Finanças

Ataque ao Pix reforça 'paixão' pelo sistema de pagamento, diz The Economist

Revista britânica afirma que argumentos dos Estados Unidos não encontram respaldo em fatos, embora pressione para baixo as taxas cobradas por empresas de cartões.

Agência O Globo - 20/07/2026
Ataque ao Pix reforça 'paixão' pelo sistema de pagamento, diz The Economist
Pix

O Pix brasileiro — utilizado como um dos argumentos para os Estados Unidos aprovarem uma sobretaxa de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil, sob a alegação de que o país possui práticas desleais no comércio — não encontra respaldo em fatos, segundo a revista britânica The Economist. A publicação acrescenta que o ataque ao Pix reforça a "paixão" pelo sistema de pagamentos.

O sistema de pagamentos instantâneo já é parte da rotina da população. Aproximadamente 170 milhões de pessoas, ou quase 80% da população, utilizam o serviço de pagamento gratuito e instantâneo. A Casa Branca, por sua vez, argumenta que o Pix representa uma ameaça competitiva às empresas americanas, considerando que o sistema, operado pelo Banco Central (BC), é protecionista.

No entanto, a revista observa que o Pix não faz distinção entre instituições financeiras e participantes locais ou estrangeiros. Além disso, ela afirma que empresas como Visa e Mastercard aderiram ao sistema voluntariamente.

O texto ressalta que, embora a operação e regulação do Pix pelo Banco Central possam levantar questões, o debate se relaciona à concentração de poder e não à discriminação contra empresas americanas.

Ampliação do mercado

Em vez de canibalizar outros meios de pagamento, a revista argumenta que o Pix ampliou o mercado. No entanto, existem pressões sobre os participantes. Mas, contrariamente ao que os EUA afirmam, essa situação não diz respeito ao volume de transações e sim às taxas cobradas. No país, empresas costumam pagar uma taxa de 2% sobre as vendas no cartão de crédito para o processador de pagamento. A popularização do Pix, segundo a revista, impõe pressão sobre as empresas de cartões para justificarem as taxas que cobram.

A premissa de que o Pix prejudicou as empresas americanas de meios de pagamento está fundamentada em um equívoco quanto à razão que levou à criação do meio de pagamento digital. A publicação lembra que, antes dele, os serviços existentes, inclusive os oferecidos por empresas estrangeiras, cobravam tarifas pelas transações eletrônicas que muitos brasileiros de baixa renda não podiam pagar.

Não substitui outros meios

O Pix foi criado exatamente para mudar essa realidade e está longe de substituir outros meios de pagamentos eletrônicos. A publicação britânica salienta que, ao permitir transferências gratuitas e instantâneas, o Pix incentivou os cidadãos a manterem seus salários e economias em contas bancárias, ao invés de saques, fortalecendo o sistema bancário brasileiro.

Estima-se que, segundo o Banco Central, pelo menos 70 milhões de pessoas começaram a integrar o sistema financeiro formal desde o lançamento da plataforma.

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio, mencionado na matéria, indica que bancos localizados em municípios com maior adoção do Pix apresentaram um crescimento mais acelerado nos depósitos, com efeito ainda mais expressivo em regiões com grandes economias informais. Outro estudo revelou que estabelecimentos comerciais tinham maior probabilidade de aceitar cartões de débito em localidades onde o Pix era mais amplamente utilizado. Desde 2020, o número de transações com cartão de crédito no Brasil aumentou 127%.

Risco é virar modelo para a região

De acordo com The Economist, a grande preocupação do governo Trump pode ser a possibilidade de o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro se tornar um modelo para o restante da América Latina, o que reduziria os lucros das redes americanas de cartões e sua influência na região.

Além do Brasil, o México, segundo país mais populoso da região, lançou em 2019 sua própria plataforma de pagamentos instantâneos, o CoDi. Contudo, sua adoção permanece baixa: em 2024, apenas 1,6% dos mexicanos haviam utilizado o sistema.

Entre os aspectos positivos destacados pela reportagem, está o fato de que o Pix também tornou o setor bancário brasileiro mais competitivo. Antes de seu lançamento, em 2020, uma das razões para que os clientes mantivessem seus vínculos com grandes bancos tradicionais era a lentidão e os altos custos do processo de transferência de dinheiro. Ao oferecer transferências gratuitas e instantâneas, o Pix diminuiu o custo de troca de banco, facilitando a concorrência entre instituições menores e bancos digitais pela preferência do consumidor.