Finanças
Governo Lula viu EUA tentando barrar China de explorar minerais críticos no Brasil durante negociações de tarifaço
Gestão Trump aplicou tarifas de 25% sobre parte dos produtos brasileiros
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera que os Estados Unidos tentaram barrar a China de explorar minerais críticos no Brasil dentro do processo de negociação do tarifaço.
Negociadores do governo relatam que, em uma das reuniões, os Estados Unidos mencionaram que a exploração dessa riqueza deveria ser negada "a atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras de preocupação". Auxiliares de Lula entenderam que os norte-americanos se referiam à China, maior rival geopolítica e comercial dos EUA, embora o país não tenha sido citado nominalmente.
O ministro da Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, tratou do pedido dos EUA em coletiva de imprensa na quinta-feira.
— Em uma das rodadas de negociação, o que foi solicitado foi que nós fizéssemos medidas que pudessem limitar investimentos por atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras, a exemplo do que eles fizeram com outros países, como o Reino Unido e a Austrália. Os Estados Unidos fecharam acordo nesse sentido — afirmou.
A Casa Branca busca acordo com o Brasil para explorar minerais críticos em território brasileiro. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de elementos de terras-raras (ETR), a segunda maior do mundo.
— Isso chegou a não ser apresentado formalmente e, obviamente, não aceitamos e não aceitaremos porque terras raras, minerais críticos pertencem ao povo brasileiro e à soberania do povo brasileiro. E eles são justamente estratégicos porque desafiam o futuro, a modernidade. E nós não seremos coniventes com nenhum político ou política de ocasião — disse Márcio Elias Rosa.
Além do pedido sobre minerais críticos, para considerar uma redução de tarifas, os EUA exigiram tarifa zero para bens industriais, máquinas e equipamentos, indústria química, setor espacial e automobilismo, além de zerar tarifa do etanol e não regulamentar plataformas digitais, de acordo com negociadores. A proposta americana foi considerada "indigna" pelo governo brasileiro e o acordo não avançou em cinco reuniões de alto nível entre ministros de Lula e auxiliares de Donald Trump.
O governo passará a consultar setores afetados, como máquinas e equipamentos, móveis e calçados, para a partir daí definir a estratégia para tentar desmontar o tarifaço, como fez no segundo semestre do ano passado, na primeira onda de sanções econômicas dos EUA. As tarifas passam a valer a partir do dia 22.
Nesse momento, no entanto, a avaliação do governo é de que o cenário de 2025 tem menos chances de se reproduzir devido à proximidade com as eleições. Para auxiliares de Lula, os EUA não só vão deixar o processo em banho-maria, como vão torná-lo mais difícil após o anúncio do tarifaço. Para o Planalto, os EUA irão protelar a negociação do tarifaço para esperar o resultado das eleições presidenciais brasileiras em outubro. A avaliação é de que a gestão de Donald Trump esperará o fechamento das urnas para ver se o candidato que vencer a disputa aceitará negociar as tarifas nos termos norte-americanos.
Na quinta-feira, os Estados Unidos anunciaram a decisão de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A taxação dos EUA deixará de fora uma série de itens como laranja, suco de laranja, carne, café, petróleo e gás, além de peças e componentes aeroespaciais. A decisão foi tomada após a investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).
A investigação tratava de acusações sobre supostas práticas desleais de comércio e apurava se ações do Brasil, como o uso do Pix, o desmatamento ilegal e a dificuldade dos EUA em ter acesso ao mercado de etanol brasileiro, prejudicariam as empresas americanas.
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