Finanças
Consumo das famílias frustra, e economistas já veem menor crescimento da economia no ano
Mercado de trabalho aquecido foi insuficiente para manter o ritmo de gastos das famílias diante do juro elevado e alto endividamento, dizem analistas. Projeções ganham viés de baixa, e ficam entre 1,7% e 2%
A perda de fôlego do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos na economia brasileira, veio acompanhada de uma queda do consumo das famílias que surpreendeu os economistas. A avaliação é de que o mercado de trabalho ainda aquecido não foi suficiente para manter o ritmo de gastos das famílias diante do juro ainda elevado e do alto endividamento. Com o resultado mais fraco, economistas já começam a revisar projeções para o restante do ano e estimam um dinamismo menor da atividade.
O Inter agora espera um PIB de 1,7% em 2026, ante 1,8%. O consumo das famílias deve contrair 0,2% no terceiro trimestre ante o segundo, e depois avançar 0,3% no quarto trimestre ante o terceiro, o que configura um quadro de estagnação. A Galapagos Capital já havia revisado o PIB de 2% para 1,8% este ano, e agora adiciona viés de baixa à estimativa.
Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do FGV Ibre, lembra que, pela ótica da demanda, a economia brasileira vinha crescendo sustentada pelo consumo das famílias, um componente que pesa cerca de 60% na atividade e que avançava ajudado pela expansão do emprego. Mas essa lógica de crescimento se esgotou no segundo trimestre, explica.
Agro e petróleo seguraram atividade no 2º tri
Não fosse o avanço da agropecuária e da indústria extrativa no segundo trimestre, puxados por uma boa safra de grãos e pela aceleração da produção de petróleo e gás, a economia brasileira teria estagnado, calcula Juliana. Em termos percentuais, o avanço seria de 0,003%.
Para a economista do FGV Ibre, o longo período de juros elevados e as condições de crédito restritivas frearam o consumo, que não conseguiu ser sustentado nem mesmo pelas primeiras rodadas do programa Desenrola 2.
— Tem, sim, um esgotamento (do poder de consumo) — avalia. — E isso pode ser ainda mais desafiador adiante porque, independente de quem vá ser o presidente do país ano que vem, haverá algum ajuste fiscal — alerta ela, ao explicar que os estímulos do governo ao consumo das famílias devem perder força nos próximos trimestres.
Alta dos juros demorou a bater na atividade, mas 'já era de se esperar'
Para o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, a retração do consumo das famílias no segundo trimestre, e a estagnação da demanda doméstica como um todo, não é o primeiro sinal de desaceleração da economia e “já era de se esperar”:
— Demorou um pouco, mas a demanda interna reagiu negativamente. Dado o tamanho do juro e o tempo em que as taxas estão em níveis elevados, era de se esperar.
Cagnin chamou a atenção para os efeitos dos juros altos sobre as empresas, provocando problemas financeiros até para algumas grandes companhias. Diante disso, e da incerteza associada às eleições de outubro, os investimentos tenderão a paralisar até o fim do ano — a melhora do ritmo dos investimentos no segundo trimestre, na comparação com o terceiro não deve ser vista como início de um ciclo de aportes, avaliou Cagnin.
De acordo com o economista do Iedi, até aqui, as medidas de estímulo à demanda e à atividade adotadas pelo governo vinham sustentando avanços do consumo, apoiadas também num mercado de trabalho aquecido, mesmo com os juros elevados. Agora, o impulso das medidas “se dissipou”, e a dinâmica de juros e endividamento prevaleceu.
— A menos que venham mais coisas (de medidas), e acho difícil que venha algo de maior envergadura, porque seria contraproducente, porque jogaria ainda mais incerteza em relação à agenda fiscal. O que tinha que ser feito, foi feito e já dissipou, com juros altos e endividamento — completou Cagnin.
PIB 'de lado' no segundo semestre
Para Henrique Danyi, economista do Santander, dados de crédito e do mercado de trabalho já esboçavam uma perda de fôlego que agora se refletiu no consumo. Sem fôlego no orçamento, o brasileiro não encontrou no endividamento uma alternativa de compensação, uma vez que o setor financeiro está mais exigente nas concessões, em meio à inadimplência elevada.
Na visão do economista, a resiliência da atividade no início do ano, impulsionada pelo desempenho recorde da agropecuária e por estímulos fiscais do governo, ajudou a adiar os efeitos da política monetária restritiva e dificultou a previsão do momento em que a economia perderia fôlego.
No segundo semestre, porém, o agro não deve repetir o mesmo impulso, enquanto os estímulos fiscais já não foram suficientes para sustentar o consumo no segundo trimestre. A economia deverá crescer pelo menos 1,8% este ano só pelo carrego estatístico, segundo cálculo do Santander.
— Podemos ter um PIB mais “de lado” no segundo semestre deste ano. Vamos continuar vendo esse acúmulo de enfraquecimento na capacidade de consumo das famílias — diz Danyi, ao prever que o impulso fiscal será menor neste período, e que o rendimento deverá continuar perdendo força. — O crédito também não vai contornar numa velocidade rápida e suficiente para sustentar o consumo.
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