Finanças

O que pensam os CEOs dos principais bancos brasileiros sobre ajuste fiscal, juros e produtividade

Num painel realizado durante a Febraban Tech, feira de tecnologia para o sistema financeiro, em São Paulo, os executivos deram sua visão sobre a agenda econômica necessária para o país.

Agência O Globo - 26/08/2026
O que pensam os CEOs dos principais bancos brasileiros sobre ajuste fiscal, juros e produtividade
O que pensam os CEOs dos principais bancos brasileiros sobre ajuste fiscal, juros e produtividade - Foto: Ilustração de IA

Na visão dos principais CEOs de bancos brasileiros, o equilíbrio fiscal é visto como uma 'urgência absoluta', ligado à estabilidade macroeconômica, à competitividade do país, à queda dos juros e ao desenvolvimento social. No painel realizado durante a Febraban Tech, feira de tecnologia voltada para o sistema financeiro em São Paulo, cada um dos executivos abordou a agenda econômica necessária para o Brasil:

Milton Maluhy, CEO do Itaú

O presidente do Itaú Unibanco destaca a necessidade de o país focar em reformas estruturais e fazer planejamento a longo prazo, em vez de se perder em debates políticos polarizados. Para Maluhy, o social e o fiscal andam de mãos dadas. Ele defendeu que, para sustentar uma agenda social importante e gerar empregos, o país precisa prosperar economicamente.

O executivo alertou que o endividamento do Brasil deve subir cerca de 12 pontos percentuais nos últimos quatro anos, avaliando que a trajetória da dívida nesse ritmo é insustentável.

— O debate público deve parar de focar apenas em superávit ou déficit primário e passar a discutir o déficit nominal. Com uma dívida de R$ 10 trilhões e juros a 14%, essa conta é extremamente complexa no longo prazo — disse.

Maluhy definiu a inflação como o 'pior imposto' para as famílias, pois reduz diretamente o poder de compra. Além disso, afirmou que os juros altos são um sintoma (e não a causa) do problema fiscal, alertando que esse cenário restritivo é prejudicial ao próprio sistema financeiro, pois eleva a inadimplência e reduz a concessão de crédito.

Maluhy criticou o foco excessivo no embate político e defendeu que o país precisa superar a polarização para discutir um plano concreto de desenvolvimento.

— O período de eleições é uma oportunidade para debater propostas reais para o futuro, cobrando dos candidatos planos econômicos claros e diretrizes para áreas essenciais como educação e saúde — explicou.

Defendendo uma agenda focada na produtividade, Maluhy destacou a importância de criar um ciclo virtuoso composto por juros baixos, crescimento do crédito e expansão da economia de forma sustentável, sem pressões inflacionárias.

— O grande desafio do Brasil é melhorar internamente para continuar competitivo globalmente, cobrando disciplina coletiva para a construção de um país melhor.

Marcelo Noronha, CEO do Bradesco

O presidente do Bradesco comentou que, com a dívida pública atingindo quase 82% do PIB, são exigidas medidas urgentes para conter essa proporção. Ele revelou que a área econômica do Bradesco identificou cerca de nove a dez medidas que podem ajudar o governo a fazer ajustes fiscais, totalizando uma economia potencial de aproximadamente R$ 580 bilhões (cerca de 5% do PIB).

— Existem alternativas viáveis, mas sua implementação depende diretamente de vontade política — afirmou.

O executivo defendeu a urgência de alcançar o equilíbrio fiscal e estabilizar a relação da dívida em relação ao PIB para evitar que ela suba desordenadamente. Noronha ressaltou que a geração de superávit primário ainda é fundamental para conter o crescimento da dívida pública e reinserir o país em uma trajetória de crescimento perene.

Noronha pediu que a sociedade e as organizações civis cobrem dos candidatos à presidência (e não apenas seus assessores econômicos) que apresentem e debatam de forma aberta suas propostas para a política fiscal, independentemente de posições políticas.

Gilson Finkelsztain, presidente do Santander Brasil

O novo presidente do Santander Brasil avaliou que o ambiente geopolítico global tem poucas chances de se acalmar nos próximos anos. Finkelsztain comentou que o Brasil e as empresas precisarão aprender a conviver com um mundo mais tenso, marcado por conflitos ativos e barreiras tarifárias comerciais, que não devem ceder no curto prazo.

