Finanças

Às vésperas de decisão de Trump sobre tarifaço, Pix ganha reportagem no Financial Times

Jornal britânico explica como o sistema virou um queridinho dos brasileiros e um incômodo para grandes empresas americanas

Agência O Globo - 14/07/2026
Às vésperas de decisão de Trump sobre tarifaço, Pix ganha reportagem no Financial Times
Trump - Foto: © ANSA/AFP

Às vésperas de uma decisão definitiva sobre tarifas, o Financial Times (FT), um dos mais importantes jornais do mundo, publicou uma matéria mostrando que o Pix se tornou tão popular no Brasil e, ao mesmo tempo, um incômodo para o presidente americano, Donald Trump.

Às frentes de tarifaço:

carta do tarifaço:

O Pix é um dos motivos citados nos argumentos do Departamento do Comércio dos EUA para alegar que o Brasil adotaria práticas desleais de comércio. A longa reportagem no FT, que merece destaque em seu site, explica que o Pix é um sistema de pagamentos instantâneos administrado pelo governo federal, algo que não é comum no exterior.

E detalhar como o sistema tornou-se praticamente onipresente em todo o país, sendo amplamente utilizado tanto em regiões remotas da Amazônia quanto em grandes centros urbanos e comunidades periféricas.

O FT lembra que o sistema é gratuito para os consumidores e de baixo custo para as empresas, sendo apontado como um dos principais responsáveis ​​por ampliar a inclusão financeira dos brasileiros desde seu lançamento, no final de 2020.

Integrado aos aplicativos de bancos e fintechs, o Pix permite transferências de dinheiro diretamente entre contas, sem a necessidade de cartões de débito ou crédito, detalhando o jornal britânico ao público não familiarizado com o modelo.

Para frear nova taxação:

“O Pix é ótimo porque você não precisa andar com dinheiro em espécie; dá para fazer tudo só com o celular”, resumiu um taxista, Cícero Alves, de 79 anos, entrevistado pelo jornal.

Uma investigação aberta no mês passado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sobre supostas práticas comerciais desleais alegou que o Banco Central favoreceu o Pix em detrimento de empresas de serviços de pagamento americanas, como operadoras de cartão de crédito, por meio das restrições das tarifas. O jornal britânico destaca que todas as instituições financeiras com mais de 500 mil clientes são obrigadas a oferecer a ferramenta aos seus usuários.

O relatório do USTR classificou as políticas relacionadas ao Pix como “injustas e discriminatórias” e apontou que há um conflito de interesses na atuação simultânea do BC como regulador do setor e operador do sistema.

Por que o Pix incomodou tanto os EUA:

Embora nenhuma medida tenha sido proposta diretamente contra o Pix, acrescenta a reportagem, as críticas a um dos ativos mais valorizados pelos brasileiros provocaram uma controvérsia política no país, que deverá ganhar destaque nas próximas eleições.

O Financial Times ressaltou que o relatório do USTR fez parte das preocupações em um documento do Information Technology Industry Council (ITI), grupo de lobby sediado em Washington cujos membros incluem grandes empresas americanas de tecnologia e de meios de pagamento.

Críticas:

Em entrevista ao jornal, o analista do setor financeiro do banco Mizuho, ​​Dan Dolev, afirmou que é preciso considerar que o Pix é um substituto dos cartões de débito.

“No longo prazo, ele representa, sem dúvida, um problema para as redes de cartões”, afirmou Dolev.

Procuradas pelo FT, a Mastercard aceitou pedidos de entrevista, enquanto a Visa não respondeu.

De acordo com o Financial Times, o governo brasileiro rejeitou as acusações do USTR, argumentando que o Pix é uma infraestrutura pública, aberta e não discriminatória, criada para aumentar a eficiência dos pagamentos e reduzir os custos das transações.

Além disso, ressalta o governo, o sistema permite que as empresas aprimorem serviços sobre sua infraestrutura e já beneficiem empresas estrangeiras. O governo destacou ainda que o Google Pay é o maior iniciador de pagamentos dentro do Pix e que uma subsidiária da Visa recebeu autorização para operar no sistema, lembra o jornal britânico.

O que torna o Pix tão popular, segundo o FT:

Criado como uma alternativa às transferências interbancárias mais lentas, que normalmente cobravam tarifas dos consumidores, o Pix tornou-se o meio de pagamento eletrônico mais utilizado no Brasil em número de transações;

O Pix é, atualmente, o segundo maior sistema de pagamentos instantâneos do mundo em volume de transações, atrás apenas do sistema indiano Unified Payments Interface (UPI).

No segundo semestre de 2025, aponta a reportagem, o Pix respondeu por mais da metade de todas as transações realizadas no país e por pouco mais de um quarto do valor movimentado.

Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas — cerca de 80% da população brasileira — utilizam o sistema. Somente em maio deste ano, foram movimentados R$ 3,48 trilhões em 7,9 bilhões de transações.

Utilizado principalmente por meio de celulares, o Pix exige conexão à internet e uma conta em banco ou instituição financeira. O pagador pode informar a chave Pix do destinatário e o valor da transferência ou realizar o pagamento por meio de um QR Code gerado pelo estabelecimento comercial.