Finanças

Checagem profissional de informações nas redes sociais enfrenta crise na América Latina

Especialistas alertam que a falta de conteúdo checado pode comprometer a qualidade do debate público.

Agência O Globo - 10/09/2026
Checagem profissional de informações nas redes sociais enfrenta crise na América Latina
redes sociais

Se os usuários do Facebook e do Instagram na América Latina deixarem de contar com conteúdo checado profissionalmente, como busca a Meta, especialistas afirmam que a qualidade do debate público sofrerá em uma região que vive uma guinada para a extrema direita.

As Notas da Comunidade da Meta, um sistema de moderação coletiva inspirado no modelo do X, do bilionário Elon Musk, foram criadas para substituir a checagem realizada por jornalistas independentes. O Brasil esteve fora da lista, devido às regras estabelecidas pelo governo.

"Uma vez que a Meta continua dominando o consumo de redes sociais na América Latina, sem um programa de checagem, as consequências podem ser consideráveis para que a desinformação se propague mais rapidamente", advertiu Alejandro Martín del Campo, do Observatório de Mídia do Tecnológico de Monterrey.

Programa de verificação da Meta

De acordo com dados do conglomerado LatamChequea, 14 agências da região participam do programa de verificação da Meta, lançado em nível mundial em 2016, entre elas a AFP, em mais de 26 idiomas.

A empresa de Mark Zuckerberg busca colocar a checagem de fatos nas mãos dos usuários mais ativos nas redes sociais, que podem não aplicar "os padrões metodológicos e jornalísticos" seguidos pelos profissionais, advertiu o professor Carlos Rodríguez, da Universidade de la Sabana, na Colômbia.

Outros especialistas consultados pela AFP destacaram que a decisão da Meta pode enfraquecer a qualidade da informação e a saúde da democracia.

Diante de crescentes níveis de polarização e campanhas coordenadas de desinformação, "substituir mecanismos profissionais de verificação por sistemas dependentes de um consenso entre os usuários das redes pode levar a situações preocupantes", alertou o professor de jornalismo Ramón Salaverría, pesquisador principal do Observatório Iberifier.

No Brasil, medidas firmes para regulamentar redes sociais

O Brasil foi excluído da lista de nações latinas onde as Notas serão testadas. O país tomou medidas firmes para regulamentar as redes sociais, levando o professor de jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador Ivan Paganotti a acreditar que a Meta não tomará necessariamente a mesma decisão no país.

"O Brasil possui uma regulamentação que evoluiu e obrigou as plataformas a desenvolver mecanismos de controle e verificação", ressaltou, em contraste com o restante da região.

O uso crescente da inteligência artificial (IA) generativa permitiu que qualquer tipo de conteúdo se espalhasse nas redes em questão de minutos. Por isso, contar agora com "toda uma comunidade que ajude a fornecer contexto" é visto como inicialmente positivo por Marco Benalcázar, diretor do Laboratório de Pesquisa em Inteligência e Visão Artificial Alan Turing, da Escola Politécnica Nacional do Equador.

Contudo, Benalcázar citou estudos que indicam que cerca de 50% dos usuários não estão capacitados para detectar à primeira vista se um conteúdo é verdadeiro, uma média que deve "diminuir à medida que as ferramentas de IA generativa progridem".

Martín del Campo concorda: "Será um desafio para os cidadãos discernir entre informação gerada por IA e fatos reais. Mais do que nunca, as habilidades em alfabetização digital básica são indispensáveis."

Os especialistas preveem que outras redes sociais sigam os passos da Meta em direção a um modelo mais econômico e que as faça parecer neutras diante das críticas sobre a liberdade de expressão formuladas pela extrema direita.

O afastamento da Meta e do X da checagem "sem enfrentar a oposição dos governos, usuários ou da opinião pública deve incentivar outras plataformas a fazer o mesmo", indicou Rafael Rubio, codiretor do Observatório de Desinformação da Universidade Complutense de Madri.