Finanças
Digimais trocou auditoria após alerta sobre inconsistências em fundos e ignorou recomendações
Banco afirma ter compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a colaboração com as autoridades competentes
Alvo de investigação da Polícia Federal, o banco digital Digimais trocou de auditoria independente após alertas sobre inconsistências em cotas de fundos registradas em seu balanço. O caso é um dos indícios de suposta fraude financeira apontados na Operação Miragem, deflagrada na terça-feira. Segundo as apurações, o banco, controlado pelo grupo do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, é suspeito de inflar artificialmente o valor de ativos em seu resultado contábil para ocultar dificuldades financeiras.
Em nota, o Digimais informou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações em curso. "A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes", declarou o banco.
Um dos principais indícios citados pela PF é um relatório de supervisão bancária do Banco Central, órgão regulador do Digimais, enviado ao Ministério Público Federal (MPF). O documento aponta uma "manobra contábil" de R$ 670 milhões no balanço, atribuída à supervalorização de cotas de fundos de direitos creditórios. Nesse tipo de veículo financeiro, o lucro decorre da diferença entre o valor de face dos recebíveis, pago ao fundo pelo devedor, e o custo de aquisição junto ao detentor originário.
Ao todo, por meio de uma estrutura de fundos, ativos avaliados em R$ 71 milhões foram registrados nos resultados financeiros do banco por R$ 741,3 milhões. Responsável pela auditoria independente do balanço à época, a consultoria Grant Thornton fez uma ressalva às demonstrações financeiras do Digimais, afirmando não ter condições de concluir se as cotas de fundos de direitos creditórios haviam sido registradas pelo valor justo no balanço.
"Em virtude de as premissas utilizadas para avaliação a mercado desses ativos não poderem ser verificáveis por falta de transações similares no mercado, não tivemos condições de concluir, através de procedimentos alternativos de auditoria, quanto à adequação dos respectivos valores registrados e a respectiva provisão prudencial reconhecida pelo banco em 31 de dezembro de 2023", apontou o relatório da auditoria.
Na ocasião, o Digimais registrou R$ 855,537 milhões em cotas de fundos de direitos creditórios, avaliadas a valor justo, o que gerou receitas de R$ 520,758 milhões. O relatório de auditoria também destacou que o banco havia apresentado ao Banco Central, em março de 2024, um plano de recomposição de capital e de reestruturação de governança.
Segundo o documento, o Digimais havia se comprometido com um aumento de capital de R$ 250 milhões e com a constituição de uma reserva de R$ 200 milhões para fazer frente a perdas prováveis, em um provisionamento prudencial referente aos valores justos reconhecidos nas aplicações em fundos. A última medida já havia sido realizada em 2023, mas o plano completo, que também previa revisão da governança e do planejamento estratégico do banco, ainda estava em análise pelo BC naquele momento.
De acordo com a representação da Polícia Federal à Justiça para autorizar a Operação Miragem, o Banco Central já havia identificado, em outubro de 2023, infração às normas com a valorização de R$ 670 milhões das cotas de fundos. O órgão determinou a correção do balanço, mas o Digimais pediu que o impacto nos resultados fosse parcelado em cinco anos.
No balanço seguinte, referente ao primeiro semestre de 2024, a Grant Thornton voltou a fazer ressalva pelo mesmo motivo. A consultoria afirmou que não teve condições de concluir sobre a "adequação" dos valores registrados. Ao fim de junho de 2024, a auditoria destacou que o banco tinha R$ 1,113 bilhão em cotas de fundos de direitos creditórios, dos quais R$ 780,145 milhões eram referentes a aplicações em cotas avaliadas a valor justo.
Posteriormente, a instituição controlada pelo grupo de Edir Macedo substituiu a auditoria independente e contratou a CLA Brasil. Os balanços subsequentes, do fim de 2024 e do primeiro semestre de 2025, não apresentaram ressalvas. O relatório de auditoria relativo a dezembro de 2024, porém, destacou que as avaliações anteriores haviam sido emitidas com ressalvas.
"As Demonstrações Financeiras da Companhia correspondentes ao exercício findo em 31 de dezembro de 2023 e semestre findo em 30 de junho de 2024 foram examinadas por outros auditores independentes que emitiram, respectivamente, em 20 de agosto de 2024 e 03 de abril de 2024, relatórios de auditoria com ressalvas relativas à mensuração de cotas de fundos de investimentos em direitos creditórios", informou o relatório da CLA Brasil, assinado em 31 de março de 2025.
Na análise do balanço do fim de 2025, as ressalvas voltaram a aparecer. A CLA Brasil afirmou não ter conseguido aferir a veracidade dos valores registrados nos resultados referentes a diversas classes de fundos. Do total de R$ 4,233 bilhões investido em fundos, foram identificadas limitações em R$ 3,098 bilhões.
"Em decorrência dos aspectos acima mencionados, não foi possível realizar procedimentos de auditoria persuasivos sobre tais investimentos em nossa data base. Desta forma, considerando que não obtivemos evidências de auditoria suficientes e apropriadas, não nos foi possível determinar os eventuais ajustes, se houver, nas demonstrações contábeis do Banco", registrou a auditoria.
A auditoria também destacou a operação de compra e venda a prazo de R$ 741,349 milhões em cotas de FIDCs para a controladora B.A. Empreendimentos e Participações. O negócio foi citado na representação da PF como uma "burla" às determinações do Banco Central para correção dos valores relacionados a cotas de FIDCs supostamente infladas no balanço do banco.
Segundo o Banco Central e a Polícia Federal, a operação estaria em desacordo com a legislação. Mesmo sem receber pela transferência, o Digimais reverteu provisões determinadas pelo BC. No parecer, a CLA Brasil apontou a reversão de provisão no valor líquido de R$ 126 milhões, constituída em decorrência de compromisso assumido perante o Banco Central. A auditoria afirmou que a "operação pode não refletir condições usuais de mercado".
"Até a data de emissão deste relatório, não obtivemos evidências de auditoria apropriadas e suficientes que nos permitissem concluir sobre a adequada classificação, da mensuração do ativo reconhecido e a razoabilidade dos efeitos contábeis decorrentes dessa transação", concluiu a auditoria.
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