Finanças
Golpe da biometria: conheça a nova ameaça do mundo virtual e saiba como se proteger
Empresa de tecnologia já registrou no Brasil 3,6 milhões de rostos com restrições
A identificação por biometria facial é cada vez mais comum nas operações de login, reforçando a proteção dos usuários de internet. Contudo, essa tecnologia também se tornou alvo de criminosos, que desenvolvem estratégias para burlar essa segurança digital. Entre os métodos utilizados, estão a criação de pessoas inexistentes, a busca por sósias entre cidadãos comuns, o furto de fotos e vídeos e a manipulação de imagens para se passar por outras pessoas.
— Hoje, os ataques miram dois grandes alvos: instituições financeiras e cidadãos comuns. Quadrilhas tentam, constantemente, burlar o reconhecimento facial para abrir contas em nome de “laranjas”. Além disso, os golpistas clonam a voz e o rosto de autoridades para divulgar falsos investimentos ou utilizam o WhatsApp para imitar parentes solicitando dinheiro com urgência. O objetivo final dos criminosos é a monetização imediata — diz Anderson Leite, pesquisador sênior de segurança da Kaspersky.
Com o intuito de proteger a si mesmos e seus clientes, as empresas têm investido em tecnologia de ponta e expertise. A Certiface, por exemplo, já registrou mais de 3,6 milhões de rostos com restrições no Brasil, relacionados a tentativas de fraudes de identidade. Entre maio e setembro deste ano, foram impedidos cerca de três ataques a cada minuto em instituições financeiras, varejistas e outros negócios monitorados.
— A validação biométrica é comumente utilizada por bancos e varejistas para proteger operações críticas, evitando prejuízos financeiros. Aliás, varejistas têm se tornado alvos frequentes de fraudadores, uma vez que muitas delas agora funcionam como fintechs, oferecendo a abertura de contas e a emissão de cartões. Os criminosos também tentam desviar mercadorias ao alterar endereços de entrega de produtos comprados em plataformas por pessoas reais — explica Pedro Tavares, diretor da empresa.
Indícios de alta similaridade com identidades cadastradas e incongruências entre aparência e informações de gênero e idade são analisados pela tecnologia, que encaminha casos para reanálise manual. A restrição a um rosto é marcada apenas após essa segunda análise.
Casos recentes
Uma das fraudes destacadas no Mapa da Fraude do primeiro semestre de 2026, divulgado pela Serasa Experian, é o “golpe do sósia”. Criminosos utilizam ferramentas que comparam seu rosto com imagens de outras pessoas disponíveis em diversos bancos de dados, incluindo aqueles obtidos ilegalmente, para encontrar sósias e abrir contas.
Outra fraude, que utilizava dublês biométricos de idosos, desviou R$ 86 milhões do Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas), pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O golpe começava no cartório, onde a quadrilha registrava tardiamente o nascimento de pessoas fictícias. Em seguida, eram emitidos CPFs e carteiras de identidade para esses idosos inexistentes. Para passar pelo cadastro biométrico nos bancos e nas agências da Previdência Social, usavam “dublês”: pessoas reais que emprestavam o rosto e impressões digitais. Em outubro, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou 35 indivíduos envolvidos nessa fraude em Minas Gerais.
Neste mês, o Itaú alertou sobre golpes de engenharia social. Os criminosos, alegando necessidade de confirmar a identidade da vítima para liberar prêmios de sorteios, solicitam a biometria em fotos, vídeos ou reconhecimento facial, seja em abordagens no espaço público ou links fraudulentos. O intuito é abrir contas “laranjas” para movimentar valores oriundos de fraudes.
A coleta de dados é realizada por meio de redes sociais e engenharia social, formas pelas quais os usuários podem se proteger por meio de ações simples.
— A coleta de biometria facial ocorre em um cenário de superexposição e uso da tecnologia, com a inteligência artificial desempenhando um papel crucial. Com a IA generativa, os criminosos não precisam mais de muitas capturas: apenas algumas fotos públicas são suficientes para criar um modelo 3D do rosto da vítima, ou seja, um “clone” para enganar sistemas de reconhecimento — exemplifica Anderson Leite. — Além disso, os golpistas utilizam engenharia social, como ofertas de emprego que exigem selfies segurando documentos, entregando assim a imagem para validação.
A pedido do EXTRA, Leite elaborou dicas para ajudar na proteção da biometria facial e evitar cair em golpes. Confira abaixo:
Faça a sua parte
A proteção da identidade exige uma mudança de comportamento em relação à nossa imagem online.
1. Restrinja a privacidade nas redes: mantenha seus perfis fechados e evite postar vídeos em alta definição, pois esse material é ideal para ferramentas de deepfake.
2. Nunca envie selfies para contatos desconhecidos: desconfie de pedidos de empresas ou recrutadores que solicitem fotos suas com documentos. Verifique pelos canais oficiais antes de enviar.
3. Controle permissões de aplicativos: revise as configurações do celular e revogue o acesso à câmera e à galeria de apps que não precisam dessas funções.
4. Não dependa apenas da biometria: configure o reconhecimento facial no banco, mas sempre em conjunto com um PIN forte ou autenticação em duas etapas.
5. Ative a autenticação em duas etapas (2FA): não confie apenas em uma senha ou reconhecimento facial para proteger contas sensíveis. Ativar a verificação em duas etapas requer códigos adicionais que barram invasões.
6. Use proteção no dispositivo: instale um software de segurança confiável, como o Kaspersky Premium, para bloquear páginas falsas e impedir a instalação de programas maliciosos.
Para evitar ser vítima de fraudes de identidade, como quando alguém simula ser um parente, a chave é a verificação ativa e a interrupção de contato.
7. Faça o “teste de movimento”: durante chamadas de vídeo suspeitas, peça à pessoa para mover a mão em frente ao rosto ou virar rapidamente. Muitos filtros de deepfake falham com movimentos inesperados.
8. Desligue e mude o canal: se receber um áudio ou vídeo de alguém pedindo dinheiro com urgência, desligue. Ligue para a pessoa por um número oficial para confirmar a situação.
9. Tenha uma palavra de segurança: combine uma senha ou frase secreta com sua família para situações de emergência financeira. O criminoso não terá essa informação, mesmo que sua voz pareça idêntica.
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