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Fim da escala 6x1: votação da PEC deve ficar para depois do recesso, avaliam governistas

Medida é tratada como prioritária para aliados de Lula, já que é potencial vitrine a ser explorada pelo petista no processo eleitoral

Agência O Globo - 02/07/2026
Fim da escala 6x1: votação da PEC deve ficar para depois do recesso, avaliam governistas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconhecem que a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o fim da escala de trabalho 6x1 deve ficar para depois de agosto. A avaliação é de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem dado sinais dúbios sobre como vai conduzir o debate da PEC. A previsão frustra expectativas iniciais de que esse debate pudesse ser encerrado até o recesso, que começa em 18 de julho.

A medida é prioritária para aliados de Lula, já que é potencial vitrine a ser explorada pelo petista no processo eleitoral diante da popularidade e do seu alcance. A PEC foi aprovada na Câmara no dia 27 de maio e, desde então, não avançou no Senado. Procurado via assessoria, Alcolumbre não comentou.

Auxiliares de Lula dizem que Alcolumbre sinalizou que propostas de interesse do governo federal só andariam na Casa após uma conversa dele com o presidente da República — o que não ocorreu até agora e, segundo aliados do petista, ainda não tem previsão de ocorrer. As duas autoridades se afastaram após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), impondo derrota histórica a Lula. O Palácio do Planalto acredita que Alcolumbre orquestrou essa rejeição, e o presidente da República não tem escondido de auxiliares o descontentamento com o senador.

Nos últimos dias, em um despacho com um ministro do Palácio do Planalto, Lula voltou a pedir o mapa de votação da sabatina de Messias para identificar eventuais traições, de acordo com relatos de dois interlocutores próximos do presidente. Um deles diz que isso exemplifica a mágoa que o petista ainda tem com o episódio e mostra como ainda não há clima para um encontro entre as duas autoridades.

Enquanto isso, Alcolumbre não iniciou a tramitação da PEC, que deve passar por análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado antes de ir ao plenário. O presidente do colegiado, senador Otto Alencar (PSD-BA), diz acreditar que não há tempo hábil para esgotar a discussão do tema antes do recesso, ainda mais com sessões remotas no Senado e sem definição de quem será o relator da proposta.

— O relator é quem dá a dinâmica do processo de votação. Indicando o relator, certamente ele fará audiências públicas. Não dá mais tempo para fazer isso nesse semestre. Esse tema precisa ser debatido no Senado com muita responsabilidade — diz o senador ao GLOBO.

Aliado de primeira hora de Lula, Alencar já indicou que assim que o tema chegar à CCJ ele dará celeridade à votação. Nesta quarta-feira, ocorreu uma audiência pública no plenário do Senado para discutir o tema. Pela manhã, o presidente do Senado também se reuniu com sindicalistas para tratar do assunto.

Segundo relatos de dois participantes do encontro, o senador não deu pistas de como será a tramitação da PEC na Casa e voltou a falar que não criará obstáculos ao tema nem acelerará sua tramitação. Ainda nesse encontro, Alcolumbre afirmou que é favorável a retirar do texto da PEC o período de transição que foi incluído na Câmara, demanda de interesse do governo federal.

Um governista diz enxergar nessa iniciativa um gesto de Alcolumbre ao Planalto e uma sinalização para distensionar a relação. Apesar disso, no entanto, há ceticismo entre auxiliares de Lula, que falam que o senador tem dado sinais dúbios ao governo, além de a relação de confiança dele com o Planalto estar abalada. Em junho, por exemplo, o presidente do Senado sinalizou a ministros de Lula numa reunião que ele não avançaria com pautas-bomba na Casa — o que não ocorreu. Num único dia, três pautas com alto impacto nas contas públicas avançaram no Senado, contrariando o governo.

O Planalto tinha pressa para votar a PEC antes do dia 18 de julho, quando inicia formalmente o recesso parlamentar. Isso porque o Congresso, historicamente, fica esvaziado durante o processo eleitoral, quando deputados e senadores voltam sua atuação a seus redutos eleitorais.

Um integrante do governo que despacha no Planalto diz que ainda não há nem garantias de que a votação da PEC ocorra em agosto, na volta do recesso parlamentar. Ele afirma que, caso o tema não avance, aliados de Lula deverão tensionar o debate no processo eleitoral e responsabilizar o Congresso pelo não andamento da proposta, especialmente Alcolumbre.

Desde que a PEC foi aprovada na Câmara, aliados do petista no Congresso e na Esplanada têm cobrado o andamento do tema no Senado, cobrando Alcolumbre. Grupos em aplicativos de mensagens ligados ao PT abordam o assunto quase diariamente.

Em um dos vídeos disparados em um desses grupos, por exemplo, uma imagem de Alcolumbre dançando é exibida enquanto o narrador do vídeo fala: “enquanto o Senado demora a votar o fim da escala 6x1, o relógio não para e o trabalhador continua exausto e a vida continua passando”. O PT, partidos de esquerda e movimentos sociais também têm convocado manifestações de rua para pressionar o andamento do projeto no Congresso.

O próprio Alcolumbre já demonstrou contrariedade a interlocutores com os ataques de governistas e, mais recentemente, criticou a pressão que vem sofrendo para que o tema seja aprovado antes das eleições. Em discurso no plenário na terça, o presidente da Casa criticou autoridades do governo por essa postura.

— Eu tenho um discurso de uma autoridade importante do Brasil que disse que a PEC da escala 6x1 precisa ser deliberada agora, antes da eleição, porque ela vai servir para o calendário eleitoral. Pode isso? Não pode isso — afirmou.

Segundo ele, a pressa do governo para votar o projeto antes da eleição é para que parlamentares se sintam constrangidos a negar a proposta.

— Não seria um artifício de dizer para o outro: 'Estou te ameaçando, porque se você não votar, você vai ficar contra 37 milhões de trabalhadores que querem um dia a mais de descanso?' — completou.