Finanças

Vendas de veículos novos devem chegar a 3 milhões de unidades este ano, melhor marca desde 2014, prevê Anfavea

Nova estimativa da entidade também mostra queda das exportações e produção descolada dos emplacamentos

Agência O Globo - 07/07/2026
Vendas de veículos novos devem chegar a 3 milhões de unidades este ano, melhor marca desde 2014, prevê Anfavea
- Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As vendas de veículos no Brasil devem passar de 3 milhões de unidades este ano, marca que não era atingida desde 2014 e que representa um crescimento de 12,1% em relação a 2025, segundo nova estimativa da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgada nesta terça-feira. A produção nacional também vai crescer 5,8%, alcançando 2,7 milhão de veículos, mas há um descolamento em relação aos emplacamentos, aponta a Anfavea, reflexo do crescimento expressivo das importações.

Decisão polêmica:

— Sempre os resultados do emplacamento e da produção nacional caminham juntos. Mas este ano, o emplacamento será bem maior, reflexo do crescimento das importações. A produção cresce, mas proporcionalmente menos que o tamanho do mercado. Há um descolamento — disse Igor Calvet, presidente da Anfavea ao apresentar os novos números do setor.

A entidade, que representa as montadoras instaladas no país, previa no início do ano que as vendas de veículos chegariam a 2,7 milhões de unidades, alta de 2,7% em relação a 2025. Contudo, os emplacamentos de veículos leves tiveram um dinamismo neste primeiro semestre, crescendo dois dígitos em alguns meses, levando a uma revisão da projeção.

Já as exportações brasileiras de veículos devem ficar em 462 mil unidades, queda de 12,18%. A estimativa inicial era vender ao exterior, este ano, 532 mil unidades, o que seria uma alta de 1,3%.

No primeiro semestre deste ano, o emplacamento de veículos alcançou a melhor marca desde 2014. Foram 1,42 milhão de unidades, aumento de 18,5% sobre o mesmo período de 2025. Somente no primeiro semestre, foram importados 280 mil veículos, sendo 140 mil da China, um crescimento de 98,5% em relação ao mesmo período de 2025, quando 71 mil unidades chinesas desembarcaram no Brasil.

A importação de veículos eletrificados, no mesmo período, ficou em 145,9 mil, superando a importação de veículos a combustão (134,5 mil) e sinalizando a preferência do consumidor por essa tecnologia. Também no primeiro semestre, os veículos montados no Brasil pelo sistema CKD e SKD (kits de veículos que chegam semimontados ao país) chegaram a 54 mil unidades.

Não se pode brigar com a realidade

Calvet, da Anfavea, afirmou que não se pode brigar com a realidade neste cenário de mudança de tecnologias de propulsão, onde os veículos eletrificados vêm ganhando espaço na preferência do consumidor. Ele, entretanto, pondera que o que chama a atenção é o ritmo acelerado dessa mudança.

— O que eu chamo a atenção é a rapidez (dessa mudança). Para sistemas de produção complexos como o nosso é preciso de tempo. Talvez o setor automotivo nunca tenha passado por uma mudança tão rápida — avalia.

Calvet voltou a citar a preocupação com o sistema produtivo nacional, especialmente após a renovação das cotas sem impostos dos CKDs e SKDs importados, decisão tomada pelo governo em junho, que beneficiou especialmente a montadora chinesa BYD.

— Não adianta ter no Brasil uma produção sofisticada e complexa e ao mesmo tempo ter incentivos para fazer outra coisa (montagem por CKDs a SKDs). Nossa briga não é com a tecnologia, mas sim contra o incentivo dado a isso. A luta é por condições iguais de competitividade — disse Calvet, que lembrou que no sistema de kits semimontados são necessários apenas três trabalhadores para montar um veículo, enquanto numa montadora tradicional, são dez trabalhadores por unidade.

Ele vê risco de outras montadoras migrarem para o sistema de CKDs e SKDs.

— A decisão é global das montadoras, mas ninguém vai ficar de braços cruzados vendo o outro ganhar mercado. Vejo o risco, sim. E se o modelo de produção for SKD e CKD, o posicionamento da Anfavea deixa de fazer sentido. Mas, enquanto isso não acontecer, a Anfavea vai lutar pela produção nacional — disse.

Sem ação na Justiça

Ele afirmou que a Anfavea decidiu não judicializar a decisão do governo da renovação das cotas. Segundo Calvet, uma ação contra a Câmara de Comércio Exterior (Camex) poderia levar anos, enquanto a decisão de renovação das cotas é de apenas seis meses. Mesmo assim, a Anfavea vai fazer uma representação junto ao Ministério Público de Contas para pedir a melhoria da governança do órgão.

— O rito de governança da Camex precisa ser aprimorado. Não houve publicação prévia da agenda, e não houve contraditório — afirmou sobre a decisão que renovou as cotas.