Finanças

Correios enfrentam pior resultado financeiro da história

Prejuízo de R$ 5,5 bilhões no primeiro semestre. Proposta orçamentária de 2027 prevê aporte de R$ 6 bilhões.

Agência O Globo - 31/08/2026
Correios enfrentam pior resultado financeiro da história
Correios - Foto: Reprodução

Em meio a um processo de reestruturação que já dura meses e com a perspectiva de injeção bilionária de recursos da União em 2027, os Correios viram seu prejuízo aumentar 30,4% na comparação com igual período do ano passado, somando R$ 5,5 bilhões. Na proposta de lei orçamentária de 2027 que o governo encaminha ao Congresso hoje, a estatal contará com a garantia de um aporte de R$ 6 bilhões no próximo ano, sinalizando que a crise ainda está longe do fim.

A expectativa

A expectativa do próprio governo é que os Correios encerrem este ano com o pior resultado de sua história, superando a perda recorde de R$ 8,5 bilhões registrada em 2025. O governo alega que a estatal voltará ao lucro em 2027.

Perda menor no 2º trimestre

A estatal destaca que os resultados do segundo trimestre, quando teve prejuízo de R$ 2,4 bilhões, representam uma diminuição de 5,5% em relação ao mesmo período de 2025, já refletindo os efeitos do plano de reestruturação, com redução das despesas com pessoal e melhoria no perfil do endividamento.

Analistas ponderam que o problema estrutural persiste. As perdas foram menores, mas o avanço está longe da magnitude necessária para estancar a crise.

Margem bruta

A empresa continua operando com margem bruta muito apertada, afirma Daniel Pecanka de Andrade, especialista em finanças. Esse indicador mostra o percentual da receita de vendas que sobra após a dedução dos custos diretos de produção ou aquisição de produtos e serviços. No primeiro semestre, a margem foi de R$ 274,5 milhões, considerando receita de R$ 7,9 bilhões menos o custo das entregas. É com essa diferença que a empresa precisa pagar despesas administrativas, comerciais e financeiras.

“Apesar de o prejuízo ter caído no segundo trimestre, não dá para falar em avanço operacional”, diz Pecanka.

Ele acrescenta que os ganhos no período são tímidos frente ao tamanho dos problemas: o custo com pessoal entre janeiro e junho de 2025 e 2026 recuou 4,2%, equivalente a uma economia de R$ 233,7 milhões.

A análise do especialista indica que a estatal apenas ganhou fôlego após ter recebido um empréstimo de R$ 12 bilhões no ano passado com garantia do Tesouro Nacional. No entanto, esse fôlego se mostrou temporário. A direção da companhia está negociando um novo empréstimo de R$ 7 bilhões em condições semelhantes.

E a conta não termina aí. Para assegurar a viabilidade da estatal no próximo ano, o governo incluiu na sua proposta orçamentária a nova injeção de R$ 6 bilhões. Esse montante não é casual, pois fez parte da negociação para a obtenção da linha de crédito do ano passado, que foi discutida com um grupo de bancos em dezembro.

Tensão

Em nota conjunta, os ministros das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho; da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck; e do Planejamento, Bruno Moretti, afirmaram que o objetivo é dar estabilidade à empresa.

“Com isso, a estatal terá maior segurança para seguir negociando com seus clientes e fornecedores, em direção ao bom andamento do seu Plano de Reestruturação e à recuperação dos resultados financeiros positivos da empresa”, afirma a nota.

No texto, os ministros ressaltam que, desde o início do plano de reestruturação, lançado em dezembro de 2025, a empresa tem adotado medidas para reduzir despesas, ampliar receita operacional e equacionar o fluxo de caixa.

Aliado

Para Pecanka, o plano de reestruturação divulgado é genérico, mencionando apenas medidas como o plano de desligamento voluntário (PDV), fechamento de unidades e venda de imóveis. Segundo ele, faltam detalhes, como receitas e despesas de todas as unidades de negócio: serviço postal, encomendas e mercado internacional.

O economista e professor Fernando Soares, ex-secretário de Coordenação e Governança das Empresas Estatais, afirma que o plano de reestruturação em execução nos Correios é insufficiente para reerguer a empresa. Ele destaca que a forte concorrência no setor de entrega de encomendas e a queda do serviço postal exigem um corte drástico das despesas com pessoal.

Ele argumenta que, no futuro, recursos do Orçamento poderão ser utilizados para cobrir despesas com pessoal e que, diante disso, o ideal seria transformar os Correios em uma estatal dependente para aumentar as amarras em relação às despesas.

Sugestões

Soares sugere que o governo inicie discussões com o Judiciário para permitir demissões alegando a deterioração da situação financeira da empresa.

“Essa questão precisa ser enfrentada; o Executivo deve abraçar e recorrer ao Judiciário”, diz Soares.

Na rodada de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência da República, o presidente Lula afirmou, na quinta-feira, que não pretende vender os Correios. O ex-presidente Jair Bolsonaro tentou privatizar a companhia, mas a medida não avançou.

O balanço do semestre apontou uma queda nas receitas do segmento internacional de R$ 460,4 milhões e aumento nas despesas comerciais de janeiro a junho. De acordo com nota explicativa, no caso das unidades terceirizadas, o aumento de custos está relacionado ao maior volume de receitas comercializadas e ao reajuste tarifário aplicado no período.

Agro

Pecanka ressalta a qualidade do serviço e observa que o próprio balanço indica um aumento do gasto com indenizações, resultantes da quantidade de objetos entregues fora do prazo, principalmente no primeiro trimestre.

A nota interministerial destaca que o balanço do segundo trimestre mostra um alongamento e barateamento da dívida, com a empresa encerrando o período sem nenhum empréstimo vencendo no curto prazo, quitando um empréstimo mais oneroso e alongando a dívida de 18 para 180 meses.

A direção da estatal informou que, com o empréstimo de R$ 12 bilhões, quitou antecipadamente a dívida bancária de R$ 1,8 bilhão contratada em 2025. Outro ponto mencionado foi a regularização dos passivos vencidos, que gerou uma economia de R$ 322 milhões.

Na Justiça

A empresa afirma que a despesa com pessoal recuou 4%, mesmo com o reajuste salarial de 5,1%, refletindo o PDV, que já desligou 6.545 empregados, sendo 2.767 deles apenas neste semestre.

‘Resultado desafiador'

Para dar continuidade ao plano, os Correios abriram um novo PDV voltado exclusivamente ao fechamento de mil postos entre agências e unidades de tratamento de carga. A empresa busca avançar em parcerias com o setor público, como aluguel de balcões, e com o setor privado.

“O resultado acumulado do semestre continua desafiador e ressalta a necessidade de continuidade e execução consistente das medidas de reestruturação. A prioridade dos Correios é a recuperação sustentável das receitas, o aumento da eficiência operacional, a revisão de despesas e contratos, além da modernização do modelo de negócios, preservando a qualidade e a cobertura dos serviços prestados à população”, afirma a empresa em nota.