Finanças
Gasolina com mais etanol: veja quais carros vão sentir mais impacto
Mudança que começa a valer em 1º de agosto pode aumentar consumo e acelerar desgaste de peças em veículos.
Quem tem um Fusca na garagem, um Opala guardado ou dirige um importado antigo precisa ficar atento a partir do próximo dia 1º de agosto. Isso porque na última terça-feira (dia 14), o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%. Mas, afinal, quais veículos podem sentir mais impactos com a nova composição de misturas de combustível?
Entenda:
Move Brasil:
Para os motoristas que dirigem carros flex fabricados a partir de 2003, o maior teor de etanol muda bem pouco o dia a dia.
— Os modelos flex têm gerenciamento eletrônico avançado da mistura de combustível e provavelmente sofrerão baixo impacto. Esses sistemas já foram projetados para operar com uma faixa ampla de teor de etanol, inclusive com 100% dele — explica Arielly Assunção Pereira, engenheira mecânica e professora da Estácio.
O efeito mais imediato — e que atinge inclusive os donos de carros flex — é o aumento no consumo. O etanol tem menor poder calorífico que a gasolina, ou seja, gera menos energia por litro queimado. Com mais álcool na mistura, o motor precisa consumir mais combustível para rodar a mesma distância.
— No dia a dia, o consumidor que calcula pode sentir uma leve diferença no consumo — afirma Danilo.
Outros problemas atingem principalmente três grupos: veículos carburados com mais de 30 anos, carros dos anos 90 movidos só a gasolina e importados não flex. Nesses casos, o etanol em maior concentração pode acelerar a corrosão de peças metálicas e do tanque de combustível, além de causar falhas no funcionamento.
— Não significa que o carro vai deixar de funcionar. O veículo vai ter um desgaste prematuro de peças, que não têm uma blindagem contra o etanol — explica Danilo Dantas, técnico de educação do Senai no segmento automotivo.
Por que o governo aumentou percentual do etanol
A decisão do CNPE tem um pano de fundo geopolítico. Com o reaquecimento da guerra entre Estados Unidos e Irã, houve um novo fechamento do estreito de Hormuz, uma passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, por onde escoa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo.
Tendência chegou no Brasil:
Sempre que o tráfego de navios pela região é ameaçado, o preço internacional do barril do petróleo sobe, pressionando também o valor da gasolina no Brasil, que ainda depende de importação para abastecer os motoristas brasileiros.
Na prática, o encarecimento do combustível chegaria ao motorista particular, ao caminhoneiro que leva alimentos ao supermercado, às empresas de ônibus que transportam o trabalhador e aos profissionais que atuam em aplicativos de transporte e de entrega.
— A gente está falando de uma mudança que deve durar 180 dias. Em volumes, são alguns milhões de litros de gasolina importados a menos para o Brasil com o aumento do percentual de etanol. Qual é o objetivo do governo? Tentar segurar a inflação por meio da utilização de etanol na gasolina. É um efeito pequeno, mas o aumento também é temporário — explica Samuel Barros, professor de finanças do Ibmec-RJ.
Segundo o especialista, o principal beneficiado é o consumidor de baixa renda, que sente na cesta básica o efeito de qualquer variação no combustível:
— Para a população de baixa renda, o impacto vai direto na inflação. Evita o aumento do custo da cadeia produtiva e da cadeia logística, o que faz com que a população mais carente sinta menos aumento nos preços. E o produtor brasileiro de etanol vai ter um mercado melhor para vender.
Além do fator econômico, a medida tem um argumento ambiental. O etanol emite menos CO₂ e poluentes locais que a gasolina, reduzindo o impacto na emissão de gases do efeito estufa.
— O etanol é um combustível menos poluente comparado à gasolina. Essa foi uma das justificativas que o governo utilizou para fazer o aumento da proporção do etanol — explica Danilo Dantas, do Senai.
