Finanças

Ataque hacker à Binance afeta quase US$ 6,3 bilhões em ativos e pode ser o maior da história das criptomoedas

Corretora afirma ter congelado cerca de US$ 3 bilhões e promete cobrir todas as perdas; hackers norte-coreanos são apontados como possíveis responsáveis

Agência O Globo - 30/10/2026
Ataque hacker à Binance afeta quase US$ 6,3 bilhões em ativos e pode ser o maior da história das criptomoedas
Ataque hacker à Binance afeta quase US$ 6,3 bilhões em ativos e pode ser o maior da história das criptomoedas - Foto: OpenAI (GPT Image)

A Binance, considerada a maior corretora de criptomoedas do mundo, foi alvo de um ataque hacker que afetou aproximadamente US$ 6,3 bilhões em ativos digitais (R$ 33,9 bilhões na cotação atual). A empresa conseguiu congelar cerca de US$ 3 bilhões (R$ 16,1 bilhões) na blockchain, em coordenação com parceiros, mas uma parcela significativa dos recursos continua sob controle dos invasores. A dimensão do episódio pode torná-lo o maior ataque da história do setor, superando o roubo de US$ 1,5 bilhão sofrido pela corretora Bybit em 2025.

A empresa afirmou que cobrirá todas as perdas com recursos do fundo SAFU e do próprio patrimônio, segundo reportagem da emissora inglesa BBC. Também informou que os depósitos continuaram funcionando normalmente e que não encontrou evidências de vazamento de chaves privadas das carteiras.

A investigação inicial aponta que o ataque pode ter começado com o comprometimento do computador portátil de um engenheiro de DevOps, profissional responsável pela infraestrutura e pelas operações tecnológicas da empresa.

Como o ataque aconteceu?

Segundo o co-CEO da Binance, Richard Teng, o invasor conseguiu acessar um contêiner de serviço e, por meio dele, enviar transações de retirada não autorizadas. O executivo ressaltou que não se tratou de uma operação simples, realizada com as permissões de apenas um funcionário.

"Para deixar claro: o invasor não utilizou simplesmente as permissões de um único engenheiro, e isso não foi uma ação isolada, realizada com um único clique. O ataque envolveu um processo mais complexo. Nossa investigação não atribuiu responsabilidade a nenhum indivíduo. Até o momento, não encontramos evidências de vazamento de chaves privadas de carteiras", explicou em comunicado.

A Binance informou que pretende divulgar uma análise técnica detalhada após a conclusão da investigação e a verificação dos fatos.

Hackers norte-coreanos são suspeitos

Duas empresas especializadas em análise de criptomoedas apontaram uma possível ligação entre o ataque e o TraderTraitor, grupo de hackers associado à Coreia do Norte. A TRM Labs identificou semelhanças entre o episódio da Binance e outros ataques atribuídos anteriormente ao país, incluindo o roubo de US$ 1,5 bilhão da Bybit, em 2025.

A Chainalysis, outra empresa de análise de criptomoedas, afirmou ter "alto grau de confiança" de que o grupo norte-coreano está ligado ao incidente. A autoria, entretanto, ainda não foi confirmada.

Questionada pela BBC sobre uma possível participação da Coreia do Norte, a Binance não respondeu diretamente. A empresa declarou apenas que está "trabalhando em estreita colaboração com nossos parceiros das forças de segurança para confirmar a identidade desses criminosos e levá-los à Justiça".

Hackers norte-coreanos são frequentemente apontados como responsáveis por grandes ataques contra o setor de criptomoedas. Os grupos Lazarus e TraderTraitor são associados a operações criminosas cibernéticas que, segundo especialistas, serviriam para obter recursos financeiros para o regime norte-coreano, submetido a sanções internacionais. O governo do país nega essas acusações.

Binance suspendeu saques e acionou autoridades

Após identificar o ataque, a corretora adotou medidas para proteger os ativos e rastrear os recursos retirados. Entre as providências estão a suspensão temporária dos saques durante uma reformulação de segurança do serviço de retirada e a revogação das autorizações dos endereços afetados.

A empresa também acionou forças de segurança e companhias especializadas em inteligência de blockchain para acompanhar as movimentações e tentar recuperar os ativos.

A co-CEO Yi He informou que os saques ficariam temporariamente desativados até que a segurança do ambiente fosse confirmada. Os depósitos, por sua vez, continuaram funcionando normalmente.

Além da Binance, as plataformas Tether e Circle informaram ter congelado aproximadamente US$ 2,4 bilhões em ativos, somados. A Binance também anunciou que publicará uma versão atualizada de sua Prova de Reservas depois da conclusão das medidas corretivas.

Roubo bilionário contra a Bybit em 2025

O episódio mais próximo em dimensão havia ocorrido em 2025, quando a corretora Bybit sofreu um ataque que resultou no roubo de US$ 1,5 bilhão. Na ocasião, hackers supostamente ligados ao Grupo Lazarus, também conhecido como TraderTraitor pelo governo dos Estados Unidos, foram apontados como responsáveis.

Cerca de duas semanas depois do ataque, pelo menos US$ 300 milhões já haviam sido convertidos em recursos considerados impossíveis de recuperar.

Em agosto, 18 meses após o incidente, o cofundador da Bybit, Ben Zhou, informou que a empresa havia recuperado aproximadamente US$ 48,4 milhões e mantinha outros US$ 30,5 milhões congelados. Ele também afirmou que a corretora havia aberto um processo civil contra a Coreia do Norte e o Grupo Lazarus.

Bitcoin cai mais de 4% após alertas

Após os alertas sobre o ataque à Binance, o Bitcoin registrou uma queda superior a 4%. Ainda não está claro, porém, se episódios dessa dimensão terão efeitos duradouros sobre a confiança dos investidores no mercado de criptomoedas.

Fundada na China em 2017, a Binance é uma corretora centralizada que permite a compra e a negociação de ativos digitais. A empresa reúne centenas de milhões de usuários registrados em diferentes países e oferece serviços como negociação de criptomoedas, carteiras digitais, contratos futuros, títulos, contas de poupança e empréstimos.

A plataforma Binance.US, destinada a residentes dos Estados Unidos, informou que não foi afetada pelo incidente.

A empresa também acumula questionamentos regulatórios. Em 2023, seu então diretor-executivo, Changpeng Zhao, renunciou após se declarar culpado de violações relacionadas à lavagem de dinheiro. Em 2024, a Binance informou manter mais de US$ 160 bilhões em ativos sob custódia.

A investigação sobre o ataque continua. A identidade dos responsáveis, a dinâmica técnica completa da invasão e a possibilidade de recuperar os recursos que permanecem com os invasores ainda não foram esclarecidas.