Finanças
Resposta política, socorro a empresas e retaliação adiada: como o governo decidiu reagir ao novo tarifaço dos EUA
EUA aplicaram taxa de 50% sobre produtos brasileiros exportados para aquele país. Planalto denuncia interferência indevida dos EUA e apoio empresas afetadas, mas retarda contra-ataque
O governo reagiu ao novo tarifaço da gestão de 25% sobre produtos brasileiros exportados para os EUA, a partir do dia 22, com sete nomes do alto escalão refutando os argumentos apresentados pelos americanos.
A reação coube ao vice-presidente, Geraldo Alckmin, que classificou a medida como "injusta e descabida", e ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, que afirmou tratar-se de "interferência externa indevida".
Tarifaço dos EUA terá mais de 2 mil exceções:
Por que o Pix incomoda tanto os EUA?
Durigan ainda informou que o governo vai socorrer as empresas afetadas, mas os dois baixaram o tom quanto a medidas de reciprocidade. O presidente reagiu nas redes sociais.
"Desde o primeiro momento, buscamos o diálogo e enfatizamos nossa disposição de negociar. Apontamos que não há justificativa para as tarifas anunciadas. Não vamos abrir mão de defender o nosso Pix, a nossa soberania e os produtores brasileiros", afirmou Lula na publicação.
Em cinco pontos:
Nos cálculos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), a nova taxação afetará 18% das exportações brasileiras para os EUA, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, com base em dados de 2024. Se for considerado o valor do ano passado, a participação dos setores atingidos recuaria a 15%, ou US$ 5,8 bilhões.
A estratégia de resposta foi delineada na manhã de ontem. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, o chanceler, Mauro Vieira, foi chamado por Lula e, no encontro, ficou acertado que não caberia ao presidente comentar as declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, subordinado de Trump.
Análise:
Rubio bate, Vieira rebate
Na véspera, Rubio escreveu em uma rede social que Lula não negociou com os EUA em boa-fé e que o presidente colocou seu ego acima do fechamento de um acordo.
Em declaração no começo da tarde, Vieira criticou a qualidade da investigação que resultou na aplicação da sobretaxa, considerada sem base técnica e motivação política.
O chanceler classificou as declarações de Rubio como "inaceitáveis" e disse que ele atacou o presidente "de forma grosseira e arrogante". O ministro salientou a disposição para o diálogo do governo brasileiro, com a realização, desde março de 2025, de mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico.
— As declarações do secretário de Estado Marco Rubio, veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais, a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros — afirmou Vieira. — Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.
Alerta:
Vieira disse que as investigações no âmbito da Seção 301 do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) são procedimentos "unilaterais".
O chanceler lembrou que, no ano passado, as tarifas para o Brasil foram elevadas de 10% para 50% após carta enviada por Trump a Lula, em julho passado, em razão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
— Expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro — afirmou, destacando ter sido nessa ocasião que foi dada a instrução ao USTR para iniciar a investigação.
Poucas horas depois, uma tropa de choque com sete nomes do alto escalão rebateu as justificativas dos EUA para a taxação e apresentou os próximos passos.
Até no Financial Times:
Participaram da entrevista o vice-presidente, o ministro da Fazenda, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o chanceler Mauro Vieira, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães. Eles destacaram que o Brasil se manteve à mesa de negociação para reverter ou atenuar a sobretaxa, mas que argumentos técnicos não foram considerados.
Reciprocidade 'no momento adequado'
Alckmin reforçou que o governo poderá usar a Lei da Reciprocidade, aprovada no ano passado. Ela dá poderes à Câmara de Comércio Exterior (Camex) do Mdic para suspender concessões comerciais e de investimento em resposta a países ou blocos econômicos que impactam negativamente a competitividade dos produtos nacionais.
— Temos uma Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, e o governo, no momento adequado, saberá como implementá-la — afirmou.
Durigan também chamou a atenção para o tema:
— Levaremos a um grupo de ministros e ao presidente Lula a retomada do processo de reciprocidade. O presidente Lula nos dará orientação a respeito disso.
