Finanças

Especialistas indicam que endividamento recorde resulta de crescimento do crédito acima da renda das famílias

Apesar dos programas de renegociação de débitos, endividamento dos brasileiros cresceram em agosto. Inadimplência atinge 8,1%.

Agência O Globo - 30/10/2026
Especialistas indicam que endividamento recorde resulta de crescimento do crédito acima da renda das famílias
Crédito consignado para CLT amplia o debate sobre endividamento silencioso - Foto: Freepik

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro aumentou 0,2 ponto percentual, atingindo 50,1% da renda anual em agosto, segundo relatório do Banco Central (BC) divulgado ontem. É o maior nível registrado na série histórica do BC, considerando o financiamento imobiliário.

Isso significa que mais da metade de tudo o que as famílias ganham ao longo de um ano já corresponde a dívidas, como financiamentos, empréstimos pessoais, crédito consignado e uso do cartão de crédito. O cálculo considera todas as obrigações das famílias junto aos bancos e faz parte da pesquisa Estatísticas Monetárias e de Crédito, do BC. Sem contemplar o financiamento imobiliário, o endividamento representa 31% da renda.

O BC também informou que a inadimplência (atraso superior a 90 dias no pagamento de qualquer parcela) das pessoas alcançou 8,1% em agosto, renovando recorde.

Com o aumento do endividamento, o comprometimento das famílias com o pagamento de dívidas continuou em ascensão em agosto, alcançando um novo recorde desde o início da série histórica em março de 2011. O indicador que mede o percentual do orçamento mensal destinado ao pagamento das dívidas subiu de 28,8% para 29%.

O endividamento das famílias tem sido um dos principais desafios econômicos do terceiro mandato de Lula e deve permanecer no centro das preocupações do próximo governo.

Apesar dos programas de renegociação de dívidas lançados pela atual gestão, o comprometimento da renda dos brasileiros com empréstimos e financiamentos voltou a aumentar.

Aumento de juros

O nível de endividamento das famílias havia caído no início do terceiro governo, até dezembro de 2023, primeiro ano do mandato, quando ficou em 47,7%. Naquele ano, o governo lançou em julho o programa Desenrola, destinado à renegociação de dívidas, que vigorou até maio do ano seguinte.

Mas o endividamento voltou a subir em meio ao novo ciclo de aperto monetário. A alta da taxa básica de juros, a Selic — iniciada em setembro de 2024 — encareceu o crédito e pressionou o orçamento. A Selic atingiu 15% ao ano no pico da série, e atualmente está em 13,75%.

Em meio à pressão sobre os orçamentos das famílias, em maio deste ano, o governo lançou uma nova versão do Desenrola, com descontos de até 90% para a renegociação de dívidas de famílias com renda de até cinco salários mínimos. A iniciativa foi encerrada no fim de agosto, com mais de R$ 22,4 bilhões em dívidas renegociadas.

Em setembro, o governo anunciou uma terceira etapa do programa, que prevê a compra de dívidas antigas pela União para facilitar a renegociação com os consumidores. A expectativa é beneficiar até 15 milhões de pessoas, com o início dos novos acordos programado para fevereiro de 2027.

Estímulo ao consumo

Para especialistas, o endividamento recorde é resultado de um período em que o crédito cresceu mais do que a renda das famílias. A pesquisadora associada do FGV Ibre e analista da BRCG Consultoria, Katherine Hennings, destaca que um conjunto de medidas do governo — como o aumento do Bolsa Família, a expansão de programas como o Minha Casa, Minha Vida, e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil — tem impulsionado o consumo. Com mais acesso ao crédito, as famílias passaram a consumir ainda mais.

A consequência desse endividamento, no entanto, é que uma parcela cada vez maior da renda é destinada ao pagamento de dívidas, muitas delas de curto prazo e sem garantia, o que pressiona o orçamento antes mesmo de contabilizar despesas básicas como luz, água e alimentação.

— Se a economia desacelerar, se as pessoas perderem o emprego ou não tiverem aumento de salário, será mais difícil desalavancar e essas famílias continuarem consumindo. As pessoas ainda não mudaram o comportamento — observa Katherine.

Katherine observa que a queda da Selic ainda não se reflete nas finanças das famílias. Segundo o BC, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas foi de 62,4% ao ano em agosto, alta de 0,6 ponto percentual no mês e de 3,7 pontos em 12 meses.

— Os bancos estão cautelosos, uma vez que a inadimplência subiu consideravelmente e persiste a imprevisibilidade sobre as políticas econômicas a serem adotadas após as eleições e a insegurança em relação à política fiscal — comenta. — O crédito está desacelerando, mas ainda assim, é como se o navio continuasse avançando. Não há uma mudança significativa de rota.

Nível de incerteza

A expectativa de que o Desenrola 3.0 possa reduzir a inadimplência e o endividamento também gera dúvidas na visão de Katherine, uma vez que não está claro como o programa será operacionalizado e quais modalidades de dívida serão contempladas.

A nova versão do programa deve permitir que empresas que possuem carteiras de dívidas as vendam com desconto para a União, fazendo o consumidor passar a dever a um banco público em vez de uma empresa privada.

— Falta uma campanha de esclarecimento sobre as modalidades de crédito e os riscos de endividamento. É uma tarefa difícil para o governo, mas ele fez isso recentemente ao proibir as apostas — salienta.

Outra medida que pode ajudar a reduzir os juros e, consequentemente, o custo do crédito está ligada à comunicação do governo. O quarto mandato do presidente Lula precisará sinalizar aos agentes econômicos que melhorará sua capacidade de pagamento, o que tende a reduzir os juros. Dependendo de quem estiver à frente da política econômica, diz Katherine, o nível de incerteza também poderá ser minimizado.