Finanças

Flávio defende entrada do Brasil em acordo comercial entre EUA, México e Canadá que foi esvaziado por Trump

Proposta surge uma semana após governo americano abandonar a renovação automática do acordo que substituiu o Nafta

Agência O Globo - 08/07/2026
Flávio defende entrada do Brasil em acordo comercial entre EUA, México e Canadá que foi esvaziado por Trump
Flávio Bolsonaro - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta quarta-feira que pretende aproveitar a rodada de reuniões reservadas que terá hoje em Washington com interlocutores ligados ao governo Donald Trump para defender a entrada do Brasil em um acordo comercial semelhante ao firmado entre Estados Unidos, México e Canadá. A proposta será apresentada um dia depois de sua participação na audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), na qual pediu o cancelamento da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, defendeu o Pix e voltou a cobrar uma aproximação econômica entre Brasília e Washington.

Em transmissão ao vivo, o senador afirmou que pretende sugerir a criação de um " AFTA ", em referência ao antigo Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), incorporando o Brasil ao bloco comercial.

— Eu vou, nessas conversas que tenho agora, informar que pretendo falar que, assim como tem o Nafta, a gente pode cortar a letrinha N e falar AFTA, e o Brasil pode se incluir. Temos uma avenida de oportunidades para atrair investimentos americanos e gerar uma zona de livre comércio com esses três países: Canadá , México e Estados Unidos — afirmou.

A ideia deverá ser apresentada durante os encontros reservados que Flávio terá nesta quarta-feira com interlocutores ligados à investigação comercial conduzidos pelo USTR. Na avaliação do Senado, uma maior integração econômica entre Brasil e Estados Unidos produziria resultados mais eficazes do que a imposição de barreiras tarifárias.

A proposta, porém, surge em um momento de incerteza justamente sobre o futuro do acordo entre Estados Unidos, México e Canadá. Na semana passada, o governo Donald Trump decidiu abandonar a renovação automática do USMCA , tratado que substituiu o Nafta em 2020. Em vez de prorrogar automaticamente o acordo por mais 16 anos, Washington optou por submetê-lo às revisões anuais, alegando que o pacto precisa ser reformulado para reduzir déficits comerciais e fortalecer a indústria americana. Embora o tratado permanecesse em vigor, a decisão abriu um período de negociações permanentes e aumentou a incerteza para empresas que operam na América do Norte.

A defesa de um acordo comercial mais amplo marca uma mudança na estratégia adotada por Flávio durante a viagem. Na audiência promovida pelo USTR, o senador concentrou sua apresentação no pedido para que o governo americano cancelasse as tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, preservasse o Pix e mantivesse aberta uma negociação bilateral. Agora, nas reuniões reservadas, pretendo ampliar esse discurso e apresentar uma agenda de integração econômica entre os países.

Na mesma transmissão, Flávio voltou a afirmar que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria conduzindo uma política externa " antiamericana " e disse acreditar que uma recomendação técnica do USTR será favorável à aplicação das tarifas.

— O que está correndo nos bastidores é que essa tarifa de 25% vai ser sugerida pelo USTR. Eles têm preocupação com o comportamento do Brasil em relação à China , mas fui lá explicar que as exportações entre os países aumentaram. Tentei explicar que, se transferirem tarifas novamente, a consequência será fortalecer a China.

Segundo Flávio, esse continuará sendo um dos principais argumentos levados às reuniões desta quarta-feira. Na avaliação do Senado, uma nova rodada de sobretaxas acabaria aproximando ainda mais o Brasil da China e produziria um efeito contrário aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Flávio também retomou a defesa do Pix, um dos temas incluídos na investigação comercial americana.

— Expliquei que o Pix foi uma inovação do governo Bolsonaro. Funcionou para integrar o mercado informal e acabou beneficiando também empresas americanas de meios de pagamento.

Ao comentar o cenário político brasileiro, o senador voltou a afirmar que uma eventual mudança de governo alteraria a relação bilateral entre Brasília e Washington.

— Existe alguém hoje na Presidência do Brasil que é anti-Estados Unidos. Disse que, em 87 dias, com as eleições, o cenário pode mudar. Eu pedi: cancelem essas tarifas.

Segundo aliados, a rodada de reuniões desta quarta-feira representa a última etapa da operação montada por Flávio nos Estados Unidos antes da decisão prevista para 15 de julho sobre a aplicação ou não da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. Nos bastidores, a campanha avaliada que, caso o governo Trump recue da medida ou reduza seu alcance, o senador deverá sustentar que uma interlocução construída durante a viagem contribuiu para evitar prejuízos às empresas brasileiras e fortalecer o discurso de que abriu caminho para uma agenda de maior aproximação comercial entre os dois países.

Flávio já começou a construir esta narrativa: durante a transmissão de hoje, ele afirmou ser a única chance do país não ser sobretaxado.