Tom nacionalista
Com ênfase na defesa de interesses nacionais, Durigan disse que o país não vai baixar a cabeça nem se dobrar a estrangeiros:
— A gente precisa colocar em pratos claros que se trata de uma interferência indevida. Essa interferência externa, seja ela política, econômica ou uma forma qualquer de constranger o Brasil, as famílias brasileiras, os empresários e os trabalhadores brasileiros — afirmou. — A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos, não para atender a um secretário de Estado de outro país. Preciso dizer que uma decisão baseada em motivação falsa fere o senso mais básico do nosso patriotismo. Ainda mais quando a oposição usa isso no momento eleitoral, sem considerar os interesses do nosso povo.
Pix seguirá gratuito, diz Galípolo
O presidente do Banco Central saiu em defesa do Pix, assegurando que o sistema de pagamento seguirá gratuito, seguro e instantâneo. Ele citou que os argumentos dos EUA não encontram respaldo na realidade e disse que o mercado de cartões cresceu 150% desde a criação do Pix, refutando que ele tenha prejudicado empresas americanas.
— A argumentação seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria a receita de caminhão-pipa — disse Galípolo. — O Pix foi benéfico para quem demanda e para quem oferta.
Proteger empregos
O titular da Fazenda afirmou que o governo já tem prontos os mecanismos para proteger empregos e empresas. A expectativa do governo é que o socorro a companhias afetadas pelo novo tarifaço seja menor do que iniciativas anteriores, lembrando que há mais exceções (leia mais na página 14). Durigan destacou que o aumento do socorro será feito com responsabilidade fiscal e que os compromissos fiscais definidos antes da guerra e do tarifaço serão cumpridos.
O programa, chamado de Brasil Soberano, deve limitar-se às linhas de crédito com juros subsidiados, ao contrário do plano lançado em agosto passado, em que houve diferimento de impostos e facilitação de compras públicas, entre outras medidas. O ministro disse esperar um volume mais modesto.
Elias Rosa, do Mdic, disse que as empresas poderão contar com a ajuda de diferentes formas e que o governo buscará diversificar as exportações:
— Os setores mais atingidos são basicamente madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. Esses setores poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes modos — afirmou, acrescentando que o governo seguirá à mesa de negociação.
O ministro do Meio Ambiente classificou os argumentos ambientais como "sem fundamento técnico" e sem base em "informações comprováveis". Ele afirmou que o país reduziu o desmatamento na Amazônia em 50% nos três últimos anos e que isso foi apresentado em documentos e reuniões.
Segundo Capobianco, na sequência, os EUA acusaram o Brasil de encher o mercado internacional de madeiras ilegais, prejudicando empresas americanas:
— Isso é absolutamente inverídico. Por dois motivos: o Brasil tem participação muito pequena no mercado internacional de madeira, apenas com 0,65%; segundo, porque nossa madeira não é a mesma produzida nos EUA. Todo parque industrial dos EUA se baseia em madeira de floresta temperada; essa madeira não compete com as madeiras de florestas tropicais, as chamadas madeiras de lei, que são para outros usos.
Normalidade, só sem Trump
O diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e embaixador do país em Genebra e Roma, diz que, analisando de forma realista, resta ao Brasil esperar a saída de Trump do governo:
— Quanto ao mercado dos EUA, penso realisticamente que será preciso esperar a era pós-Trump, não muito distante, para ter alguma esperança de um mínimo de normalização e de volta a relações comerciais mais estáveis.
Para ele, a vantagem do Brasil é ter diversificado os parceiros comerciais, o que diminuiu a dependência do mercado americano:
— Nossos principais mercados estão na Ásia (cerca de 50%), incluindo China, mas também Japão, Coreia do Sul, Malásia, Indonésia, Índia, que constituem a região mais dinâmica em crescimento econômico e demográfico.
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor da BMJ, acredita que qualquer negociação só deve avançar no ano que vem. Na sua visão, o governo brasileiro deve seguir com foco nas eleições, enquanto os EUA tendem a dar preferência a discussões com outros países.
— As negociações vão continuar, mas vão ser longas. Não vai ser nada, talvez, para este ano. O Brasil vai ameaçar, os EUA vão ameaçar. Isso faz parte da própria negociação. E vão continuar durante algum tempo. Pode ter um aumento na lista de exceções, uma redução da tarifa. Lembrando que o Brasil não é prioridade para os EUA. Eles estão com várias negociações pendentes com a Europa, com a China, sem falar dos problemas geopolíticos.
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