Finanças

Por que o Brasil está sendo taxado de novo pelos Estados Unidos?

Em uma das frentes, governo americano alega que o Brasil tem práticas desleais de comércio, o que incluiria até o Pix. Na outra, EUA acusam o governo brasileiro de falhar no combate ao trabalho forçado.

Agência O Globo - 24/07/2026
Por que o Brasil está sendo taxado de novo pelos Estados Unidos?

O Brasil tem sido um dos principais alvos das medidas protecionistas do presidente dos EUA, Donald Trump, desde o ano passado. Ontem, o governo americano decidiu taxar em 12,5% os produtos brasileiros sob a alegação de que o país falha em combater práticas de trabalho forçadas nos setores produtivos. Mas a barreira tarifária recai também sobre outras 59 economias do mundo.

No caso brasileiro, a tarifa agora se soma aos 25% que entrou em vigor no último dia 22, após as primeiras investigações da investigação aberta especificamente sobre o Escritório Brasil em julho do ano passado pelo Representante Especial de Comércio (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Duas investigações, duas investigações diferentes

As tarifas que hoje pesam sobre o Brasil resultaram de investigações distintas. Os 25% em vigor desde o dia 22 vêm da investigação aberta em julho de 2025, que apurou supostas práticas desleais de comércio e analisou se ações do governo brasileiro prejudicaram empresas americanas. Até o Pix esteve na mira dessa investigação.

Apesar da tarifa, a lista de produtos é extensa: mais de 2.100 itens brasileiros ficaram de fora dos novos táxons, incluindo carne bovina, suco de laranja e componentes para aeronaves, além de açaí e água de coco.

Já os 12,5% agora anunciados têm origem na investigação sobre trabalho solicitado, que mira 60 países . No caso brasileiro, o foco recai sobre cinco produtos - alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco - resultados importados entre 2021 e 2025 de nações com práticas trabalhistas questionáveis. Para o governo americano, essas importações mais baratas criam concorrência desleal com o mercado dos EUA.

A nova leva dement

Nesta nova tarifaço, o Brasil e outros 53 países tiveram seus produtos sobretaxados em 12,5% . Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México e Paquistão tiveram propostas de tarifas de 10% . Ao todo, 60 países foram investigados pelo USTR sob essa acusação de negligência de produtos gerados por trabalhos solicitados, o que é visto por analistas apenas como uma desculpa para reposicionar as tarifas criadas por Trump no ano passado e derrubadas pela Suprema Corte do país.

A ideia por trás da nova rodada de tarifas que atinge também o Brasil — e agravar o imposto de importação que os compradores americanos de produtos brasileiros terão de pagar, desestimulando a compra — é a mesma que orienta a política comercial de Trump desde que ele substituiu a Casa Branca: recuperar déficits comerciais, reindustrializar a economia americana, recuperar empregos nas fábricas e investir investimentos para o país.

O caminho até aqui, porém, passou por um vaivém nas alíquotas. A primeira foi imposta em abril de 2025, quando impôs uma taxa global de 10% sobre produtos comprados de outros países, inclusive do Brasil, com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).

Em julho, os produtos importados do Brasil passaram a sofrer com uma tarifa adicional de 40% , apesar de uma lista de isenções. No mesmo mês, foi aberta uma investigação pelo USTR sobre as práticas comerciais brasileiras com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Após o encontro com o presidente Lula em novembro, Trump retirou a sobretaxa de 40% sobre produtos agrícolas vendidos pelo Brasil, permanecendo apenas os 10% globais.

Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas globais de 10% . Em resposta, o presidente instituiu uma tarifa básica de 10% ampliada na Seção 122 da Lei de Comércio. Uma solução temporária, que não pode ficar em vigor por mais de 150 dias , se não for prorrogada pelo Congresso e que expira nesta sexta-feira.

Para substituir essa medida provisória por algo mais misterioso, o governo americano abriu novas negociações comerciais com base na Seção 301 da Lei de Comércio. Uma das apura práticas de trabalho propostas em tendências de economias, e é dela que vem a tarifa de 12,5% que atinge o Brasil agora.

Um debate politizado desde o início

As negociações entre Brasil e Estados Unidos foram atravessadas por tensão política desde o início do processo. Em julho de 2025, quando foi aberta uma investigação, Trump criticou o fato do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ter se tornado réu por tentativa de golpe de Estado e classificou o processo como uma “caça às bruxas”.

Em julho deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, chegou aos Estados Unidos para participar de uma audiência pública do USTR e invejou um documento ao órgão americano exigindo que as tarifas fossem adiadas para depois das eleições brasileiras de outubro, argumentando que a medida daria uma política de vitória ao presidente Lula.