Finanças

Avanço de veículos chineses no Brasil reduz preços de carros novos e usados

Consumidor tem oportunidade de comprar carro zero ou seminovo por valores inferiores aos que eram cobrados há até pouco tempo

Agência O Globo - 19/07/2026
Avanço de veículos chineses no Brasil reduz preços de carros novos e usados
Foto: © Divulgação / BYD

O Brasil praticamente dobrou a importação de automóveis vindos da China neste ano. De janeiro a junho, foram cerca de 140 mil emplacamentos de veículos provenientes do país asiático, que tem se destacado com carros eletrificados com preços competitivos e a promessa de economia no combustível. O resultado é um efeito-dominó nos preços do mercado de automóveis novos e usados no país. Na prática, isso representa a oportunidade de o consumidor comprar um carro zero ou seminovo por valores inferiores aos que eram cobrados há até pouco tempo, especialmente os modelos acima de R$ 100 mil.

Para enfrentar a concorrência, montadoras já tradicionais no mercado brasileiro estão reduzindo preços no segmento de veículos 0km, por meio de campanhas de descontos e bônus na troca de automóveis usados. O EXTRA percorreu concessionárias no Rio na última semana e ouviu trabalhadores. Eles apontaram os descontos mais agressivos como uma reação ao avanço das marcas chinesas e uma forma de manter a competitividade.

A Toyota, por exemplo, oferece bônus de R$ 10 mil na troca de um usado na compra de alguns modelos, como o Yaris Cross XR. A bonificação pode chegar a R$ 40 mil para determinados veículos, como no caso da Hilux Cabine Dupla SRX Plus AT. Segundo a montadora, a política faz parte da estratégia para oferecer “condições competitivas” aos clientes.

“A entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade, à experiência de compra e ao uso dos veículos, amplia as opções disponíveis e acelera a transformação ao longo de toda a cadeia de valor”, afirmou a Toyota em nota.

Outras montadoras também já adotam medidas para tentar manter as vendas. A Honda oferece bônus de até R$ 15 mil na troca de um usado. A Volkswagen cortou em cerca de R$ 10 mil o preço do T-Cross e informou que iniciou o Feirão dos Feirões Volks Vale+. A Fiat, além das bonificações para alguns modelos, reduziu o valor do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990.

A Stellantis, que também é dona de marcas como Jeep e Peugeot, informou que essas condições especiais fazem parte das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil. A empresa destacou que a definição de preços considera fatores como câmbio, custos de produção, logística e dinâmica do mercado, e afirmou que está “sempre atenta às variações no cenário para seguir com o posicionamento adequado e competitivo”. O EXTRA também procurou a Honda, mas não teve retorno até o fechamento desta edição.

Com a redução dos preços dos carros novos, há uma consequente redução de preço dos modelos seminovos e usados. Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica que o mercado de automóveis funciona em cadeia:

— Se a referência do carro usado é o carro novo, quando o carro novo reduz o preço, naturalmente o usado também tem uma regressão mais forte — explica.

Variedade de modelos

A estratégia das montadoras acontece em meio à grande oferta de modelos nacionais e importados. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram emplacados 280.600 veículos importados no primeiro semestre deste ano, sendo quase a metade proveniente da China. A entidade aponta que, em apenas um ano, o volume de veículos chineses enviados ao Brasil dobrou, passando de 71 mil para 140.800 unidades.

Para o consumidor, os carros chineses têm se tornado uma alternativa diante de preços mais atraentes, eletrificação, tecnologia embarcada e design moderno, apontam especialistas. A BYD, que já possui fábrica no Brasil, encerrou o primeiro semestre deste ano com 99.029 emplacamentos e alcançou, em junho, a marca de 300 mil carros eletrificados vendidos em quatro anos de atuação no país. Já a GWM informou que fechou o primeiro semestre com 35.218 unidades vendidas entre automóveis e comerciais leves.

— Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: “Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo” — diz Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística.

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Guerra de montadoras começou na Ásia

Todo esse movimento é impulsionado principalmente pela elevada produção de veículos na China, um mercado marcado por uma intensa competição entre as montadoras. A chamada “guerra de preços” chegou, inclusive, a despertar preocupação do governo chinês, que interveio para evitar a chamada concorrência predatória. Sem conseguir absorver toda a produção no mercado interno, as empresas intensificaram a expansão para outros países, incluindo o Brasil.

Segundo um relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os veículos eletrificados já representam 15% das importações brasileiras provenientes da China.

O professor dos cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins, explica que os preços mais competitivos são resultado da forte concorrência no mercado chinês e da verticalização da produção adotada por grande parte das montadoras, que fabricam internamente boa parte dos principais componentes dos veículos. Esse modelo amplia a margem para redução de preços, em conjunto com os incentivos concedidos pelo governo chinês.

— Hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que as montadoras precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade. Aos poucos, vemos um número cada vez maior de empresas asiáticas atuando em outros mercados justamente por essa necessidade de ampliar a lucratividade — explica.

Procurada, a Anfavea não quis comentar o assunto. A Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) não responderam aos pedidos de comentários até o fechamento desta reportagem.