Possíveis consequências para o bolso
Entre os efeitos técnicos apontados pelos especialistas, o mais grave é a corrosão de peças do sistema de alimentação. O etanol anidro é higroscópico, ou seja, absorve umidade do ar. Danilo, do Senai, explica que essa água acumulada oxida partes metálicas em veículos que não foram projetados para conviver com o produto:
Confira:
— As peças metálicas dos modelos mais novos sofrem revestimentos químicos que favorecem a maior durabilidade. Quando eu coloco isso num veículo que não tem esse tipo de sistema de proteção, ou não foi projetado para rodar com aquele tipo de combustível, ele vai sofrer desgaste.
O especialista também aponta que, nos modelos mais modernos com injeção direta, o desgaste atinge componentes de alto custo:
— A bomba de alta pressão, que eleva a pressão do combustível para fazer a pulverização dentro do cilindro, custa entre R$ 3 mil e R$ 4 mil, dependendo do carro. Cada bico de injeção direta fica na faixa de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil.
Nos veículos mais antigos, o alvo é outro: o tanque de combustível metálico, mais suscetível à ferrugem, e o próprio carburador, feito de ligas que reagem mal ao etanol.
Segundo Danilo, trocar o tanque sai por R$ 300 a R$ 500, e o carburador, entre R$ 200 e R$ 500, valores que sobem conforme a raridade do modelo. Isto sem contar a mão de obra.
A especialista Arielly, da Estácio, reforça que os impactos do aumento do etanol na gasolina variam conforme a década de fabricação. Segundo a engenheira, modelos produzidos até 1989, por exemplo, têm potencial alto de impacto porque muitos foram projetados para combustível com menor teor de etanol e utilizam mangueiras, juntas e componentes menos resistentes.
— Já os fabricados entre 1990 e 1999 têm impacto médio a alto. É possível o gerenciamento eletrônico de forma mais controlada, porém vários componentes do sistema de combustível ainda podem sofrer maior desgaste ao longo do tempo — afirma.
Quais carros podem ser mais afetados
A lista abaixo, elaborada a partir das análises de Danilo Dantas, técnico de educação do Senai no segmento automotivo, e de Arielly Assunção Pereira, engenheira mecânica e professora da Estácio, aponta em qual grupo de impactos do aumento do teor de etanol na gasolina cada modelo se encaixa:
Alto impacto — carros carburados (fabricados até meados dos anos 90). O carburador é feito de ligas metálicas que sofrem corrosão com o etanol. Os tanques feitos nesse período costumam ser metálicos, o que acelera a oxidação. Confira os modelos:
Fusca (todas as gerações)
Brasília
Variant
Chevette
Opala
Corcel II
Del Rey
Passat antigo
Maverick
Gol carburado
Uno Mille carburado
Impacto médio — carros com injeção eletrônica de primeira geração, só a gasolina (fabricados de 1990 a 2003). A central eletrônica dessa geração foi calibrada para uma mistura específica de gasolina e etanol.
Ao detectar 32% de etanol na composição, o sistema pode entender que há algo errado no motor e acender a luz de anomalia no painel (a famosa 'check engine'), além de causar perda de potência. Confira os modelos:
Vectra dos anos 90
Santana
Golf monocombustível
Tempra, Marea
Escort
Focus de primeira geração
Corsa Wind
Palio, Siena e Kadett
Impacto que depende do manual — importados não flex (de qualquer época, inclusive modelos recentes) foram projetados para países onde a gasolina tem entre 5% e 10% de etanol na composição. Confira os modelos:
BMW importada (só a versão nacional ActiveFlex, feita em Araquari, foi adaptada para o Brasil)
Mercedes-Benz importada
Land Rover
Porsche
Ford Bronco Sport
Mustang
Vale destacar que alguns carros importados têm recomendação dos fabricantes de uso de gasolina premium.
Baixo impacto — flex (a partir de 2003). Esse sistema trabalha com qualquer proporção entre gasolina e etanol.
No entanto, é válido lembrar que o consumo de combustível é aumentado com a maior presença de etanol. Confira os modelos:
Palio Fire
Uno Fire
Gol G4 em diante
Fox
Polo
Onix
HB20
Corolla
Civic
Renegade
Onix Turbo
Nivus
Polo TSI
Pulse
Fastback
Dica para proteger o motor
Para donos de veículos que se encaixam nos grupos de maior impacto, Danilo faz uma recomendação prática: abastecer com gasolina premium, que tem um teor fixo menor de etanol na composição. Segundo ele, de até 25%.
