Finanças
Sem venda ao BTG, mercado e agências veem situação do Digimais se agravar
Banco controlado por Edir Macedo adotou estratégia semelhante à do Master para ampliar captações, com CDBs pagando até 140% do CDI; Polícia Federal investiga operações
Mesmo antes de ser alvo, nesta terça-feira, de uma operação da Polícia Federal por suspeitas de fraudes financeiras, o futuro do banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, já era visto com desconfiança na Faria Lima. Assim como o liquidado Banco Master, a instituição vinha oferecendo remuneração muito acima da média do mercado para seus CDBs (Certificados de Depósito Bancário), com taxas entre 115% e 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário).
O mercado avalia que a situação do Digimais tende a se complicar ainda mais, já que a compra do banco pelo BTG Pactual, que vinha sendo negociada, não deve avançar diante das investigações da PF.
Digimais sob pressão
“Método Master”
— O BTG não vai querer colocar para dentro um problema como esse, pois, após o negócio ser formalizado, o comprador passa a ser responsável pelo que surgir depois. Ficou evidente que a estratégia do Digimais foi parecida com a do Master, ou seja, inflar artificialmente o patrimônio para emitir um grande volume de CDBs além do que seria possível — analisa Paulo Bittencourt, estrategista-chefe da MZM Wealth.
Procurado, o BTG não comentou a negociação. Pessoas que acompanham as tratativas, no entanto, avaliam que a transação não deve seguir adiante.
A agência de classificação de risco Fitch Ratings também vê a possibilidade de o Digimais não honrar seus compromissos financeiros, o que poderia levar a instituição ao default — atraso ou inadimplência no pagamento de suas obrigações. A agência rebaixou a classificação do banco e retirou todos os ratings, ou seja, deixou de acompanhar a instituição.
“O rebaixamento reflete a visão da Fitch de que a margem de segurança do banco é muito baixa, sendo a falha (‘failure’) da instituição financeira e/ou o default uma possibilidade real, impulsionados por incertezas consideráveis em relação ao perfil financeiro do Digimais, bem como por restrições relevantes na avaliação da agência, decorrentes da ausência de informações atuais e da limitada visibilidade sobre a estratégia do banco. A capacidade de o banco manter suas operações sem suporte é altamente vulnerável a uma deterioração do ambiente de negócios e econômico”, escreveu a Fitch.
Riscos maiores com retorno acima da média
Especialistas lembram que aplicações com rentabilidade muito acima da média também carregam riscos maiores, mesmo quando contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), espécie de seguro do sistema financeiro em caso de quebra de uma instituição, limitado a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira.
Ao oferecer taxas de retorno superiores às do mercado, o banco vinha ampliando sua captação por meio de CDBs. No fim de 2023, esses depósitos de longo prazo — que incluem CDBs prefixados e pós-fixados — somavam R$ 6,9 bilhões. Ao fim de 2024, o valor chegou a R$ 7,5 bilhões. No último balanço divulgado pelo banco, em dezembro de 2025, os depósitos de longo prazo somavam R$ 8,4 bilhões.
— Para quem comprou os CDBs, só resta esperar o vencimento ou aguardar uma eventual liquidação e ser socorrido pelo FGC — afirma Bittencourt, que avalia que vender os títulos neste momento pode significar perdas relevantes para os investidores.
Auditoria apontou inconsistências
Analistas lembram que a própria auditoria independente responsável por analisar os números do balanço do Digimais, a Clifton Larson Allen Brasil Auditores Independentes (CLA), já havia apontado inconsistências nas demonstrações financeiras do banco. Em 31 de dezembro de 2025, o Digimais possuía R$ 4,2 bilhões em fundos de investimento. Desse total, a auditoria avaliou que, em R$ 3 bilhões, não foi possível verificar nas demonstrações financeiras dos fundos se havia necessidade de provisão de crédito ou possíveis impactos nas cotas.
“Não foi possível realizar procedimentos de auditoria persuasivos sobre tais investimentos em nossa data-base. Desta forma, considerando que não obtivemos evidências de auditoria suficientes e apropriadas, não nos foi possível determinar os eventuais ajustes, se houver, nas demonstrações contábeis do banco”, escreveu a CLA no balanço.
Cotas dos fundos infladas
A investigação da Polícia Federal apontou que o Digimais teria registrado, em seu balanço, ativos avaliados em R$ 71 milhões como se valessem R$ 741,348 milhões. A diferença, de R$ 670 milhões, corresponde ao montante cujo bloqueio foi autorizado pela PF. Segundo a apuração, o banco teria usado uma estrutura de fundos para melhorar seus resultados contábeis.
Caso o cenário de liquidação se concretize, o mercado avalia que, depois de desembolsar cerca de R$ 50 bilhões para ressarcir clientes do conglomerado Master, o FGC teria de arcar com aproximadamente R$ 8 bilhões para cobrir clientes com CDBs do Digimais.
Resoluções do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional (CMN) limitaram o uso da garantia do FGC como estratégia de captação por bancos pequenos e médios, especialmente após o rombo bilionário causado pelo Banco Master.
Em março, os bancos realizaram um adiantamento de contribuições ao FGC para recompor o caixa da instituição. Houve antecipação de 60 meses de contribuições, em um aporte extraordinário que movimentou cerca de R$ 32,5 bilhões.
Procurado para comentar o caso Digimais, o FGC informou que não comenta a situação de associados. No balanço de 2025, o Digimais informou ter contribuído com R$ 10 milhões ao fundo.
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