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Estudo da PUCPR revela os desafios do diagnóstico tardio de TEA em idosos

Pesquisa identificou cerca de 300 mil pessoas com 60 anos ou mais com algum grau de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país

Aline Anile 06/01/2026
Estudo da PUCPR revela os desafios do diagnóstico tardio de TEA em idosos
- Foto: Divulgação

Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 70 milhões de pessoas no mundo vivem com algum grau de Transtorno do Espectro Autista (TEA), condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 investigou pela primeira vez dados sobre o transtorno no país. Embora o TEA seja tipicamente diagnosticado e manifeste seus sinais durante a infância, trata-se de uma condição que permanece ao longo da vida. No entanto, o reconhecimento do TEA em adultos mais velhos ainda é limitado, tanto no que diz respeito ao diagnóstico quanto ao acesso a terapias adequadas – o que aponta para a necessidade urgente de políticas públicas específicas para essa população.

Foi o que indicou um estudo do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, pesquisadores detectaram que a prevalência autodeclarada de TEA entre indivíduos com 60 anos ou mais foi de 0,86%, o que corresponde a aproximadamente 306.836 pessoas. A análise indicou ainda que a taxa é ligeiramente maior entre os homens (0,94%) em comparação com as mulheres (0,81%).

Do ponto de vista das políticas públicas de saúde, esses dados reforçam a importância de desenvolver estratégias para a identificação e o apoio a adultos mais velhos com TEA. “A prevalência do TEA tem crescido nos últimos anos, porém a literatura científica nacional e internacional ainda é escassa em relação ao que se sabe sobre o TEA no contexto do envelhecimento”, afirma Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde na PUCPR.

Uiara explica que pessoas que envelhecem no espectro tendem a apresentar redução na expectativa de vida e alta prevalência de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão, além de maior risco de declínio cognitivo e de condições clínicas, incluindo taxas mais elevadas de doenças cardiovasculares e disfunções metabólicas. Somado a isso, dificuldades na comunicação, sobrecarga sensorial e rigidez de comportamento podem dificultar ainda mais o acesso à saúde dessa população. “Portanto, o conhecimento em torno da prevalência do TEA em pessoas idosas no Brasil é o primeiro passo para compreender suas necessidades e assim subsidiar políticas públicas direcionadas a este público”.

Diagnóstico tardio

Identificar o TEA em pessoas idosas é extremamente desafiador. Os obstáculos vão desde a falta de acesso a profissionais capacitados para a identificação do transtorno até as modificações nos critérios diagnósticos do TEA ao longo dos anos. “Além disso, em idosos, manifestações do TEA como isolamento social, inflexibilidade, comportamento rígido e interesses restritos podem ser erroneamente interpretadas como características de outros transtornos ou sintomas de ansiedade, depressão ou demência. Por isso, o diagnóstico exige a observação de comportamentos presentes ao longo de toda a vida e a avaliação de profissionais qualificados”, explica a pesquisadora.

O diagnóstico, segundo Uiara, é frequentemente recebido com alívio. Pessoas idosas sentem que o diagnóstico oferece uma explicação para dificuldades interpessoais e sensoriais vivenciadas ao longo da vida, promovendo maior autocompreensão e aceitação. “Isso permite que experiências negativas sejam reinterpretadas como manifestações do autismo, reduzindo a autocrítica e o sentimento de inadequação”.

Publicação internacional  Os resultados do estudo foram descritos no artigo “Invisible aging: self-reported autism spectrum disorder in older adults in Brazil and the challenges of late recognition” (“Envelhecimento invisível: TEA autorrelatado no Brasil e os desafios do reconhecimento tardio”, em tradução livre), publicado na revista científica internacional International Journal of Developmental Disabilities e disponível no link: https://doi.org/10.1080/20473869.2025.2581638.

Além de Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro, assina o artigo a pesquisadora e professora da Escola de Medicina e Ciências da Vida e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR, Cristina Pellegrino Baena.