Finanças

IBGE revela perfil dos trabalhadores por aplicativos no Brasil

Motoristas são a principal categoria, com quase 30% atuando em entregas. Maioria é homem com ensino médio completo.

Agência O Globo - 04/09/2026
IBGE revela perfil dos trabalhadores por aplicativos no Brasil
IBGE - Foto: Reprodução

Os trabalhadores por aplicativo já formam um contingente de quase dois milhões de pessoas no país. A maior parte atua no transporte de passageiros, mas as entregas também representam uma parcela expressiva. São, em sua maioria, homens, com uma escolaridade intermediária e que trabalham por conta própria.

Os dados são da pesquisa sobre trabalho por meio de plataformas digitais, divulgada nesta sexta-feira (dia 4) pelo IBGE. O levantamento, feito em conjunto com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho (MPT), permite traçar um retrato de quem utiliza aplicativos para ter seu sustento.

Ao todo, 1,8 milhão de brasileiros trabalham por aplicativo como atividade principal. Desse total, seis em cada dez (58,9%) atuam com transporte de passageiros, incluindo taxistas. Esse percentual representa quase 1,2 milhão de pessoas.

Outros 29,9%, ou cerca de 585 mil trabalhadores, estavam ligados a atividades de entrega, conforme as respostas do questionário. O grupo restante, de 16%, reunia trabalhadores de outras atividades mediadas por plataformas, como bombeiros, eletricistas e diaristas, que vendem seus serviços por meio dessas plataformas digitais.

O perfil dos trabalhadores por plataforma é marcado por uma forte predominância masculina. Oito em cada dez (84,4%) são homens, enquanto 15,6% são mulheres.

Escolaridade

A escolaridade também é baixa entre a maioria desses profissionais. Apenas 15,2% possuem ensino superior completo, enquanto 84,8% não concluíram uma graduação. Do total de profissionais, 62,5% têm apenas ensino médio completo, enquanto 13,9% têm só o fundamental completo. Outros 8,3% não tinham instrução ou tinham o ensino fundamental incompleto.

A posição na ocupação é outra característica marcante desse mercado: 86,8% dos trabalhadores por aplicativo eram trabalhadores por conta própria. A proporção é muito superior à observada no conjunto dos ocupados no país, em que 28,9% trabalhavam por conta própria.

Renda mensal parecida, mas mais horas de trabalho

Em termos de rendimento, trabalhadores por aplicativo e demais trabalhadores do setor privado ganham, em média, valores parecidos. A diferença fica mais clara quando se relaciona a renda com o tempo dedicado ao trabalho. Em 2025, o trabalhador por aplicativo recebia, em média, R$ 16,20 por hora, contra R$ 18,40 entre os não "plataformizados". Um rendimento por hora cerca de 12% menor.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores por aplicativo cumpriam, em média, 5,4 horas a mais de trabalho por semana, segundo o IBGE. Ou seja, a renda mensal semelhante é alcançada às custas de uma jornada mais longa.

R$ 16,20 é o rendimento por hora dos "plataformizados"

R$ 18,40 é o rendimento por hora dos não "plataformizados"

+ 5,4 horas trabalhadas por semana pelos "plataformizados"

Quanto maior a escolaridade, menor a vantagem em trabalhar por app

A pesquisa revela o quanto a renda de quem trabalha por meio de plataformas digitais pode ser maior quando há baixa instrução. Quem trabalha via aplicativo e tem baixa escolaridade possui um rendimento médio superior ao dos demais trabalhadores da mesma faixa, revela o instituto.

Entre os que não tinham instrução ou tinham ensino fundamental incompleto, a renda média era de R$ 2.445, contra R$ 1.838 entre os não "plataformizados", uma diferença de 33%.

Na faixa dos que só têm ensino fundamental completo, os que atuam por plataforma ganham, em média, R$ 2.615 por mês, contra R$ 2.100 dos que não trabalham via aplicativo. Uma diferença de aproximadamente 24,5%.

O resultado se inverte entre aqueles com ensino superior completo. Nesse grupo, os trabalhadores por aplicativo recebiam R$ 5.133, enquanto os não "plataformizados" tinham rendimento médio de R$ 6.432. Ou seja, a renda dos "plataformizados" era 20,2% menor.

Autônomo, mas nem sempre independente

A pesquisa do IBGE também mostra que escolher quando e onde trabalhar não significa, necessariamente, que a jornada dá total independência em relação às plataformas. Cerca de 38,8%, ou 701 mil pessoas, trabalhavam exclusivamente por plataformas e usavam apenas um aplicativo.

Outros 37,3% combinavam o uso dos aplicativos com outras formas de conseguir clientes ou realizar o trabalho. Já 13,6%, ou 247 mil trabalhadores, combinavam outras formas de trabalho com dois ou mais aplicativos.

Entre os motoristas de aplicativos de transporte particular de passageiros, 81,1% disseram que os horários de trabalho eram influenciados pela possibilidade de escolher os dias e horários de forma independente. Ao mesmo tempo, 56,3% apontaram o efeito de incentivos, bônus ou promoções que alteram os preços. Outros 28,1% citaram a sugestão de turnos e dias, enquanto 25,3% apontaram ameaças de punição ou bloqueio.

A lógica se repete entre outras categorias. A possibilidade de escolher os próprios horários também foi o principal fator citado por taxistas (72,6%), entregadores (71,5%), trabalhadores de atividades de entrega que não eram entregadores (58,2%) e profissionais de serviços gerais ou profissionais (48,9%).

Já os incentivos, bônus e promoções tinham peso maior entre taxistas (50,1%) e entregadores (47,4%). As ameaças de punição ou bloqueio também influenciavam a jornada de mais de 20% dos taxistas e entregadores. Já entre os trabalhadores com ensino médio completo ou superior incompleto, a vantagem diminuía: R$ 2.875 entre os "plataformizados", contra R$ 2.589 entre os demais, uma diferença de cerca de 11%.