Finanças

Movimentações da mãe em bets levaram estudante a perder bolsa do Prouni. Entenda o caso

Após repercussão do caso, estudante diz que representante do Ministério da Educação o procurou e marcou uma reunião

Agência O Globo - 07/08/2026
Movimentações da mãe em bets levaram estudante a perder bolsa do Prouni. Entenda o caso
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O estudante Eduardo Luvizetto, de 30 anos, viu o sonho de cursar Psicologia ser interrompido após ser pré-selecionado para uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni) e ter o benefício indeferido devido a movimentações financeiras da mãe em plataformas de apostas on-line serem consideradas na análise da renda familiar.

O caso ganhou repercussão nas redes sociais e chegou ao Ministério da Educação (MEC). Segundo Luvizetto, uma representante da pasta entrou em contato com ele nesta sexta-feira e marcou uma reunião sobre o caso.

O Prouni oferece bolsas de estudo integrais (que custeiam 100% do valor da mensalidade) e bolsas parciais (50%) em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior. O requisito para ter a bolsa integral é comprovar a renda familiar menor ou igual a 1,5 salário-mínimo por pessoa. Para a bolsa parcial (50%), a renda familiar não pode ultrapassar três salários-mínimos por pessoa.

Entenda o caso

Morador de Campinas, no interior de São Paulo, Luvizetto conta que tentou ingressar no ensino superior durante três anos até ser pré-selecionado para uma bolsa integral de Psicologia em uma unidade da Universidade Paulista (Unip). Segundo ele, toda a documentação exigida foi apresentada, incluindo extratos das movimentações financeiras da mãe, que é aposentada e recebe um salário mínimo (R$ 1.621), com quem mora.

Após entregar os documentos, ele foi chamado à universidade e informado de que a bolsa havia sido reprovada por conta de movimentações financeiras da mãe em casas de apostas on-line. O estudante afirma que tentou explicar que os valores movimentados não representavam renda.

— Eu contestei e disse que dá para ver quanto entra e quanto ela perde. Eles colocaram até um empréstimo consignado que minha mãe fez para apostar como renda. Mas empréstimo é dívida, não é renda. Ele gera um pagamento, uma cobrança, não um lucro. Eles consideraram todos esses valores provenientes das casas de apostas e indeferiram minha bolsa — afirma.

Luvizetto diz que vive de trabalhos informais. Ele possui um MEI, mas afirma que o registro serve apenas para contribuir com o INSS. O estudante também mantém, ao lado do irmão gêmeo, a página "Vegano Periférico" no Instagram. O irmão mora em Florianópolis, onde cursa Geografia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A história ganhou repercussão nas redes sociais após Luvizetto relatar o caso em seu perfil no Instagram. Segundo ele, a decisão de tornar a situação pública foi difícil, pois queria preservar a mãe.

— Quando recebi a reprovação, entrei em estado de choque. Não acreditava que tinha perdido a oportunidade de estudar o curso dos meus sonhos por causa de jogo on-line. Eu nunca apostei, nunca nem baixei um aplicativo. Foi um baque muito grande, fiquei muito frustrado. Sempre que eu contava para alguém o que estava acontecendo, percebia o tamanho da situação. Minha mãe também sofreu muito com tudo isso e passou a noite inteira jogando — relata.

Repercussão

Após a repercussão do caso, o estudante afirma que recebeu apoio de pessoas que se sensibilizaram com sua história. Uma psicóloga entrou em contato e ofereceu atendimento à mãe. Além disso, um advogado se colocou à disposição para auxiliá-lo.

O EXTRA procurou o Ministério da Educação, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. No entanto, Luvizetto afirma que foi procurado por uma representante da pasta nesta sexta-feira e aguarda uma reunião, da qual participará acompanhado do advogado.

Segundo ele, o objetivo agora é esclarecer quem foi o responsável pelo indeferimento da bolsa e quais critérios foram utilizados na análise da renda familiar.

— Estamos tentando descobrir quem indeferiu a bolsa. Se foi a Unip ou o MEC — diz.

O que diz a universidade

Em nota enviada ao g1, a Unip reconheceu a entrada constante de valores vinculadas a apostas on-line e destacou que "prêmios são considerados renda, de acordo com a lei que rege o imposto de renda, sendo isentos de declaração ganhos até R$ 28.467,20 por ano".

Sobre os empréstimos, a Unip disse que "o Programa não considera despesas do grupo familiar, apenas a renda bruta familiar/per capita mensal" e ressaltou que "as entradas de empréstimo não são recorrentes, e não foram consideradas como renda".

Veja a nota na íntegra:

O candidato em questão entregou a documentação para concorrer à bolsa do ProUni, no entanto, há uma grande entrada de valores, de forma constante, vinculadas a jogos virtuais de apostas.

Prêmios são considerados renda, de acordo com a lei que rege o imposto de renda, sendo isentos de declaração ganhos até R$ 28.467,20 por ano.

Ele afirma que a mãe tem ludopatia, o vício em jogos, mas essa informação não é agravante ou determinante para aprovação no processo.

O candidato alega valores descontados da renda de sua mãe, como empréstimos feitos em folha para pagar por esses jogos, mas o Programa não considera despesas do grupo familiar, apenas a renda bruta familiar/per capta mensal, caso contrário teríamos como bolsistas os mais endividados, e não o grupo com menor renda.

Vale ressaltar que as entradas de empréstimo não são recorrentes, e não foram consideradas como renda.