Finanças
De ‘química excelente’ a tarifaço: as idas e vindas da relação entre Lula e Trump
Presidentes voltaram a conversar nesta sexta-feira, após meses marcados por encontros amistosos, divergências comerciais, atritos sobre a família Bolsonaro e disputas em torno da soberania brasileira.
A conversa de uma hora e vinte minutos entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta sexta-feira abriu um novo capítulo de uma relação que oscilou, em menos de um ano, entre manifestações públicas de proximidade e uma sequência de atritos políticos, comerciais e diplomáticos.
Segundo o Palácio do Planalto, o telefonema ocorreu em tom amistoso e cordial. Lula defendeu a retomada das negociações sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos, enquanto Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais e propôs que equipes dos dois países voltem a se reunir o mais brevemente possível.
A disposição para o diálogo contrasta com o clima dos últimos meses. Desde o primeiro encontro entre os dois, em setembro do ano passado, a relação passou pela declaração de uma “química excelente”, uma reunião de três horas na Casa Branca, críticas de Lula ao comportamento “imperial” de Trump e medidas americanas que foram interpretadas pelo governo brasileiro como interferência em assuntos internos do país.
Veja os principais episódios:
Primeiro encontro e ‘química excelente’
Lula e Trump tiveram o primeiro contato pessoal em setembro de 2025, nos bastidores da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. O encontro foi breve, mas o presidente americano afirmou depois que os dois haviam demonstrado uma “química excelente”.
A declaração foi recebida como um sinal de que, apesar das diferenças políticas e ideológicas, os dois governos poderiam estabelecer uma relação pragmática.
Reunião na Malásia
No mês seguinte, Lula e Trump voltaram a se encontrar durante uma viagem à Malásia. A conversa representou uma tentativa de transformar a aproximação inicial em um canal mais permanente entre os dois governos.
Naquele momento, o Palácio do Planalto buscava preservar a relação com os Estados Unidos sem aderir automaticamente às posições da Casa Branca em temas internacionais.
Lula vai à Casa Branca
A aproximação ganhou força em 7 de maio deste ano, quando Lula foi recebido por Trump na Casa Branca. O encontro, acompanhado por ministros dos dois governos, durou cerca de três horas e incluiu um almoço.
A duração da reunião foi interpretada por integrantes do governo brasileiro como sinal de que havia espaço para negociar divergências. A expectativa, porém, durou pouco.
Trump recebe Flávio Bolsonaro
No início de junho, Trump recebeu na Casa Branca o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência. O gesto teve repercussão política no Brasil e aumentou a desconfiança do Planalto em relação à atuação do governo americano durante a campanha eleitoral.
A proximidade de Trump com a família Bolsonaro se tornou uma das principais fontes de tensão com Lula, que passou a cobrar publicamente respeito à soberania brasileira e às regras eleitorais do país.
EUA anunciam medidas contra o Brasil
Após a visita de Flávio, o governo americano avançou em medidas que contrariaram o Planalto. Entre elas estava a abertura do caminho para uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros.
O Brasil também foi incluído em outro grupo de países atingidos por uma taxa de 12,5%, aplicada sob a alegação de falhas no combate à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. As duas cobranças se somam, embora haja exceções para determinados produtos.
A administração Trump ainda citou supostas práticas comerciais desleais relacionadas ao Pix, ao etanol, à propriedade intelectual, ao desmatamento e ao combate à corrupção. O governo brasileiro rejeitou as acusações.
PCC e Comando Vermelho entram na disputa
Outro foco de atrito foi a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O governo Lula tentou evitar a medida por considerar que a classificação poderia abrir espaço para interferências externas. A posição brasileira é que as facções devem ser tratadas como organizações criminosas, com os instrumentos já previstos na legislação nacional.
Conversa e críticas no G7
Lula e Trump voltaram a se encontrar em junho, durante a cúpula do G7, na França. Não houve uma reunião bilateral formal, mas Trump afirmou ter passado “bastante tempo” com o presidente brasileiro.
Ao comentar a situação política do Brasil, o americano classificou o país como “complicado” e “um pouco perigoso politicamente”. Também mencionou a situação dos filhos de Jair Bolsonaro, embora tenha confundido informações sobre Flávio e Eduardo Bolsonaro.
Lula acusa Trump de interferência
As declarações provocaram uma reação direta de Lula. O presidente brasileiro disse que Trump poderia manter sua preferência pela família Bolsonaro, mas não deveria interferir nas eleições do Brasil.
— Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil — afirmou.
Lula também disse que Trump conhecia pouco o país caso sua visão sobre o Brasil estivesse baseada apenas na relação com os Bolsonaro.
‘Imperador’ e ‘coisa desaforada’
Na mesma ocasião, Lula acusou Trump de agir como “imperador” e classificou como uma “coisa desaforada” a ameaça de impor novas tarifas enquanto os dois governos ainda mantinham negociações comerciais.
O presidente brasileiro também ironizou as críticas ao sistema eleitoral e afirmou que levaria uma urna eletrônica a um próximo encontro para explicar ao americano como funcionam as eleições brasileiras.
Tarifa passa a valer
A tarifa adicional de 25% entrou em vigor em 22 de julho. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a medida alcançou 15% do volume exportado pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025, equivalente a US$ 5,8 bilhões.
Entre os setores mais afetados estão madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, produtos cerâmicos e açúcar.
Brasil recorre à OMC
Diante da entrada em vigor da cobrança, o governo brasileiro acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) e pediu consultas formais com os Estados Unidos.
A abertura da disputa foi uma reação às tarifas, mas o Planalto manteve o discurso de que ainda preferia uma solução negociada.
Atritos diplomáticos
A tensão também chegou ao campo diplomático. O governo americano revogou o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti.
Brasil inicia processo de reciprocidade
Na semana passada, o governo brasileiro notificou oficialmente os Estados Unidos sobre o início do processo de aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica.
O mecanismo permite ao Brasil adotar contramedidas diante de decisões unilaterais que prejudiquem empresas e produtos nacionais. Mesmo com a iniciativa, integrantes do governo afirmaram que a prioridade continuava sendo uma saída diplomática.
Telefonema reabre canal de negociação
Na conversa desta sexta-feira, Lula afirmou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para as tarifas são “infundadas” e ressaltou que as taxas prejudicam empresas e consumidores dos dois países.
Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e sugeriu a retomada rápida das reuniões entre representantes dos governos. A ligação não produziu o anúncio de redução ou retirada das tarifas, mas restabeleceu diretamente o diálogo entre os dois presidentes.
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