a urbanização está inversamente relacionada às taxas de suicídio, possivelmente devido a melhor acesso a recursos de saúde mental.

Foram utilizados modelos de previsão, como Arima e análise de regressão robusta, para avaliar a relação entre os padrões sazonais e variáveis climáticas, como fotoperíodo, um fator que mostrou a correlação mais forte com a sazonalidade do suicídio. A luz solar e a variação na duração do dia foram identificadas como importantes influências no comportamento suicida, sugerindo que as mudanças sazonais devem ser consideradas na formulação de políticas de prevenção.

A pesquisa também examinou a relação entre o fim do horário de verão no Brasil, ocorrido em 2019, e as taxas de suicídio, encontrando que, embora o horário de verão alterasse o timing dos picos sazonais, não era um fator determinante para a existência desses padrões.

Saúde pública e ações para prevenção

Os resultados desta pesquisa reforçam a complexidade e a multidimensionalidade do suicídio, sugerindo que tanto aspectos biológicos quanto sociais desempenham papéis cruciais.

“É necessário reorientar a prevenção do suicídio para uma lógica temporal e ambiental, uma vez que o risco varia de forma previsível ao longo do ano e do território. Ao identificar períodos de maior vulnerabilidade associados a variáveis ambientais e sociais, incluindo o desalinhamento entre o tempo social e o tempo solar, o estudo fornece base empírica para antecipar ações preventivas e orientar políticas públicas em períodos críticos. Harmonizar o tempo biológico e o tempo ambiental pode prevenir o suicídio”, destacam os pesquisadores

Os autores do trabalho da Ufal enfatizam a necessidade de mais estudos para compreender os mecanismos fisiológicos subjacentes à sazonalidade do suicídio e a importância de ajustar políticas e práticas de saúde pública para melhor atender às necessidades de populações em risco.

“Ensaios clínicos que visem fatores ambientais modificáveis, como a exposição à luz e o dGMT, podem ajudar a esclarecer seus papéis potenciais. A fototerapia demonstrou ser eficaz para o Transtorno Afetivo Sazonal, e a terapia de escuridão, usando óculos bloqueadores de luz azul, mostrou promessas no tratamento do Transtorno Bipolar”, sugere o trabalho.

Outra proposta indicada pelos pesquisadores é o manejo da exposição à luz por meio de terapias de luz e escuridão, imitando um fotoperíodo estável. De acordo com eles, essa medida pode oferecer benefícios terapêuticos às pessoas em risco.

Ajustes nos horários sociais como o início escolar ou de trabalho também são práticas a considerar de forma mais ampla, entre outras coisas. “No futuro, estratégias cronobiológicas, como otimizar o horário de medicamentos, podem melhorar seus resultados. Cronobióticos, como a melatonina, cuja secreção é modulada sazonalmente, também podem ser considerados em futuras pesquisas experimentais e clínicas”, concluem os pesquisadores.

Para mais informações sobre a pesquisa inovadora, basta acessar o link e seguir a página oficial do Centro de Medicina Circadiana da Ufal no Instagram.