— A recomendação é principalmente para o público que não quer comprometer a vida útil do seu equipamento e poder continuar utilizando o veículo sem antecipar gastos com o motor — orienta o especialista do Senai.
A contrapartida é o custo. Por isso, o especialista afirma que a dica vale principalmente para os clássicos de coleção e para os importados cujos manuais já exigem esse tipo de combustível.
— O litro dessa gasolina, com o menor teor de etanol, fica entre R$ 9 e R$ 10, dependendo da região. Eu recomendaria para os clássicos, principalmente, e para os veículos importados que exigem esse tipo de combustível — afirma Danilo.
Para os populares dos anos 90 que rodam no dia a dia, o especialista afirma que a decisão passa por um cálculo pessoal de custo-benefício:
— É o cálculo de desgaste versus a vantagem de colocar o combustível de gasolina pura.
Alerta sobre adulteração
O especialista do Senai também levanta uma preocupação específica para o consumidor carioca:
— Hoje, no Rio, a gente tem um grande problema com falsificação e aposentadoria de combustível. Isso já acontece com o percentual atual. Se não houver fiscalização nos postos para garantir que a nova mistura seja no máximo de 32%, o consumidor final vai ser ainda mais afetado — alerta.
O que foi testado
A decisão do CNPE foi embasada em ensaios conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia no primeiro semestre de 2025.
Segundo o instituto, foram avaliados 16 veículos de passeio e 13 motocicletas, todos não flex, com ano de fabricação entre 1994 e 2024 (para os automóveis) e 2004 e 2024 (para as motos). Os testes verificaram partida a frio, marcha lenta, aceleração, retomadas de velocidade, emissões e consumo.
Segundo Clayton Zabeu, professor de engenharia mecânica do Instituto Mauá, os resultados não indicaram diferenças relevantes na percepção dos condutores nem prejuízo de autonomia. Mas o próprio professor explicou que não foram realizados testes de durabilidade de componentes dos veículos:
— De comum acordo entre entidades como Ministério de Minas e Energia (MME), Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) e outros participantes do workshop realizado em 18 de dezembro de 2024, em Brasília, concluiu-se que para o teor de 30% de etanol não seriam esperados problemas de durabilidade dos componentes e sistemas dos veículos da frota.
Há dois detalhes que precisam ser registrados. O primeiro é que os ensaios avaliaram a transição de 27% para 30% de etanol na gasolina, mas não contemplaram a nova elevação para 32%.
O governo também já estuda aumentar ainda mais os percentuais do etanol na mistura, chegando a 35%. Para esse novo acréscimo percentual, o Instituto Mauá afirmou que já ficou definido, na mesma reunião de dezembro, que serão necessários testes específicos de durabilidade.
Contraponto da indústria
A falta de testes de durabilidade dos automóveis com o aumento do etanol motivou a discordância da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotivos (Anfavea). Em nota, a entidade afirmou ser contrária à elevação da mistura sem estudos técnicos específicos e conclusivos que comprovem a segurança e a compatibilidade com a frota brasileira.
Segundo a Anfavea, os testes que embasaram o aumento avaliaram desempenho e dirigibilidade, mas não incluíram análises de durabilidade, emissões nem autonomia com os 32% do etanol como mistura obrigatória. A entidade argumenta que os ensaios anteriores contemplaram os 32% de etanol apenas como margem de tolerância da especificação anterior, de 30%.
"A Anfavea reafirma que a adoção do E32 (etanol 32%) deveria ter sido precedida por novos estudos específicos, capazes de comprovar a compatibilidade da mistura com a frota em circulação e de assegurar a segurança técnica e a proteção do consumidor brasileiro", diz a nota.
A decisão do CNPE, no entanto, já foi aprovada, e a nova mistura chega às bombas em 1º de agosto. A mudança valerá por 180 dias e poderá ser prorrogada por igual período.
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