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Com ataque à Venezuela, EUA tentam enviar recado a China, Rússia e BRICS, diz especialista
À Sputnik Brasil, cientista político afirma que, mais que a busca por petróleo, o objetivo do ataque dos Estados Unidos à Venezuela é delimitar a zona de influência norte-americana na América Latina como seu "quintal", no intuito de conter a influência de potências do Sul Global na região.
O ataque dos EUA ao território da Venezuela e o posterior sequestro do presidente do país, Nicolás Maduro, é um ponto de inflexão na política norte-americana, que até então vinha trabalhando com sanções e pressão como forma de alcançar seus interesses políticos e econômicos.
É o que afirma, à Sputnik Brasil, Leandro Dalalíbera Fonseca, mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador de temas de segurança internacional. Fonseca frisa que o ataque é um retorno à política de intervenções militares dos EUA na América Latina, como não se via desde 1989, na invasão do Panamá.
"O que nós temos hoje é uma ofensiva militar dos EUA contra a Venezuela que viola frontalmente o espírito da zona de paz na América Latina, definido pela CELAC, em 2014, que reforça a percepção de quebra de princípio da não intervenção em nações soberanas", afirma.
Fonseca afirma que o ataque dos EUA à Venezuela é uma forma de delimitar a América Latina como sua zona de influência, seu "quintal", e de enviar um recado a outras potências, especialmente a China.
"Mais ou menos como o que nós víamos na Doutrina Monroe, na doutrina do Big Stick, ou seja, os EUA não irão permitir que outra potência global tenha influência sobre o seu 'quintal'. Nós vemos agora a ascensão da China como uma grande potência mundial, uma grande superpotência. Após o final da Guerra Fria, apenas os EUA eram a potência hegemônica e nós víamos interesses russos e chineses na Venezuela. Lembrando que a Venezuela tem os maiores poços de petróleo", afirma.
Ele avalia que o argumento de Trump de combate ao narcotráfico e ao autoritarismo é "questionável", pois os próprios EUA têm alianças com governos autocráticos.
"E nós vemos que o que chama a atenção dos americanos, principalmente, são países que possuem grandes reservas de petróleo. A Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo. Inclusive, um dos argumentos utilizados pelo Trump seria que o governo venezuelano teria 'roubado' o petróleo dos EUA", explica.
Petróleo não é o único alvo
Em coletiva neste spabado (3) sobre o ataque, Trump afirmou que as petroliferas dos EUA voltarão a operar na Venezuela, vão extrair uma quantidade enorme de riquezas do solo do país e "distribuí-las para o povo venezuelano".
Em paralelo, a mídia dos EUA noticiou que investidores em Wall Street estão considerando possíveis oportunidades na Venezuela. Charles Myers, presidente da consultoria Signum Global Advisors e ex-diretor da empresa de consultoria de investimentos Evercore, afirmou que planeja uma viagem ao país sul-americano, com representantes de importantes fundos de hedge e gestoras de ativos, para avaliar as perspectivas de investimento no país sob nova liderança.
Porém, Fonseca avalia que, apesar da importância, o petróleo não era o principal alvo do governo Trump.
"É evidente que há o interesse no petróleo, mas há também, diria eu, esse interesse em delimitar uma zona de influência de poder. […] Então não é só o petróleo, passa pelo petróleo, mas passa, principalmente, na minha visão, justamente em delimitar esse domínio americano sobre o Hemisfério Ocidental e se contrapor aos BRICS […] 'Aqui nenhuma outra potência vai interferir porque esse é o meu quintal e aqui quem dá as cartas sou eu'. Foi o que ele deixou claríssimo."
Ele lembra que o segundo mandato de Trump tem na mira o BRICS e a busca do grupo por reduzir a dominância do dólar e frisa que os ataques à Venezuala abrem um "precedente perigoso e grave".
"Nós vínhamos observando ações do governo americano nesse sentido, que eram mais de sanções, questões econômicas, e agora nós vimos um precedente, que é muito perigoso e é grave, que é uma intervenção militar direta em um país da América Latina, que nós não víamos desde 1989 com o Panamá. Então, será que vivemos uma nova Guerra Fria?", questiona o pesquisador.
Quem governará a Venezuela?
Horas após o ataque, o presidente estadunidense, Donald Trump, concedeu coletiva na qual afirmou que os EUA vão administrar a Venezuela até que haja uma "transição adequada" e que não considera novos ataques, se a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, "fizer o que Washington quer". Pouco depois, Rodríguez afirmou em coletiva que Maduro é o único presidente da Venezuela, que "não será colônia de nenhum país".
Fonseca destaca que a retirada de Maduro torna incerto o futuro da Venezuela, sobretudo porque autoridades leais ao presidente venezuelano ainda permanecem no cargo.
"Se gerou um vácuo de poder na Venezuela ou os militares e o chavismo ainda controlam a Venezuela? Nós não sabemos como que os EUA vão fazer uma transição de poder na Venezuela sem a presença de tropas em território venezuelano."
Que impactos o ataque à Venezuela pode ter no Brasil?
Fonseca considera que um dos maiores reflexos do ataque à Venezuela no Brasil será o aumento no número de refugiados.
"Já havia uma grande massa, um grande volume de refugiados venezuelanos. Isso pode aumentar, pode causar um problema ali na fronteira, porque o Brasil tem uma fronteira direta com a Venezuela. Então, essa questão dos refugiados pode se agravar, pode haver um agravamento da crise humanitária na Venezuela", afirma.
Além disso, ele aponta que o ataque e sequestro de Maduro abre um precedente extremamente perigoso no qual "a lei do mais forte se sobrepõe ao multilateralismo" e deixa em aberto "quem será o próximo e por quais motivos".
"É uma intervenção direta armada na soberania de um país da América do Sul. Isso é muito grave, porque abre um precedente perigoso, inclusive para o Brasil."
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