Finanças

Prolongamento da crise do BRB pode diminuir custo para o FGC e preocupação do BC com impacto de eventual liquidação

Bilhões já foram resgatados no banco, o que tende a diminuir a conta a ser paga pelo Fundo em eventual liquidação

Agência O Globo - 26/08/2026
Prolongamento da crise do BRB pode diminuir custo para o FGC e preocupação do BC com impacto de eventual liquidação
BRB

A lenta deterioração da liquidez do Banco de Brasília (BRB) em meio à crise provocada pelas operações com o Banco Master pode diminuir o tamanho do problema do ponto de vista do Banco Central (BC) e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em caso de uma eventual liquidação, avaliam interlocutores envolvidos nas discussões.

Caso do Banco Master:

Em crise:

A lógica dessa leitura é que, a cada dia que passa, a liquidez do BRB vai diminuindo com a retirada de dinheiro (ou menor disposição de aportes) de correntistas e investidores, devido à perda de credibilidade e ao temor de que o pior aconteça. O alongamento desse quadro leva a uma diminuição do "passivo", ou seja, dos compromissos que o banco tem a quitar com as pessoas, embora também signifique que ele tem menos condição de sobreviver.

A conta-gotas, se nenhuma solução for encontrada pelo DF, pode chegar a um momento em que o BRB fique sem dinheiro para pagar os compromissos imediatos, levando à liquidação da instituição. Contudo, como menos recursos estão entrando, além dos que já saíram, a exposição do BRB ao FGC vem diminuindo. Já foram alguns bilhões em resgate.

Míriam Leitão:

O fundo cobre investimentos em renda fixa e depósitos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira, com teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Por outro lado, outros credores maiores, como o próprio GDF, que mantém recursos na instituição, podem ter problemas sérios.

'Redução de danos'

O mesmo raciocínio de “redução de danos” vale para a chance de transbordamento do impacto de uma eventual liquidação para o restante do sistema financeiro (risco sistêmico), uma preocupação primordial do BC ao tratar de instituições em crise. A redução da liquidez, na prática, diminui ainda mais o porte do banco. Desse modo, o risco sistêmico, que já era considerado baixo, fica ainda menor.

Isso não altera, porém, o baque significativo que pode ser sentido sobre os serviços e a população do Distrito Federal, caso haja interrupção abrupta do funcionamento do BRB. Ontem, foi aprovada em assembleia da instituição a responsabilização civil de ex-dirigentes pelo prejuízo causado.

Recursos:

A crise da instituição estatal se arrasta desde novembro de 2025, quando vieram a público as suspeitas de transações fraudulentas com o Banco Master, já liquidado pelo BC, e permanece sem uma solução à vista. Os ativos herdados do Master, em troca das carteiras de crédito consideradas fraudulentas, devem deixar um prejuízo de ao menos R$ 8,8 bilhões no balanço do BRB, segundo estimativas informadas no início do ano pelo próprio banco.

Sem dinheiro em caixa, o controlador, o governo do Distrito Federal, vem tentando pegar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao FGC para capitalizar o banco e fechar o buraco, mas enfrenta dificuldades. A governadora Celina Leão (PP) já recorreu até ao Tribunal Federal (STF), que intermediou um acordo com a União para tentar viabilizar o empréstimo. Contudo, além da resistência dos bancos que dariam fiança à operação, a própria operação junto ao FGC é considerada atípica e é vista com ressalvas no Fundo, como mostrou o GLOBO.

Privatização é alternativa

Criado para proteger correntistas e investidores em caso de liquidação de bancos, o FGC pode dar empréstimos a instituições em crise, mas essa opção é normalmente usada para fazer uma ponte temporária de liquidez até uma venda ou para uma saída organizada do mercado.

A privatização do banco distrital é vista por uma série de especialistas e por parte das autoridades como a alternativa que faria mais sentido. A lógica seria separar o prejuízo do banco para o GDF, responsável em última instância pelas ações que geraram rombo na instituição, e deixar a parte boa do BRB para ser adquirida por uma instituição privada.

No entanto, a governadora resiste à privatização do BRB, devido ao entendimento de que seria negativo para a sua campanha ao Palácio do Buriti. Ela era vice do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e assumiu o cargo em março deste ano.

Vender a parcela boa do BRB (“good bank”), na visão de alguns envolvidos nas discussões, seria a melhor opção para a instituição estatal, porque não afetaria nenhum cliente do banco nem os serviços prestados para a população do DF. O BRB tem boa carteira de agropecuária e habitação, além de contas de alto poder aquisitivo dos servidores ativos e inativos do DF.

Essa saída foi usada na crise bancária da década de 90, tanto para o setor privado quanto para os bancos estaduais. O BRB é uma das poucas instituições financeiras ligadas a governos regionais que permanece de pé, mas suas dificuldades mostram como os incentivos para o acionista nesse modelo não são bem alinhados.

Já o BC, observando a evolução do banco, tem poucos instrumentos para forçar uma correção de rota. A multa pelo descumprimento de regras, como o atraso na publicação do balanço, é considerada baixa e não se considera prudente e conveniente mudar isso agora.

Já a hipótese de liquidação é tratada como um processo matemático: a autoridade monetária mede todo dia se há recursos suficientes para pagar os compromissos do período. Liquidar por insolvência ou por descumprimento de regras é visto como cruzar uma linha perigosa no atual arcabouço, além de ser uma espécie de eutanásia de um paciente que se nega a fazer o tratamento que poderia salvá-lo.