Finanças

Tarifaço dos EUA: soberania brasileira é tema que não está em negociação, afirma ministro Elias Rosa

Em reunião com Representante do Comércio americano, Brasil propõe cooperação entre polícias para combater crime organizado transnacional

Agência O Globo - 02/07/2026
Tarifaço dos EUA: soberania brasileira é tema que não está em negociação, afirma ministro Elias Rosa
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa - Foto: Júlio César Silva/MDIC

O ministro Márcio Elias Rosa participou de mais uma reunião com uma equipe do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) para contrapor a investigação que acusa o governo brasileiro de práticas "não razoáveis" que oneram ou limitam o comércio americano. Ele anunciou a proposta de implementação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

Como o prazo para que as medidas contra o Brasil sejam definidas e implementadas vai até 15 de julho, ele admite que se trata de uma "corrida contra o tempo". Pondera, no entanto, que há temas que não estão em negociação.

— Hoje tivemos mais uma conversa, acho que a quinta de alto nível entre o governo brasileiro e o USTR. Não é nível técnico, é no nível político. Foi a quarta com o representante do escritório, Jamieson Greer, e com uma equipe de nove pessoas, no total — explicou ele, que também participou da reunião e, por isso, precisou atrasar sua participação em evento do Governo Federal, nesta manhã, no Rio de Janeiro.

Na próxima semana, continua Elias Rosa, haverá uma outra reunião técnica para, na sequência, ser feita uma outra reunião de alto nível.

— Estamos tentando construir um consenso. O tempo corre contra, não corre a favor, porque o prazo (final) é 15 de julho — disse o ministro. — O que estamos debatendo, e foi o debate de hoje, são todos os aspectos associados à Seção 301, esclarecendo a improcedência das críticas que são lançadas sobre desmatamento, Pix, propriedade intelectual.

Entre os debates estão uma proposta levada pelo Brasil de aperfeiçoamento de aproximação entre a polícia federal do Brasil e a polícia americana no combate a crimes e ao crime organizado transnacionais, além da lavagem de dinheiro.

Entraram na pauta ainda temas como comércio digital, política de data centers, imigração e proteção à propriedade intelectual, área em que, frisou o ministro, o Brasil já atua em conformidade com as regras internacionais, mas está sempre disposto a fazer aperfeiçoamentos.

Soberania não está em negociação

As discussões estão sendo realizadas no âmbito da Seção 301, por meio da qual os EUA abriram investigações que apontam que o Brasil estaria adotando práticas que limitam o comércio americano. Na mira do governo Trump estão o Pix, o desmatamento ilegal, falhas no combate à corrupção e tarifas de importação de etanol.

Segundo o ministro, o presidente Lula orienta a enfrentar os desafios geopolíticos globais e atuar para voltar a mercados onde existem barreiras a produtos brasileiros. Mas há ressalvas:

— Quando o mundo se fecha, e com alguns falando em outras línguas e até, às vezes, em português, querendo criar barreiras para o nosso comércio, o presidente Lula disse: "Não saia da mesa de negociação". Até para dizer e reforçar que há temas que não estão em negociação e que jamais estarão, como por exemplo, a soberania brasileira.

O ministro questionou o que chamou de atuação de "oportunistas" e "falsários", sem fazer uma menção direta a lideranças adversárias ou a aliados do candidato do PL à presidência da República.

— Essas pessoas sempre dificultam muito o trabalho, não porque são capazes de causar algum alvoroço, mas porque poluem o debate político ou colocam num debate que é econômico, comercial um componente político que não deveria estar ali — destacou. — Não cabe na mesa de negociação, da economia do comércio bilateral, questões ideológicas eleitoreiras, pessoalmente oportunistas. Isso não tem cabimento.

Elias Rosa destacou que, diante de "momentos geopolíticos terríveis", o Brasil conquistou 640 mercados em três anos de governo Lula, citando ainda avanços em acordos internacionais como os firmados entre Brasil e diversos países, além de negociações sendo abertas com o Japão.

Margem Equatorial e terras-raras sob risco

O presidente do BNDES, Guilherme Mercadante, acrescentou que a defesa da soberania brasileira é incontornável nas negociações com os Estados Unidos. Ele explicou que ter uma equipe do governo Trump participando da transição para um novo governo, como propôs Flávio Bolsonaro aos EUA e foi citada em carta de Marco Rubio, secretário de Estado americano, ao presidenciável, representaria risco a ativos e projetos estratégicos do país.

— Vi uma carta do Marco Rubio afirmando que o candidato Flávio Bolsonaro convidou os Estados Unidos para fazerem parte do governo de transição. É gravíssima essa informação — diz ele, que participou da transição para este governo Lula.

Mercadante explicou que todos os participantes do processo têm acesso a informações sensíveis e estratégias em diversas áreas e, por isso, assinam compromissos de sigilo.

— Na transição, fomos ver na Petrobras qual era o potencial da margem equatorial, para dar um exemplo pequeno. Você vai no Ministério da Defesa para ver a indústria de defesa, suas demandas, orçamento, prioridades. No BNDES, tem todos os projetos em minerais críticos, o que vai ser feito, aprovado, o que estamos patenteando — enumerou. — Não agride só a soberania (nacional). Isso viola um princípio básico da transição que transfere o sigilo da informação.