Finanças

Governo Lula deve protelar reciprocidade contra produtos americanos após novo tarifaço

Executivo brasileiro tem repetido que pode adotar instrumentos previstos na legislação, mas aplicação é tratada com cautela nos bastidores

Agência O Globo - 24/07/2026
Governo Lula deve protelar reciprocidade contra produtos americanos após novo tarifaço
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Apesar do anúncio feito em nota de que acionaria imediatamente os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade diante da nova tarifaço anunciada pelos Estados Unidos na quinta-feira, o governo brasileiro não deve importar, no momento, taxas equivalentes a produtos americanos. A expectativa é que nenhuma iniciativa nesse sentido entre em vigor antes da eleição de outubro.

De acordo com um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil precisa ser cuidadoso para não dar um tiro no próprio pé ao importar a reciprocidade. No momento, o anúncio de recorrer ao mecanismo serve mais para colocar pressão nas negociações e para tentar evitar novas medidas por parte dos Estados Unidos . A avaliação é que, sem colocar a Lei de Reciprocidade na mesa, o governo entraria fraco para discutir a questão tarifária.

Na quinta-feira, os Estados Unidos decidiram taxar em 12,5% os produtos brasileiros com o argumento de que o país falha ao importar itens vinculados ao trabalho forçado. O Brasil não é o único a sofrer com esses impostos, embora passe a ser o país com o maior aumento percentual de tarifas durante o segundo mandato de Donald Trump . No total, 60 países foram alvo desta investigação.

A nova tributação já era esperada pelo governo brasileiro. Em nota divulgada após o anúncio da tarifa pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o Palácio do Planalto disse que rechaça a decisão dos Estados Unidos e acrescentou que, “tendo em vista o caráter completamente arbitrário e injustificado das tarifas anunciadas contra o Brasil, iniciaremos imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovados por unanimidade pelo Congresso Nacional”.

Mas, membros do governo alegaram que apenas aplicarão de fato a reciprocidade a produtos que não prejudicam a economia brasileira. Além disso, a ideia é ouvir os empresários. Na semana passada, depois de se reunir com o vice-presidente Geraldo Alckmin para discutir o tarifaço anterior de 25%, o setor de máquinas e equipamentos, por exemplo, se posicionou contra o uso da Lei da Reciprocidade, defendendo que a saída para o impasse comercial passa pela negociação e não pela revanche.

Uma eventual tributação aos produtos americanos só seria imposta agora para o caso de haver produtos similares produzidos por outros países. Outra opção levantada pelos membros do governo brasileiro, prevista na Lei de Reciprocidade, é suspender as obrigações de propriedade intelectual de produtos americanos, com o bloqueio de remessas de royalties.

O roteiro definido pelo governo em relação à reciprocidade só mudaria, segundo auxiliares de Lula , se os Estados Unidos adotassem novas medidas de retaliação ao país. Nesse caso, a gestão federal poderia importar imediatamente taxas aos produtos americanos.

Um outro caminho definido pelo Planalto diante das tarifas americanas é a busca de novos mercados para os produtos brasileiros. Nesse caso, a aposta principal está nos acordos de livre comércio do Mercosul . O bloco já assinou um acordo com a União Europeia e abriu negociações com o Japão e Canadá . Há expectativa de retomada das negociações com o Canadá . O Brasil também aposta na expansão da venda de produtos para a China como forma de compensar a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos .