Finanças

Fim da escala 6x1: se proposta for aprovada, veja o que pode mudar de imediato ou só depois das eleições

Proposta deve ser votada em comissão do Senado na semana que vem. Redução de jornada, contudo, será feita em etapas

Agência O Globo - 25/08/2026
Fim da escala 6x1: se proposta for aprovada, veja o que pode mudar de imediato ou só depois das eleições
Senado Federal - Foto: Carlos Moura/Agência Senado Fonte: Agência Senado

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 pode avançar no Senado Federal no último esforço concentrado do Congresso Nacional antes das eleições, marcado para a semana que vem. Mesmo que seja aprovada e promulgada nesse período, porém, as principais mudanças para os trabalhadores não serão imediatas.

Pelo texto hoje em análise no Senado, a redução da jornada e a garantia de dois dias de descanso por semana têm alguns prazos para entrar em vigor. A PEC estabelece uma jornada máxima de 40 horas semanais, com dois dias de repouso remunerado e sem redução salarial. A mudança, porém, será feita em etapas: primeiro, o limite cai das atuais 44 para 42 horas e, somente um ano depois, chega às 40 horas.

A Câmara aprovou a PEC em maio. Desde então, a proposta não andou no Senado, que agora prevê uma votação às vésperas das eleições.

O Congresso reduziu as atividades durante a campanha e terá uma nova semana de esforço concentrado entre 31 de agosto a 4 de setembro. O relator, Omar Aziz (PSD-AM), pretende votar seu parecer na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na próxima semana e diz que não pretende alterar o texto da Câmara, o que permitiria concluir a tramitação sem que a PEC precisasse voltar aos deputados.

Se passar pela CCJ, a proposta ainda precisa ser aprovada em dois turnos pelo plenário do Senado, com pelo menos 49 votos em cada um. Como se trata de uma emenda à Constituição, não há sanção presidencial. Se os senadores mantiverem integralmente o texto da Câmara, a PEC poderá ser promulgada pelo Congresso.

O que começa a valer imediatamente?

O texto determina que a maior parte da emenda entre em vigor na data de sua publicação. Isso, no entanto, não inclui a redução imediata da jornada nem a adoção imediata de dois dias de folga. Para essas mudanças, a própria PEC estabelece um período de transição.

Desde a publicação, fica assegurado que a redução futura da jornada será aplicada também aos contratos de trabalho que já estiverem em vigor e deverá ocorrer sem redução de salário, seja nominal ou proporcional. A proteção alcança ainda os pisos salariais.

A PEC também estabelece desde a entrada em vigor que jornadas que já sejam de 40 horas semanais ou menos não terão uma redução proporcional automática. Esses trabalhadores, porém, também passam a ter direito aos dois dias de descanso quando essa parte da mudança entrar em vigor, dois meses depois.

Outra regra com vigência imediata atinge empregados com diploma de nível superior e remuneração mensal de pelo menos duas vezes e meia o teto do INSS. Para esse grupo, as regras constitucionais relativas à duração e ao controle da jornada deixam de ser aplicadas, salvo se o empregador decidir mantê-las ou houver previsão em acordo ou convenção coletiva. A exceção não vale para empregados públicos.

O que muda depois de dois meses?

É nessa etapa que aparecem as primeiras mudanças práticas para a maior parte dos trabalhadores.

Dois meses depois da publicação da emenda:

  • a jornada máxima semanal cai de 44 para 42 horas, sem redução salarial;
  • passam a ser garantidos dois dias de repouso semanal remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos;
  • deixam de valer cláusulas de acordos ou convenções coletivas sobre jornada e repouso que sejam incompatíveis com as novas regras.

Isso significa que, se a PEC for aprovada e promulgada durante o esforço concentrado do início de setembro, as duas mudanças de maior impacto imediato para os trabalhadores — a redução para 42 horas e o segundo dia de descanso — só começariam a valer no início de novembro, portanto após os dois turnos da eleição.

Durante a fase em que a jornada máxima estiver em 42 horas, acordos e convenções coletivas poderão ampliar a duração diária do trabalho para distribuir essas horas ao longo da semana, desde que sejam respeitadas as regras de descanso.

Quando a jornada cai para 40 horas?

A etapa seguinte só ocorre um ano depois do início da jornada de 42 horas. A partir daí, o limite semanal passa definitivamente para 40 horas.

Na prática, portanto, o texto estabelece uma transição total de 14 meses a partir da publicação da emenda: dois meses até a redução para 42 horas e mais 12 meses até a jornada de 40 horas.

Se a PEC fosse promulgada no começo de setembro deste ano, por exemplo, a jornada de 42 horas começaria a valer em novembro de 2026 e o limite de 40 horas seria alcançado apenas em novembro de 2027.

Todo trabalhador terá necessariamente uma escala 5x2?

Não exatamente. Embora a PEC seja conhecida como proposta do “fim da 6x1”, o texto permite regimes diferenciados.

Convenções e acordos coletivos poderão estabelecer formas de compensação para determinadas atividades, desde que assegurem, na média do mês, dois dias de repouso por semana. A PEC exige ainda que pelo menos um desses dias de descanso seja usufruído dentro de cada período máximo de uma semana de trabalho.

O texto também permite que leis estabeleçam condições específicas para regimes diferenciados de trabalho, desde que respeitados os limites constitucionais de jornada e descanso.

E quem trabalha em contratos de terceirização do poder público?

A PEC estabelece uma transição específica para contratos já existentes da administração pública que envolvam diretamente mão de obra, como serviços terceirizados.

Nesses casos, a redução da jornada depende inicialmente de um aditamento do contrato para preservar seu equilíbrio econômico-financeiro. Esse ajuste deverá ser feito em até um ano após a publicação da emenda. Se não houver aditamento nesse período, as novas regras passam a alcançar os trabalhadores de qualquer forma ao final do prazo.

Por que o calendário virou uma questão eleitoral?

A diferença entre a aprovação e a entrada em vigor ajuda a explicar a corrida no Congresso. Lula tem defendido o fim da escala 6x1 como uma das bandeiras de sua campanha, e aliados trabalham para concluir a votação durante o último esforço concentrado antes das eleições.

Na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), aliados tentam empurrar a análise para depois do pleito. A estratégia passa por usar instrumentos regimentais, como pedidos de vista e apresentação de emendas, para consumir o pouco tempo disponível no Senado. O grupo evita se posicionar simplesmente contra o fim da 6x1 e argumenta que uma mudança dessa dimensão não deveria ser decidida em meio à campanha eleitoral.