Finanças

Transição energética na indústria demanda 'cardápio' variado de fontes de energia, dizem executivos

Sistemas de armazenamento são essenciais; falta de mão de obra qualificada pode ser gargalo para o desenvolvimento tecnológico

Agência O Globo - 14/07/2026
Transição energética na indústria demanda 'cardápio' variado de fontes de energia, dizem executivos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A transição energética sustentável sem perda de competitividade depende de garantir fontes de energia variadas e de sistemas de armazenamento eficientes, que vão desde o investimento em baterias de armazenamento de energia até a construção de hidrelétricas reversíveis. É o que defenderam representantes de diferentes setores durante o debate “Energia e Indústria: como descarbonizar sem perder competitividade”, realizado nesta terça-feira (14) em São Paulo. O evento faz parte do projeto Transição Energética, iniciativa do GLOBO e do Valor Econômico, com patrocínio da Vale.

O Brasil já disse na frente em termos de redução da pegada de carbono por ter uma matriz energética limpa — as hidrelétricas — e por investir em biocombustíveis, como o biodiesel e o etanol. Entretanto, o caminho para garantir o desenvolvimento da indústria de forma eficiente passa pela diversificação, aponta Ricardo Cardoso , diretor-executivo Industrial, Engenharia e Projetos da Klabin. A empresa tem apostado na “limpeza da matriz” nos últimos anos, atualizando o óleo pela gaseificação da biomassa.

— Um dos exemplos que temos é esse processo pioneiro de trazer para o Brasil a iniciativa de gaseificação da biomassa, para reduzir e substituir o óleo combustível fóssil. Conseguimos reduzir em mais de 20 mil toneladas, em uma planta específica, o consumo de óleo combustível — explicado, durante o painel “Tecnologia, energia limpa e novos caminhos para a indústria”, ressaltando que a diversificação vem desde a matéria-prima, com o processamento de pinos além dos eucaliptos.

Carlos José Bastos Grillo , vice-presidente de Tecnologia da Weg, destacou os esforços da empresa no setor de armazenamento de energia em baterias (BESS, na sigla em inglês), que possibilitam garantir maior resiliência frente a eventuais eventos climáticos extremos ou temporários nas usinas de energia, sejam elas elétricas, solares ou hidrelétricas.

— A Weg está construindo a maior fábrica de sistemas de armazenamento de baterias do país. Hoje, 40% da energia que o Brasil produz vem de fontes hidráulicas e os outros 60% são de energia solar, eólica ou térmica, como biomassa e gás. O grande desafio é que nas energias eólica e solar, quem dá as cartas é a natureza. Sofreremos com essa intermitência, e a solução é armazenar. A melhor forma de armazenar energia são as baterias — afirmou.

A empresa já atua neste mercado desde 2019, mas, nos últimos anos, afirma o executivo, países da Europa demonstraram mais interesse em adquirir esse tipo de tecnologia. No Brasil, o setor foi aquecido com a expectativa do primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro, um certo que será realizado pelo Ministério de Minas e Energia .

Como alternativa para garantir uma transição energética, Marisete Pereira , presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), aponta o investimento em hidrelétricas reversíveis.

— A rápida expansão das fontes renováveis, aliada à digitalização e descarbonização da economia, transformou o ambiente de negócios do setor. A energia deixou de ser apenas um insumo e se tornou um fator estratégico para competitividade e atração de investimentos. O parque hidrelétrico continua sendo a espinha dorsal da nossa matriz elétrica — disse. — O mundo investe intensivamente em hidrelétricas reversíveis, que são a resposta para a variabilidade de produção de fontes renováveis. O Brasil não pode abrir mão de utilização desses recursos naturais por meio das usinas reversíveis.

As hidrelétricas reversíveis são capazes de armazenar energia excedente bombeando água de um reservatório inferior para um superior.

A união de várias fontes de materiais-primas sustentáveis ​​e de sistemas de energia renovável é considerada pelos executivos como a maneira mais eficaz de garantir uma transição energética rigorosa, aliada à tecnologia. Nesse contexto, a mão de obra especializada, principalmente nas áreas de engenharia e tecnologia, é vista como essencial, mas também escassa.

— Temos que continuar apostando na tecnologia. Os problemas são complexos e, às vezes, a tecnologia habilita um novo caminho — diz Cardoso. — São processos que exigem tecnologias mais avançadas, que puxam a demanda por qualificação. Profissionais de automação, por exemplo, são fundamentais, e toda a indústria tem uma demanda semelhante por essa capacitação.

Ele conta que, em parceria com instituições como o Sistema S e órgãos governamentais, a empresa tem cursos promovidos, especialmente em escolas técnicas florestais, próximas às plantas da Klabin, para formar mão de obra industrial já pensando energética nessa transição.

Para o representante da Weg, “não há problema mais democrático” para a indústria que tem deficiência de mão de obra comprometida.

— Geograficamente, isso ocorre em todos os lugares e afeta todos os setores. A retenção é um desafio constante. Na coleta, investimos em cursos de formação para jovens e escolas de formação desde a década de 1960, mas nossos cursos atualmente são direcionados para inteligência artificial, eletrônica e conectividade. O Brasil precisa estimular mais os estudos na área de tecnologia. Esse trabalho começa em casa, convencendo os filhos a seguir carreiras em engenharia. A Weg possui cerca de 50 mil colaboradores no mundo, sendo 10% deles engenheiros — investimos.

Para Marisete, trata-se de uma via de mão dupla: ampliar a capacidade de produção de energia elétrica no Brasil exige mais mão de obra, e, ao mesmo tempo, os investimentos nesse setor podem atrair mais pessoas a trabalhar nele.

— A engenharia deixou de ser algo atraente para os jovens, mas oferecemos mudanças nesse cenário. O Brasil precisa ampliar seus recursos energéticos. O consumo per capita é muito inferior ao de outros países, e temos um grande potencial para investimentos, mas precisamos de mão de obra avançada. O setor elétrico tem o dever de criar oportunidades para reter esse conhecimento, que só é desenvolvido com aplicação prática nos projetos — conclui.

Outra mesa de debate aconteceu com o tema “O desafio da indústria intensiva em energia”, discutindo os impactos da transição energética, seus custos, as exigências regulatórias e as pressões do mercado internacional.

Participaram do painel Alessandra Fajardo , diretora executiva técnica do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS); Janaina Donas , presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (Abal); e Rodrigo Lauria , diretor de Mudanças Climáticas e Descarbonização da Vale.