Finanças
Governo Lula acredita que EUA vão atrasar negociação do tarifaço até as eleições
Expectativa de cenário político afeta negociações comerciais
Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acreditam que os Estados Unidos irão protelar a negociação do tarifaço para aguardar o resultado das eleições presidenciais brasileiras em outubro. Um dia após os EUA decidirem ampliar sanções econômicas de 25% sobre produtos brasileiros, o Palácio do Planalto avalia que a gestão de Donald Trump esperará o fechamento das urnas para verificar se o candidato vencedor aceitará negociar as tarifas nos termos norte-americanos.
Para considerar uma eventual redução de tarifas, os EUA exigiram tarifa zero para bens industriais, máquinas e equipamentos, indústria química, setor espacial e automobilismo, além de zerar a tarifa do etanol e não regulamentar plataformas digitais, de acordo com negociadores. A proposta americana foi considerada “indigna” pelo governo brasileiro e, por esse motivo, o acordo não avançou em cinco reuniões de alto nível entre ministros de Lula e auxiliares de Donald Trump.
As tarifas começam a vigorar a partir do dia 22. O governo consultará setores afetados, como máquinas e equipamentos, móveis e calçados, para, a partir daí, definir a estratégia visando tentar desmontar o tarifaço, como ocorreu no segundo semestre do ano passado, durante a primeira onda de sanções econômicas dos EUA.
Nesse momento, a avaliação do governo é de que o cenário de 2025 tem menos chances de se repetir devido à proximidade com as eleições. Para os auxiliares de Lula, os EUA não apenas deixarão o processo em banho-maria, mas também o tornarão mais difícil após o anúncio do tarifaço.
Os assessores de Lula percebem que há baixas chances de que os EUA ampliem a lista de exceções ou mesmo abram brechas que representem uma vitória para o governo Lula às vésperas do período eleitoral.
O pessimismo do Planalto com as negociações daqui para frente também se deve à concepção da política industrial americana sob Donald Trump, que impõe sanções tarifárias até para nações aliadas, como Israel, Argentina e El Salvador, com foco em investir e produzir internamente o que antes era adquirido de mercados externos. Os negociadores do governo brasileiro destacam que todos os argumentos possíveis foram apresentados em 30 reuniões técnicas.
Apesar das dificuldades, o governo manterá canais de negociação abertos e não apostará na radicalização. Apesar de o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ter afirmado que Lula não negociou de boa-fé, o governo destaca que existem diversos atores e interlocutores para negociações, além da ala ideológica da qual Rubio faz parte. Na descrição de um interlocutor de Lula, o Planalto atuará com frieza e sem deixar que emoções orientem as decisões do governo.
Na quinta-feira, os Estados Unidos anunciaram a decisão de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A taxação dos EUA excluirá uma série de itens, como laranja, suco de laranja, carne, café, petróleo e gás, além de peças e componentes aeroespaciais. A decisão foi tomada após a investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).
A investigação tratava de acusações sobre supostas práticas desleais de comércio e avaliava se ações do Brasil, como o uso do Pix, desmatamento ilegal e a dificuldade de acesso ao mercado de etanol brasileiro, prejudicariam empresas americanas.
A sanção é vista pelo governo brasileiro como injustificável, uma vez que a balança comercial com os EUA é favorável aos norte-americanos, apresentando um déficit para o Brasil.
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