Finanças

Fundo soberano da Noruega quer reduzir exposição a títulos americanos em US$ 80 bi

Redução levaria fatia de Treasuries na carteira de renda fixa da instituição a 50%, diante da turbulência recente nesse mercado

Agência O Globo - 05/09/2026
Fundo soberano da Noruega quer reduzir exposição a títulos americanos em US$ 80 bi
- Foto: Reprodução

O gestor do fundo soberano da Noruega, que administra US$ 2,3 trilhões (R$ 11,7 trilhões), propôs uma ampla reformulação da carteira de títulos públicos da instituição. A mudança pode levar a uma redução de cerca de US$ 80 bilhões (cerca de R$ 408 bilhões) na exposição a títulos do Tesouro dos Estados Unidos, enquanto o fundo busca outras modalidades de dívida para tentar elevar seus retornos.

'Instabilidade geopolítica':

Em carta enviada na terça-feira ao Ministério das Finanças norueguês, o Norges Bank Investment Management recomendou reduzir de 70% para 50% a participação de títulos soberanos no índice de referência de renda fixa utilizado pelo fundo.

Segundo estimativas do Financial Times, as mudanças propostas reduziriam em cerca de US$ 106 bilhões (R$ 504 bilhões) a alocação do fundo em títulos de governos de diferentes países, sendo que a maior parte desse corte recairia sobre os Treasuries americanos. Pouco menos de 26% do patrimônio total do fundo está atualmente aplicado em renda fixa.

A proposta surge em meio à crescente preocupação com o avanço do endividamento público e à forte onda de vendas no mercado global de títulos neste ano, em um cenário no qual a guerra entre os Estados Unidos e a Rússia alimenta os temores de uma aceleração da inflação.

Em queda:

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, interveio diversas vezes no mercado de Treasuries ao longo deste verão no hemisfério Norte, mas os rendimentos dos títulos continuam próximos dos maiores níveis registrados em vários anos.

De acordo com a reportagem, uma menor alocação em títulos do Tesouro americano por parte do Fundo de Pensão Global do Governo da Noruega seria compensada pela compra de ativos de renda fixa de maior risco, especialmente títulos lastreados em hipotecas, conhecidos como mortgage-backed securities (MBS).

Grande parte desses MBS conta com o respaldo de agências governamentais dos EUA, o que significa que a exposição da Noruega ao risco de um eventual calote do governo americano seria reduzida apenas de forma limitada. Esses papéis, porém, oferecem rendimentos ligeiramente superiores aos dos Treasuries, em razão do risco de que as hipotecas sejam quitadas antecipadamente.

De acordo com a carta, “uma participação de 50% em títulos públicos será suficiente para atender às necessidades de liquidez, inclusive durante períodos de turbulência nos mercados financeiros. A parcela restante do índice de títulos deverá proporcionar exposição a outras fontes de prêmio de risco”.

O documento acrescentou que os MBS emitidos por agências são “garantidos pela Fannie Mae, Freddie Mac e Ginnie Mae, e sua qualidade de crédito é próxima à dos títulos do governo dos Estados Unidos”.

A carta, assinada por Ida Wolden Bache, presidente do Norges Bank, e Nicolai Tangen, diretor-executivo do NBIM, foi enviada em resposta a questionamentos feitos pelo Ministério das Finanças no início deste ano sobre o papel e a composição da carteira de títulos do fundo, diz o FT.

Apesar das mudanças propostas, a exposição do fundo ao dólar americano permaneceria “essencialmente inalterada”, segundo um porta-voz do NBIM. De acordo com a carta, a participação de ativos denominados em dólar cairia apenas 0,5 ponto percentual. A exposição do fundo aos Estados Unidos já está abaixo do peso atribuído ao país na maioria dos principais índices globais.

As propostas foram apresentadas após declarações do ministro das Finanças, Jens Stoltenberg, em abril, quando afirmou que o fundo “não tinha planos de reduzir sua exposição aos Estados Unidos”. Na ocasião, alguns parlamentares noruegueses haviam levantado a possibilidade de que o fundo estivesse excessivamente concentrado em ativos americanos.