— Há uma intensa disputa global por informação, dados e pelo protagonismo tecnológico, que envolve e impacta setores altamente estratégicos como a saúde e a inovação de medicamentos — destacou.

Ele sinalizou que há um movimento amplo de expansão fiscal no mundo todo, o que tem empurrado as taxas de juros para cima de forma generalizada — inclusive em países que passaram anos operando com taxas zeradas.

— Esse aumento global de juros gera uma forte competição por capital entre os países.

Diante da complexidade e hostilidade do cenário externo, Gilson afirma que a agenda macroeconômica do Brasil passa a ser duplamente relevante.

— O Brasil precisa agir rápido para 'botar ordem na casa', exigindo o dobro de esforço e rapidez no ajuste fiscal para que o país consiga competir e atrair recursos nesse novo ambiente global mais adverso — disse.

Roberto Saloutti, CEO do BTG Pactual

Roberto Saloutti, presidente do BTG Pactual, argumentou que, embora as agendas de segurança pública, tributária e de produtividade demandem prazos más longos (de quatro a 15 anos), a questão fiscal é algo que pode ser solucionado em apenas um ano, desde que haja um projeto claro de nação.

— A questão do ajuste fiscal é estritamente técnica e de governança, e a gente resolve em um ano.

Ele apontou que os excessos fiscais globais pós-pandemia e os investimentos massivos em inteligência artificial elevaram as taxas de juros no mundo. Diante disso, se o Brasil não fizer seu ajuste fiscal, perderá a disputa global por investimentos produtivos, lembrando que o país já ficou para trás em relação a mercados como Coreia e Taiwan.

Ele comparou o cenário nacional com a Argentina, que garante estabilidade de alíquota tributária por 30 anos para atrair capital estrangeiro.

Saloutti citou a produtividade como um esforço que precisa de dez a quinze anos para ser alcançada, sendo pilar indispensável para melhorar a vida do brasileiro médio.

— O país não pode mais contar apenas com o crescimento populacional para expandir seu potencial econômico. O aumento da produtividade deve ser conquistado por meio de reformas na educação, uso de tecnologia e infraestrutura — afirmou.

O executivo concluiu afirmando que as elevadas taxas de juros de longo prazo cobradas no Brasil são uma consequência direta das fragilidades na governança fiscal.

— Em um cenário de governança adequada, o custo de capital brasileiro medido pela NTN-B (título federal) deveria operar entre 150 e 200 pontos-base (bps) acima da taxa americana. No entanto, sob as condições atuais, o país opera sob forte pressão, situando-se de 500 a 550 pontos-base acima do referencial americano.

Carlos Vieira, presidente da Caixa

Carlos Vieira, presidente da Caixa, disse que, por estar à frente de um banco público, possui a vantagem de ter um acesso mais direto ao governo, participando de discussões 'olhando de perto para a perspectiva de quem está decidindo as políticas'.

— Existe uma preocupação real e direta do Ministério da Fazenda e do presidente da República em buscar o equilíbrio fiscal do país, mas de forma conciliada com o aumento da produtividade e a geração de empregos. A economia é a 'ciência do equilíbrio'.

Ele apontou que a produtividade é um dos principais problemas que o país enfrenta e precisa ser encarada diretamente, defendendo que a política de investimentos será o grande elemento impulsionador para a virada econômica no ciclo que se aproxima.

Livia Chanes, CEO do Nubank para a América Latina

A CEO do Nubank para a América Latina, Livia Chanes, afirmou que o Brasil precisa 'continuar trabalhando nos fundamentos econômicos' para se fortalecer. Ela argumentou que o mundo vive um momento de volatilidade extrema, impulsionado pela dinâmica global e pelas rápidas transformações tecnológicas das últimas décadas.

— A instabilidade e os 'altos e baixos' econômicos — que historicamente sempre foram a realidade do Brasil e da América Latina — agora se tornaram uma realidade mundial.

Diante desse universo, onde 'nada é muito estável', ela defende que a melhor estratégia para as empresas é utilizar a tecnologia para criar modelos de atuação extremamente resilientes, ressaltando que a adaptação para modelos de negócios mais flexíveis e robustos é uma necessidade urgente nesta nova realidade.