Finanças

Casas Bahia pede recuperação judicial e busca empréstimo de R$ 1 bilhão

Ações da companhia sofreram forte oscilação e fecharam em baixa de 33%, a R$ 0,44

Agência O Globo - 18/08/2026
Casas Bahia pede recuperação judicial e busca empréstimo de R$ 1 bilhão
Casas Bahia - Foto: Reprodução

A Casas Bahia protocolou na noite de domingo um pedido de recuperação judicial com dívidas que somam R$ 17,3 bilhões e um total de 28 mil credores, no que chamou de “a pior crise desde sua fundação”, há 74 anos. A varejista divulgou, com atraso, um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, atingindo 18 vezes acima do resultado registrado no mesmo período do ano passado. Em um retrato da turbulência, as ações da companhia tiveram uma negociação suspensa várias vezes ao longo do pregão de ontem, diante da forte oscilação, e fecharam em baixa de 33%, a R$ 0,44.

A varejista fechou 298 lojas, correspondendo a 30% do total, além de ter demitido quase 3 mil funcionários, ou 10% do efetivo. Nas palavras do CEO Renato Franklin , as lojas fechadas “estavam na UTI”, referindo-se à rentabilidade inferior à média do grupo.

Por agora, não estão previstos novos cortes ou encerramento de unidades, mas, caso o cenário macroeconómico se deteriore ainda mais no próximo ano, o executivo afirma que a empresa será obrigada a “voltar para a prancheta para redimensionar”.

“A restrição das condições econômico-financeiras” do país é uma justificativa para a crise apresentada pelo grupo à Justiça. Analistas ponderam que o cenário macro é fator decisivo para a crise do varejo, afetada pela taxa Selic elevada e o endividamento das famílias, mas observam que fatores de governança da própria empresa também influenciam a situação.

— A melhoria da renda e do desemprego em baixas históricas não está se traduzindo em crescimento das vendas, e os juros também não ajudam. Num cenário como esse, empresas que estão muito individualizadas ou que enfrentam desafios de gestão, como as Casas Bahia , que acumulam dívidas trimestre após trimestre, são as que sofrem, pois não há gordura para queimadura — analisa Eduardo Yamashita , sócio-diretor da consultoria Gouvêa Inteligência.

Reposição de estoques

Entre os fatores que deflagraram o pedido de proteção contra credores estão notificações de vencimento antecipado de fornecedores, como Hisense e Lenovo , que recebem, respectivamente, R$ 134 milhões e R$ 137 milhões.

O plano da empresa para superar a crise tem duas frentes de ação: ajuste nos canais digitais para priorizar vendas mais rentáveis ​​e a negociação de um empréstimo DIP — do inglês devetor in possess, que, na prática, significa um tipo especial de financiamento a empresas em recuperação judicial, cobrado para pagar custos do dia a dia, como funcionários e fornecedores, e manter o negócio operando durante uma crise.

Segundo fontes, há negociações em curso com instituições financeiras para a concessão de crédito. De acordo com o Valor , a cifra em discussão é de R$ 1 bilhão.

Em resultados do segundo trimestre, a companhia cita dificuldade em relatório de estoques de 2026, a capacidade de recomposição dos estoques foi restringida em relação aos níveis originalmente planejados pela Administração”, diz trecho do resultado, que menciona ainda que os dias de estoque transferidos de 95, em 31 de março, para 75, em 30 de junho deste ano.

Entre as varejistas, a Casas Bahia é apontada como empresa com forte presença física. Atualmente, o grupo conta com site e aplicativo próprios, além de vender em marketplaces parceiros, como Mercado Livre , Shopee e Amazon .

Franklin que o grupo decidiu reduzir as transações previstas caras e, em alguns casos, optar por marketplaces parceiros, cuja comissão pode representar um custo menor do que o necessário para gerar tráfego por conta própria, mas o executivo não revelou maiores detalhes da estratégia.

O pedido de recuperação inclui 28 mil credores, em uma lista que vai de bancos e fundos de investimento até grandes fornecedores de equipamentos eletrônicos e eletrônicos vendidos por varejistas. A maior parte das dívidas, R$ 16,4 bilhões, é do tipo quirografária, ou seja, sem garantia real, como subsídios com fornecedores. As dívidas de natureza trabalhista somam R$ 754,5 milhões.

Em valor, a Zurich Minas Brasil Seguros , parceira na oferta de seguros como garantia contínua e proteção a celulares e eletrônicos, encabeça a lista, com R$ 1,97 bilhão a receber. Outro destaque é o fundo de investimento usado pela companhia para estruturar operações, o IBCB-AF01, com R$ 1 bilhão em aberto.

Na sequência, fornecedores de peso aparecem, como a Samsung , com R$ 937,6 milhões a receber do varejista. Também incluem a lista a Electrolux , com R$ 700 milhões, a Whirlpool , dona da Brastemp , com R$ 635,9 milhões, a LG , com R$ 623,7 milhões, e a Motorola , com R$ 619 milhões.

Dependente do crediário

Entre as instituições financeiras, o Bradesco tem valor a receber de R$ 655,6 milhões, considerando os montantes devidos ao próprio banco e ao Digio , controlado pelo Bradesco. A lista inclui ainda o Banco do Brasil (R$ 598,1 milhões) e o Itaú (R$ 208,3 milhões).

Em seu pedido à Justiça de São Paulo, a Casas Bahia afirma que o aumento da Taxa Selic desde 2021 causou “efeitos especialmente severos”, uma vez que sua operação é “estruturalmente dependente” do crediário. Os carnês, tradicionais na empresa criada na década de 1950, responderam por 15,9% das vendas. Entre abril e junho, a carteira de crediário da rede era de R$ 6,3 bilhões.

Na sua justificativa para a proteção contra credores, o varejista cita que os juros altos aumentados o custo com a manutenção de estoques, um fator-chave para o desempenho no setor, e as operações de risco sacadas com fornecedores. Nesse modelo, os bancos anteciparam os fornecedores o pagamento pelas mercadorias vendidas às varejistas, que ganham um prazo maior, com juros, para quitar a dívida com a instituição financeira.

A Casas Bahia atribuiu uma crise, que se agitou a uma espiral de resultados negativos em balanço, ao efeito da inflação, que atingiu ainda mais a renda das famílias mais pobres, e ao aumento da concorrência com plataformas internacionais, como Amazon e Mercado Livre .

Em 2024, um varejista já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,1 bilhões.

— A companhia já havia tentado uma solução extrajudicial e, diante da evolução do seu individualismo e da necessidade de uma reestruturação mais ampla, passa a utilizar um instrumento que permite alcançar um universo maior de credores e oferece maior proteção jurídica à empresa durante a negociação — diz Eduardo Vieira , advogado empresarial e sócio do Vieira e Serra Advogados .

O pedido inclui outras novas empresas do grupo, incluindo a Bartira , maior fabricante brasileira de móveis. Se a proteção for aprovada, as cobranças ficam suspensas por 180 dias, período que pode ser prorrogado por igual período.

— A recuperação judicial é um instrumento para fortalecer a continuidade da operação, negociando de forma organizada com todos os credores — afirmou Franklin ontem, em teleconferência de resultados.