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Analistas apostam em novos recordes da Bolsa, mesmo com dúvida sobre Selic e eleição

03/01/2026
Analistas apostam em novos recordes da Bolsa, mesmo com dúvida sobre Selic e eleição
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O iminente afrouxamento monetário no Brasil, no início de 2026, associado à perspectiva de novos cortes de juros nos Estados Unidos, pode dar novo fôlego ao Ibovespa no começo do ano, dando continuidade a uma série de recordes históricos entre o fim de outubro e o começo de dezembro. A expectativa de especialistas ouvidos pela Broadcast é de que o principal índice da B3 avance em direção ao nível inédito dos 200 mil pontos, talvez já próximo da metade do ano, caso o processo eleitoral também contribua para esse movimento.

As eleições, aliás, podem significar uma trajetória cheia de idas e vindas. Já neste mês de dezembro, por exemplo, houve um ruído político inesperado, que fez o índice retroceder 8 mil pontos em apenas um dia, a partir da máxima de 165 mil pontos. A queda refletiu temores de que não haveria um candidato da direita competitivo na disputa presidencial em 2026.

O temor é o de que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se estenda além do Carnaval. Isso enfraqueceria a perspectiva de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), venha a ser o candidato liberal competitivo, não só capaz de medir forças com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também, na hipótese de vitória, de implementar o aguardado ajuste nas contas públicas já em 2027 - uma combinação que seria o cenário mais benigno, na visão de analistas de mercado, a conduzir uma escalada final do Ibovespa no próximo ano.

Para além do cenário político incerto, que promete muita volatilidade para 2026, outro ponto citado pelos especialistas ouvidos pela Broadcast é a atratividade das precificações, por si. Cálculos do mercado indicam que o preço sobre lucro (P/L) do Índice Bovespa está em torno de 9 vezes, proporção aquém da observada em parte dos pares emergentes: em torno de 12 vezes o lucro estimado. Ou seja, a razão P/L continua em um nível historicamente baixo.

Ainda assim, os riscos fiscais e políticos podem tumultuar a expectativa de prosseguimento dos ganhos no principal índice da B3, mesmo considerando a precificação atual. "Tirando esses ruídos, não é nada absurdo falar de 10 vezes o lucro, o que dá espaço para buscar 170, 180, 190 mil pontos, até os tão sonhados 200 mil pontos. É um nível de precificação justo", diz Matheus Amaral, especialista de renda variável do Banco Inter.

Na mesma direção está a Monte Bravo. "Com um quadro global favorável e a expectativa de queda da Selic a partir de janeiro, continuamos a ver o Ibovespa buscando 180 mil pontos no primeiro semestre de 2026 e atingindo 225 mil pontos no final de 2026, caso o ajuste fiscal crível prevaleça após as eleições", afirma o estrategista-chefe da Monte Bravo, Alexandre Mathias.

O Bank of America (BofA) projeta o Ibovespa a 180 mil pontos em 2026, com um viés de alta de cerca de 9% em relação à máxima de 2025, em um cenário no qual o enfraquecimento global do dólar tende a favorecer mercados emergentes como o Brasil. A instituição avalia que a alta superior a 30% para o Ibovespa em 2025 foi favorecida por um movimento global, mas as eleições locais passarão a ter protagonismo como fator de precificação a partir de abril ou maio, trazendo volatilidade aos ativos brasileiros.

No cenário otimista do BofA, que envolve a futura sinalização de um plano fiscal crível, o Ibovespa pode chegar aos 210 mil pontos - e, no pessimista, pode retroceder aos 130 mil, um viés de baixa de 18%.

Fator Fed, fator Copom

Outro fator a dar amparo a esta expectativa é a de juros globais mais baixos, em particular nos EUA, apesar do sinal de pausa para avaliação emitido no começo de dezembro pelo comitê de política monetária (Fomc) do Federal Reserve, em especial nas palavras do presidente Jerome Powell, cujo mandato expira em maio de 2026.

"Há muita coisa acontecendo ainda nos Estados Unidos. O tom do Fed em sua mais recente decisão surpreendeu, de certa forma. Apesar da cautela, ainda há tom favorável a cortes de juros por lá", diz Nícolas Merola, analista da EQI Research, observando que sempre chamarão atenção eventuais sinais de "leniência" com a inflação em uma composição de Fed conhecida pela dureza, ou rigidez, com relação à meta.

Dessa forma, uma taxa de juros americana mais perto de 3% tende a aguardar novo comando do Fed, provavelmente mais 'dovish' (moderado) quando Powell não estiver mais na instituição, perto do fim do primeiro semestre de 2026, observa Merola.

Enquanto em 10 de dezembro o Fed cortou os juros americanos pela terceira vez, em 0,25 ponto porcentual, empurrando a taxa de referência para o intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano, o Banco Central brasileiro não mexeu na Selic. No mesmo dia e pela quarta vez seguida, o Comitê de Política Monetária (Copom) deixou o juro básico estacionado em 15% ao ano, com um comunicado e uma ata conservadores, dividindo o mercado com relação às estimativas quanto ao mês de início da queda da taxa - havia expectativa para janeiro de 2026, mas sem sinal do Copom em dezembro, a atenção se volta mais uma vez para março, perto do fim do primeiro trimestre.

"Temos um Banco Central emitindo sinais duros, mas um mercado com preços atraentes que ainda podem render um bom período, no início do ano. O mercado brasileiro tem múltiplos e valor patrimonial muito atraentes, mesmo com relação a outros mercados, inclusive desenvolvidos", diz Alvaro Bandeira, coordenador de Economia da Apimec Brasil.

A despeito da ausência de indicação do Banco Central no Copom de dezembro sobre qual será seu próximo passo, Amaral, do Inter, diz que a Selic, e até onde poderá cair ao longo de 2026, é o principal benefício, ou fator macro, a ser colhido ao longo do ano, que promete ser volátil com a eleição presidencial.