Finanças

Início do plantio no Brasil deve agravar escassez global de diesel

O aumento dos custos para os produtores pode provocar efeitos em cadeia nas cadeias globais de abastecimento

Agência O Globo - 14/09/2026
Início do plantio no Brasil deve agravar escassez global de diesel
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Brasil está prestes a iniciar a temporada de plantio, mas agricultores como Irineu Orth não estão comemorando o que promete ser um ano recorde para a produção de soja. Isso porque a escassez global de diesel está coincidindo com um aumento sazonal da demanda pelo combustível, essencial para o funcionamento do setor agrícola.

O Brasil é o maior exportador mundial de diversas culturas importantes, como soja, algodão, café, açúcar e suco de laranja. Para colher essas safras, os agricultores precisam de diesel para abastecer tratores e caminhões. O aumento dos custos para os produtores pode provocar efeitos em cadeia nas cadeias globais de abastecimento.

Além disso, como o Brasil é o segundo maior importador de diesel do mundo, atrás apenas da Austrália, o auge da temporada de plantio — fundamental para ajudar a alimentar o mundo — deve agravar a escassez global do combustível.

O país está voltando a depender fortemente das importações americanas, o que pode se traduzir em preços mais altos nos Estados Unidos, o maior fornecedor mundial de diesel, justamente às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.

Orth está se preparando para plantar uma área de 22 mil acres, equivalente a quase toda a extensão do parque Disney World.

— Tudo o que nós, agricultores, fazemos envolve diesel de uma forma ou de outra, e os custos estão simplesmente consumindo nossa margem de lucro — afirmou.

A guerra no Irã provocou turbulências nos mercados globais de energia. Embora parte do petróleo bruto esteja conseguindo atravessar o Estreito de Ormuz, os embarques de derivados refinados, como o diesel, caíram a níveis mínimos nessa rota marítima.

Enquanto isso, a Rússia, um dos principais fornecedores de diesel, proibiu as exportações em meio aos ataques ucranianos contra refinarias, restringindo ainda mais a oferta nos mercados globais.

A demanda por diesel produzido nos Estados Unidos, que já está extremamente elevada, deve aumentar ainda mais nos próximos meses, com o início das temporadas de plantio de soja e algodão no Brasil e a venda da safra de milho de inverno recém-colhida pelos agricultores.

A coincidência sazonal entre o plantio e a colheita leva a demanda por diesel a níveis máximos, quase 200 mil barris por dia acima dos padrões observados fora da temporada.

Em três dos últimos quatro anos, as importações brasileiras de diesel e gasóleo atingiram seu pico em setembro, segundo dados da Vortexa.

Agricultores que estão preparando seus tratores John Deere para o trabalho agora enfrentam os preços sazonais de diesel mais altos em quatro anos, enquanto os conflitos globais provocam turbulências nas rotas comerciais.

Os produtores americanos de diesel, que já chegaram a fornecer mais de 80% do diesel importado pelo Brasil, viram sua participação no mercado diminuir desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022.

O diesel russo, que perdeu acesso ao mercado europeu por causa da guerra, passou a ser enviado para a Turquia, o Brasil e países africanos.

Essa tendência se inverteu em alguns momentos, inclusive neste verão. Em julho, quando a Rússia proibiu as exportações, o Brasil comprou o maior volume de diesel americano em quase quatro anos, segundo dados da alfândega brasileira compilados pela Bloomberg. As importações provenientes da Rússia caíram mais da metade em relação a maio.

Outros fornecedores que anteriormente desempenhavam um papel secundário, como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, também enfrentam restrições devido às interrupções no transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz.

Por sua vez, as refinarias brasileiras estão operando “com bastante eficiência”, próximas de uma taxa de utilização de 95%, segundo Susan Bell, vice-presidente sênior de pesquisa do segmento de refino da Rystad Energy. Ainda assim, o país precisa importar diesel para atender à demanda.

O Brasil está agora excepcionalmente dependente do combustível americano. Mas, segundo Bell, “os Estados Unidos já não têm estoques suficientes para compensar essa necessidade”.

Os produtores americanos de diesel estão operando no ritmo mais acelerado desde antes da pandemia de Covid-19, com a produção de diesel bem acima da média para esta época do ano.

A margem de lucro do refino de diesel está próxima de níveis recordes, e as exportações atingiram um novo recorde semanal no início de agosto.

Ao mesmo tempo, os estoques americanos estão nos níveis sazonais mais baixos já registrados, poucas semanas antes do início da própria temporada de colheita do país e do período em que as empresas de aquecimento residencial começam a formar estoques de óleo para calefação, um produto praticamente intercambiável com o diesel.

Isso deixa poucas alternativas claras para aumentar significativamente a oferta.

— Setembro é um dos meses mais fortes do ano — afirmou Bell. — Temos a temporada de plantio no Hemisfério Sul, a temporada de colheita no Hemisfério Norte, e a demanda por diesel e gasóleo realmente atinge seu pico em outubro.

Atualmente, uma pequena frota de navios-tanque carregados de diesel, provenientes de portos do Golfo dos Estados Unidos, está a caminho da maior economia da América Latina.

É verdade que existem outros possíveis fornecedores para o Brasil. Os cálculos econômicos do transporte marítimo indicam que o diesel proveniente de Ulsan, na Coreia do Sul, é atualmente a opção mais viável para abastecer o porto de Santos, enquanto a operação de embarques americanos está se tornando menos vantajosa, segundo Nikolas Plonski, analista do mercado de diesel da Sparta Commodities.

Mas isso vale apenas até o fim de outubro. Depois disso, com a demanda por diesel ainda elevada e a temporada de plantio brasileira em andamento até dezembro, as exportações a partir de Houston voltarão a ser economicamente viáveis.

Por enquanto, o mercado global de diesel parece capaz de atravessar o outono no Hemisfério Norte sem chegar a uma verdadeira situação de crise, caracterizada por filas nos postos de abastecimento e uma destruição generalizada da demanda.

Mas esse cenário também não está tão distante, afirmou Bell.

— Estamos praticamente no limite do equilíbrio entre oferta e demanda — disse. — Basta que uma grande refinaria dos Estados Unidos pare de funcionar de forma não planejada.

Agricultores como Orth, de 76 anos, dizem que há pouco que possam fazer para compensar os preços elevados nas bombas. Ele terminou de colher a safra de inverno nesta semana e planeja iniciar o plantio em sua fazenda, no estado da Bahia, até meados de setembro.

— Se há algo que aprendi desde que dirigi meu primeiro trator, aos 12 anos, é que nós, agricultores, simplesmente precisamos seguir em frente — afirmou. — Você faz o que precisa ser feito.

Embora os preços do diesel no Brasil continuem elevados, eles recuaram em relação aos picos registrados em março, à medida que as refinarias da Petrobras operam a plena capacidade. Isso levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desses níveis de operação, afirmou Isabella Chiodi, analista da Energy Aspects, em Houston.

— Se uma das grandes refinarias sofresse uma paralisação, as importações, especialmente as provenientes da costa do Golfo dos Estados Unidos, aumentariam substancialmente — disse ela.