Geral

Institucionalização e inserção internacional: como será a presidência da Índia no BRICS em 2026

Especialistas analisam os desafios e expectativas para a liderança indiana no bloco diante de um cenário global em transformação.

Sputinik Brasil 06/01/2026
Institucionalização e inserção internacional: como será a presidência da Índia no BRICS em 2026
Presidência da Índia no BRICS em 2026: expectativas de institucionalização e projeção global do bloco. - Foto: © AP Photo / Rafiq Maqbool

Especialistas discutem a consolidação do BRICS sob a presidência indiana em meio a tensões geopolíticas com os Estados Unidos.

Em 2025, o BRICS consolidou sua expansão, ampliando o número de membros para 11 e criando a categoria de países-parceiros. Reuniões ministeriais, culminando na XVII Cúpula do BRICS realizada no Brasil, fortaleceram a coordenação política entre os integrantes do grupo diante de discursos cada vez mais incisivos da Casa Branca.

No cenário interno do bloco, China e Índia mantiveram protagonismo graças à sua escala demográfica, industrial e tecnológica, enquanto a Rússia seguiu relevante nos campos militar e energético. A entrada de novos membros aumentou o peso do BRICS em setores estratégicos como petróleo, gás e segurança alimentar, ampliando a capacidade de influência global do grupo.

Entre os projetos debatidos, destacam-se a criação de uma bolsa de grãos, que pode transformar o comércio de commodities, o financiamento ao desenvolvimento nuclear e o incremento do comércio em moedas nacionais entre os países-membros.

No episódio desta terça-feira do Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, especialistas analisam as perspectivas do BRICS para 2026. Haverá novos países entrando no bloco? O grupo vai disputar mais espaço com os EUA nos próximos anos?

Luan Scliar, diretor executivo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Integração Cultural do BRICS+ (iBRICS+), avalia que a entrada de novos países dependerá dos critérios definidos pela Índia, que exercerá a presidência rotativa em 2026. Ele observa que cada membro possui interesse em ver vizinhos integrados ao grupo — como a Rússia em relação à Sérvia e o Brasil em relação à Argentina.

Scliar destaca que Índia e Rússia figuram entre os mais empenhados na institucionalização do BRICS, buscando um grupo mais estruturado juridicamente. No entanto, ele ressalta que os acordos do bloco não são vinculantes, ou seja, não possuem força legal obrigatória para os países-membros.

Apesar de reconhecer sinais de institucionalização — como a atuação de um think tank ligado ao Exército indiano durante a cúpula —, Scliar adota cautela ao prever mudanças imediatas sob a presidência indiana. Segundo ele, apenas a presidência pró-tempore poderá demonstrar até onde esse interesse se converterá em avanços concretos. Para a Índia, a liderança do BRICS representa uma "vitrine internacional" para ampliar sua projeção global além da Ásia e da Eurásia.

Henrique Domingues, fundador do Fórum Internacional dos Municípios BRICS e secretário nacional de Políticas para a Juventude Trabalhadora da CTB, avalia que 2026 será marcado por avanços internos e possíveis interferências externas, especialmente dos Estados Unidos na América Latina.

Domingues ressalta que a presidência indiana ocorre em um momento em que a multipolaridade é tema central na geopolítica, e a Índia poderá aproveitar esse dinamismo para consolidar seu papel como ator global. “Quando falamos dos países BRICS, ouvimos muito sobre Rússia e China, depois o Brasil. A Índia, apesar de seu porte e potencial, ainda enfrenta desafios no desenvolvimento social”, explica.

“A Índia ainda enfrenta algumas carências sociais que não acompanham a velocidade do seu desenvolvimento econômico. As desigualdades ainda são gritantes e acabam se tornando um obstáculo no imaginário popular para que a Índia se consolide como ator de influência global, como Rússia, China e Brasil, especialmente agora sob a presidência do presidente Lula.”

O secretário nacional acredita que a Índia deverá focar no desenvolvimento tecnológico do bloco e no aprofundamento dos acordos de intercâmbio tecnológico, especialmente em governança e inteligência artificial. “Outros temas recorrentes são a segurança global, o combate ao terrorismo e ao narcotráfico, áreas em que a Índia, por suas características regionais, também deve dedicar atenção”, afirma.