Finanças

Tarifaço: o que o governo Lula ofereceu e o que vetou nas negociações para evitar, em vão, as novas taxas de Trump

Pix e etanol, alvo de críticas dos Estados Unidos, foram temas inegociáveis para governo brasileiro

Agência O Globo - 17/07/2026
Tarifaço: o que o governo Lula ofereceu e o que vetou nas negociações para evitar, em vão, as novas taxas de Trump
- Foto: © AP Photo / Luis M. Alvarez

Para tentar conter os impactos da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, o governo intensificou as negociações com o governo de Trump desde junho, em um processo em que ofereceu abertura de mercados importantes para a economia americana, mas se recusou a fazer concessões em temas como o Pix e etanol.

Tarifaço dos EUA terá mais de 2 mil exceções:

Por que o Pix incomoda tanto os EUA?

A proposta da nova tarifa foi feita em 1º de junho e confirmada na noite desta quarta-feira pelo governo Trump. Desde então, ao lado de representantes do setor produtivo, o governo brasileiro passou a buscar ampliar a lista de exceções da possível nova tarifa.

No entanto, as negociações com o governo americano acontecem desde o ano passado, após a confirmação da primeira tarifa, em agosto. Desde março de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões entre autoridades dos dois países, segundo o ministro das Relações Exteriores.

Um dos encontros foi entre Lula e Trump, em outubro do ano passado, na Malásia, onde os dois conversaram pessoalmente pela primeira vez desde o anúncio da sobretaxa. Semanas depois, em meio a um aumento da inflação local, Trump retirou tarifas de 10% sobre produtos brasileiros como carne bovina, tomate, café e banana.

Em cinco pontos:

Em novembro, o presidente americano retirou outra sobretaxa de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros, como café e carne.

Em meio às negociações, também surgiu a demanda de interlocutores do governo americano por maior espaço no setor de minerais críticos brasileiro. A Câmara dos Deputados chegou a aprovar uma proposta que cria regras e busca incentivar a indústria nacional na exploração desses recursos.

Análise:

Desde o anúncio da nova rodada do tarifaço em 1º de junho, no entanto, o governo brasileiro passou a definir pontos criticados pelos americanos que eram considerados inegociáveis.

Em nota, o Palácio do Planalto disse que o Brasil propôs tratar conjuntamente os mercados de etanol e açúcar. Neste último caso, as tarifas dos EUA, acima da cota de 150 mil toneladas, alcançam cerca de 100%. Mas os EUA nunca responderam a essa proposta, afirmou.

Alerta:

A investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) da seção 301 elenca uma série de práticas que levariam a uma concorrência desleal. O relatório final do USTR distribui críticas ao Brasil em seis áreas principais: comércio digital, serviços de pagamento, acordos tarifários, desmatamento, etanol, propriedade intelectual e combate à corrupção.

Segundo relatório do USTR, o Banco Central do Brasil favorece o Pix em detrimento de empresas de serviços de pagamento americanas, como operadoras de cartão de crédito, por meio da limitação das tarifas.

Desde que o tema veio à público, a defesa do uso do Pix virou uma das grandes bandeiras do presidente Lula e seus auxiliares, sob o mote de defesa da soberania nacional.

Até no Financial Times:

Outro ponto de atrito é o mercado de etanol. O USTR ressalta que os Estados Unidos enfrentam tarifas mais altas sobre o etanol impostas pelo Brasil, num comércio que classifica como "desequilibrado", resultante da decisão do Brasil de abandonar, em 2017, uma política de reciprocidade tarifária que "promovia o desenvolvimento de ambas as indústrias e um comércio próspero e mutuamente benéfico".

Após reunião no começo deste mês com o chefe do USTR, Jamieson Greer, o ministro da Indústria, Desenvolvimento e Comércio (Mdic), Márcio Elias Rosa, afirmou que o etanol nunca esteve na mesa de negociações, por determinação do próprio presidente Lula, que vê o Brasil prejudicado com o açúcar brasileiro sobretaxado pelos americanos.