Finanças

Governo Lula acredita que EUA vão atrasar negociação do tarifaço até as eleições

Expectativa de cenário político afeta negociações comerciais

Agência O Globo - 17/07/2026
Governo Lula acredita que EUA vão atrasar negociação do tarifaço até as eleições
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acreditam que os Estados Unidos irão protelar a negociação do tarifaço para aguardar o resultado das eleições presidenciais brasileiras em outubro. Um dia após os EUA decidirem ampliar sanções econômicas de 25% sobre produtos brasileiros, o Palácio do Planalto avalia que a gestão de Donald Trump esperará o fechamento das urnas para verificar se o candidato vencedor aceitará negociar as tarifas nos termos norte-americanos.

Para considerar uma eventual redução de tarifas, os EUA exigiram tarifa zero para bens industriais, máquinas e equipamentos, indústria química, setor espacial e automobilismo, além de zerar a tarifa do etanol e não regulamentar plataformas digitais, de acordo com negociadores. A proposta americana foi considerada “indigna” pelo governo brasileiro e, por esse motivo, o acordo não avançou em cinco reuniões de alto nível entre ministros de Lula e auxiliares de Donald Trump.

As tarifas começam a vigorar a partir do dia 22. O governo consultará setores afetados, como máquinas e equipamentos, móveis e calçados, para, a partir daí, definir a estratégia visando tentar desmontar o tarifaço, como ocorreu no segundo semestre do ano passado, durante a primeira onda de sanções econômicas dos EUA.

Nesse momento, a avaliação do governo é de que o cenário de 2025 tem menos chances de se repetir devido à proximidade com as eleições. Para os auxiliares de Lula, os EUA não apenas deixarão o processo em banho-maria, mas também o tornarão mais difícil após o anúncio do tarifaço.

Os assessores de Lula percebem que há baixas chances de que os EUA ampliem a lista de exceções ou mesmo abram brechas que representem uma vitória para o governo Lula às vésperas do período eleitoral.

O pessimismo do Planalto com as negociações daqui para frente também se deve à concepção da política industrial americana sob Donald Trump, que impõe sanções tarifárias até para nações aliadas, como Israel, Argentina e El Salvador, com foco em investir e produzir internamente o que antes era adquirido de mercados externos. Os negociadores do governo brasileiro destacam que todos os argumentos possíveis foram apresentados em 30 reuniões técnicas.

Apesar das dificuldades, o governo manterá canais de negociação abertos e não apostará na radicalização. Apesar de o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ter afirmado que Lula não negociou de boa-fé, o governo destaca que existem diversos atores e interlocutores para negociações, além da ala ideológica da qual Rubio faz parte. Na descrição de um interlocutor de Lula, o Planalto atuará com frieza e sem deixar que emoções orientem as decisões do governo.

Na quinta-feira, os Estados Unidos anunciaram a decisão de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A taxação dos EUA excluirá uma série de itens, como laranja, suco de laranja, carne, café, petróleo e gás, além de peças e componentes aeroespaciais. A decisão foi tomada após a investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).

A investigação tratava de acusações sobre supostas práticas desleais de comércio e avaliava se ações do Brasil, como o uso do Pix, desmatamento ilegal e a dificuldade de acesso ao mercado de etanol brasileiro, prejudicariam empresas americanas.

A sanção é vista pelo governo brasileiro como injustificável, uma vez que a balança comercial com os EUA é favorável aos norte-americanos, apresentando um déficit para o Brasil.