Finanças

PIB da agropecuária cresce 2,8% no segundo trimestre, mas El Niño preocupa para a próxima safra

El Niño e atrasos nas importações de fertilizantes podem agravar o cenário financeiro no campo.

Agência O Globo - 01/09/2026
PIB da agropecuária cresce 2,8% no segundo trimestre, mas El Niño preocupa para a próxima safra
PIB do brasil

Empilhando safra recorde em cima de safra recorde, o PIB da agropecuária avançou 2,8% no segundo trimestre, em comparação aos três primeiros meses do ano, informou nesta terça-feira a Conab. Porém, isso já pertence ao passado, e os produtores do Brasil não tiram os olhos das nuvens no céu — e dos modelos de previsão do clima.

Crise no agro:

A perspectiva de que o El Niño — fenômeno climático marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico, iniciado em meados do ano — seja forte preocupa, pois ameaça a produção de grãos na próxima safra, que se estende de meados de setembro de 2026 a agosto de 2027. Uma quebra agora ocorreria em um cenário de crise financeira, com margens apertadas.

O bom desempenho do PIB agropecuário no segundo trimestre deve-se à produção recorde da safra 2025/2026, que está em seus momentos finais.

Crise no agro:

A estimativa mais recente da Conab, a estatal do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa) que monitora o abastecimento, aponta para uma produção recorde de 352,5 milhões de toneladas de grãos, 3% acima do recorde anterior, registrado na safra 2024/2025.

Os destaques foram os 180,5 milhões de toneladas de soja e os 143 milhões de toneladas de milho, cuja segunda safra está nos momentos finais de colheita no país.

Cenário de crise devido a margens apertadas

Apesar do recorde na produção, o cenário é de crise no campo. Isso se deve ao fato de que as boas colheitas das duas últimas temporadas foram marcadas também pelo excesso de endividamento, juros elevados, encarecimento de insumos e cotações com tendência de baixa, pressionando as receitas.

Como resultado, muitos produtores recorrem à recuperação judicial, e a inadimplência continua sendo um problema. Agora, o quadro financeiro já negativo pode se agravar ainda mais se os desequilíbrios climáticos do El Niño comprometerem safras em todo o país.

El Niño é o principal foco para a próxima safra, diz banco

Em relatório divulgado recentemente, analistas do banco holandês especializado no agronegócio Rabobank destacaram que “o El Niño continua sendo o principal foco para a safra que terá início a partir de meados de setembro no Brasil”.

Os especialistas alertaram que o fenômeno, por si só, “não implica em perdas relevantes de produtividade por secas generalizadas ou enchentes no Sul do Brasil”.

Ainda assim, o relatório lembra que, “em eventos de maior intensidade, aumenta a probabilidade de manifestações das condições tipicamente associadas ao fenômeno”.

Importações de fertilizantes estão atrasadas

Para complicar a situação, o atraso nas importações de fertilizantes, que já se encareceram devido à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, acende um alerta para a próxima safra, segundo os analistas do Rabobank.

<p“As importações acumuladas de ureia entre janeiro e julho de 2026 ficaram cerca de 25% abaixo do volume registrado no mesmo período do ano anterior”, revela o relatório.

Os analistas afirmam que, mesmo “assumindo volumes mensais recordes de importação entre agosto e dezembro”, a projeção é de que o total importado de ureia em 2026 ainda fique cerca de 5% abaixo do observado no ano anterior.

O problema é que menos fertilizantes podem tornar as lavouras ainda mais vulneráveis a um clima adverso, especialmente com a possibilidade da influência do El Niño. “Em um ano em que a preocupação com o clima permanece elevada, uma lavoura bem nutrida pode contribuir para a manutenção de bons níveis de produtividade”, conclui o relatório.