Finanças

Oncoclínicas solicita recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 5,1 bilhões

Rede de clínicas oncológicas enfrenta crise financeira que afetou tratamentos de pacientes de planos de saúde.

Agência O Globo - 14/07/2026
Oncoclínicas solicita recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 5,1 bilhões
Oncoclínicas

A Oncoclínicas fechou acordo para entrar em processo de recuperação extrajudicial. Imersa em uma crise financeira há meses, a rede de tratamento de câncer tenta reestruturar um passivo que chega a R$ 5,1 bilhões . A abertura do processo de reestruturação estava prevista para ocorrer na semana passada, mas os entraves burocráticos acabaram adiando a iniciativa.

Em fato relevante enviado ao mercado na manhã desta terça-feira, a companhia destaca que 37% dos credores abrangidos aderiram ao plano.

“Nos termos da legislação aplicável, a Oncoclínicas dispõe do prazo de 90 dias para obter o percentual mínimo necessário à homologação do seu plano de recuperação extrajudicial, assegurando, assim, a vinculação de 100% dos Créditos Abrangidos aos novos termos e condições de pagamento a serem definidos no Plano”, diz o documento.

A recuperação não abrange obrigações operacionais da rede de clínicas, como pagamentos relacionados a fornecedores.

“As operações da Oncoclínicas seguem sendo conduzidas normalmente no atendimento a clientes, fornecedores e colaboradores, de modo que a recuperação extrajudicial não impactará quaisquer outras obrigações da companhia”, destaca o texto.

A reestruturação, segundo a companhia, poderá envolver medidas como a injeção de recursos pelos acionistas, a conversão de parte das dívidas em ações da empresa, a renegociação de alguns dos débitos por novos empréstimos e a ampliação do prazo para pagamento aos credores.

O grupo também informou que, como parte da reestruturação, rescindiu o contrato de locação com o fundo imobiliário Tellus Healthcare para a abertura de uma clínica em São Paulo. A multa pela rescisão é de cerca de R$ 76 milhões . Outro contrato cancelado foi o que antecede a construção de um hospital em Goiânia, cuja multa ainda está sendo apurada.

Em meados de junho, encerrou o período de 60 dias de proteção contra credores que a companhia conseguiu na Justiça em abril.

A busca por uma blindagem contra a cobrança de dívidas ocorreu dias após a empresa divulgar seu balanço financeiro de 2025 , quando registrado prejuízo de R$ 3,67 bilhões .

Os números também demonstraram que a Oncoclínicas não cerrou o ano com a dívida dentro das condições previstas no contrato com os credores, de alavancagem 3,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, imposto, depreciação e amortização). Esse indicador mostra quanto uma empresa depende de dívida para financiar suas operações: quanto mais elevado, maior o risco financeiro. Nas Oncoclínicas, a alavancagem ficou em 4,3 vezes .

Interrupção do processo

Na ponta mais sensível, a crise afetou os pacientes com câncer de planos de saúde aos quais a rede é conveniada, que viram atendimentos e sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia suspensas por falta de medicamentos. A empresa chegou a realizar um mutirão para regularizar os serviços.

No auge da crise, a criação de uma empresa conjunta com a Porto Seguro e o grupo de medicina diagnóstica Fleury foi apontada como uma solução possível para as Oncoclínicas. A negociação, porém, foi retirada da mesa no dia em que a empresa levou à Justiça o pedido de proteção contra credores.

Briga por oferta pública de ações

Paralelamente, acionistas minoritários pressionaram por uma oferta pública de aquisição (OPA) de cerca de R$ 6 bilhões . O pedido é para obrigar o gestor americano Centaurus a pagar aos acionistas um valor superior a R$ 16 por ação, que hoje vale R$ 0,77 na Bolsa.

A origem do caso foi a reorganização da fatia da Goldman Sachs na Oncoclínicas, concluída em novembro de 2024 . O fundo da Centaurus passou a deter mais de 15% da companhia, um dos gatilhos para a realização da OPA, segundo o estatuto da empresa.

Como mostrado na coluna Capital, os técnicos da Comissão de Valores Mobiliários são contra a OPA, mas a decisão caberá ao colegiado do órgão.