Finanças
Digimais atua com consignado e financiamento de veículos e vira alvo da PF
Investigação apura suspeita de supervalorização de ativos em fundos e afasta negociação com o BTG Pactual
Alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (23), o Banco Digimais — controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus — nasceu como financiador de veículos seminovos, acumulou prejuízos com o avanço da inadimplência e tentou se reposicionar no crédito consignado. A trajetória, porém, foi marcada por uma restrição financeira acelerada.
A Operação Miragem apura suspeitas de manipulação contábil e ocultação da real situação financeira da instituição. A investigação também analisa alguns fatores que desmoronaram as tratativas de venda para o BTG Pactual, vistas pelo mercado como uma das principais alternativas para estabilizar o banco.
Fundado em 1981
Criada em 1981, em Porto Alegre, como Banco Renner, uma instituição pertencente à família de mesmo sobrenome e era descrita como financeiramente equilibrada. Em 2009, Macedo adquiriu uma participação minoritária de 40% no capital. Onze anos depois, em 2020, o bispo substituiu o controle integral e promoveu uma ampla reestruturação: mudou o nome para Digimais, reposicionou a marca como banco digital e colocou o bispo João Urbanela à frente da gestão.
A transição, no entanto, não foi tranquila. Dois anos após a mudança de controle, o banco registrou um rombo de R$ 740 milhões na caixa, em forte contraste com o desempenho da fase anterior como a Renner.
A proteção das carteiras de crédito e a sequência de prejuízos acumulados passaram a chamar a atenção do mercado e dos órgãos reguladores.
— A carteira do banco é especializada em financiamento de veículos seminovos e crédito consignado. Sua base reúne compradores de veículos, aposentados, pensionistas e trabalhadores com renda consignável, enquanto a captação de recursos depende principalmente de investidores em CDBs — explica Carlos Henrique da Silva Junior, da consultoria Cross Harbor.
Carros e empréstimos com desconto em folha
O modelo de negócios da Digimais foi estruturado sobre o financiamento de veículos seminovos, segmento que, ao longo do tempo, passou a registrar inadimplência elevada. Luiz Miguel Santacreu, consultor da Austin Rating, aponta um problema estrutural dessa carteira:
— O financiamento de veículos depende muito do perfil do tomador. Quando há inadimplência, o banco precisa retomar o bem, levar o leilão e absorver o custo dessa recuperação. Dependendo da qualidade do desenvolvedor, isso deteriora significativamente a carteira — disse Santacreu.
Diante desse cenário, o banco decidiu interromper a originação de crédito para veículos e migrar para o consignado, modalidade considerada de menor risco porque as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento do servidor público antes mesmo do salário ser creditado. A mudança estratégica, porém, veio tarde demais para conter os danos já acumulados.
É justamente na carteira de veículos que estaria o núcleo das suspeitas investigadas pela PF. Créditos com alto nível de inadimplência foram transferidos do balanço do banco para fundos de investimento, entre eles o Hermon, apontado como o mais relevante da estrutura do Digimais. O movimento contábil, em si, não é proibido. O problema, segundo o pesquisador, estaria no que ocorreu depois.
O administrador dos fundos não teria marcado os ativos pelo valor real de mercado, mas por um montante inflado, criando uma aparência de solidez financeira que não existia.
— Quando esses ativos foram registrados pelo valor que realmente valiam, o banco teria um prejuízo muito maior do que o lucro de R$ 31 milhões declarado no ano passado. Provavelmente teria um resultado negativo que corroeria ainda mais o patrimônio, exigindo reforço de capital para continuar operando — afirmou Santacreu.
Auditório externo
Os auditorias externas do balanço do banco, fechadas com base nos dados de dezembro de 2025, não chegaram a cobrir os fundos, o que gerou ressalvas formais no documento. O auditor sinalizou que parte dos ativos não tinha avaliação externa verificável. Esses três fundos — um FIDC, um fundo de participações e um veículo multimercado — chegaram a representar quase 43% do total de ativos da instituição.
Nesse cenário, Carlos Henrique da Silva Junior, da consultoria Cross Harbor, avalia que o perfil de risco é concentrado, e não sistêmico.
— Os mais expostos são investidores com CDBs acima do limite de R$ 250 mil cobertos pelo FGC, detentores de dívida subordinada e credores sem garantia. Clientes de consignados e financiamento de veículos continuarão devedores, com contratos possivelmente transferidos para outra instituição — disse.
Negociação com BTG
Em abril, o BTG Pactual confirmou ter celebrado um acordo preliminar para a aquisição da Digimais. O banco de André Esteves havia consultado o Banco Central sobre a operação e era visto como o comprador com maior apetite em um eventual processo competitivo. As negociações envolveram ainda a possibilidade de um transporte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) da ordem de R$ 5 bilhões para viabilizar o negócio, mas as condições não foram cumpridas.
O Banco Central prevê que Macedo injetasse cerca de R$ 250 milhões no capital do banco até o final de 2025, o que não aconteceu. O FGC, por sua vez, veio cobrando uma série de documentos antes de comprometer qualquer linha de suporte. Fontes com conhecimento das negociações disseram ao GLOBO que o interesse do BTG já havia esfriado antes mesmo da operação desta terça-feira. Após a visita da PF, as chances de o acordo serem consideradas próximas de zero.
Uma reação do BTG
Procurado, o BTG afirmou que não comenta o assunto. No balanço do segundo semestre de 2025 do Digimais, a auditoria externa responsável pelos números já havia alertado que parte dos ativos do banco tinha ressalvas quanto ao valor de avaliação. Maurício Quadrado, que era sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, chegou a anunciar, em janeiro do ano passado, a compra do Digimais, negócio abandonado poucos meses depois.
— O problema agora é que o banco está com imagem comprometida, o auditoria dos fundos não foi concluído e o driver não cumpriu a exigência de capitalização. O Banco Central vai ter que decidir se estreitamente a fiscalização, exigindo ajustes imediatos ou parte para uma intervenção. Não há mais espaço para o banco se arrastar — avaliou Santacreu.
O que diz o Digimais
Em nota, o Digimais afirmou que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”, reiterando “compromisso com a transparência e a conformidade regulatória”. A instituição não se pronunciou sobre o impacto da operação nas negociações com o BTG. O FGC afirmou que não comenta sobre as empresas associadas.
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