Finanças
Consignado, veículos e inadimplência: entenda a atuação do Digimais, banco de Edir Macedo alvo da PF
Operação da Polícia Federal apura suspeita de supervalorização de ativos em fundos e reduz chances de venda ao BTG Pactual
Alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira, o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, nasceu como financiador de veículos seminovos, acumulou prejuízos com o avanço da inadimplência e tentou se reposicionar no crédito consignado. A mudança, porém, não impediu uma trajetória de rápida deterioração financeira.
A Operação Miragem apura suspeitas de manipulação contábil e ocultação da real situação financeira da instituição. A investigação se soma aos fatores que fizeram perder força as tratativas de venda do Digimais ao BTG Pactual, operação vista pelo mercado como uma das principais alternativas para estabilizar o banco.
Entenda
Fundada em 1981, em Porto Alegre, como Banco Renner, a instituição pertencia à família de mesmo sobrenome e era considerada de finanças equilibradas. Em 2009, Edir Macedo adquiriu participação minoritária de 40% no capital. Onze anos depois, em 2020, o bispo assumiu o controle integral e promoveu uma reestruturação: mudou o nome para Digimais, reposicionou a marca como banco digital e colocou o bispo João Urbanela à frente da gestão.
A transição, no entanto, não foi tranquila. Dois anos após a mudança de controle, o banco registrou um rombo de R$ 740 milhões no caixa, em contraste com o desempenho da antiga fase como Banco Renner. A deterioração das carteiras de crédito e a sequência de prejuízos acumulados passaram a chamar a atenção do mercado e dos órgãos reguladores.
“A carteira do banco está concentrada em financiamento de veículos seminovos e crédito consignado. Sua base reúne compradores de veículos, aposentados, pensionistas e trabalhadores com renda consignável, enquanto a captação de recursos depende principalmente de investidores em CDBs”, explica Carlos Henrique da Silva Junior, da consultoria Cross Harbor.
Veículos e consignado
O modelo de negócios do Digimais foi construído sobre o financiamento de veículos seminovos, carteira que, ao longo do tempo, passou a registrar inadimplência elevada. Luiz Miguel Santacreu, consultor da Austin Rating, aponta um problema estrutural desse segmento.
“O financiamento de veículos depende muito do perfil do tomador. Quando há inadimplência, o banco precisa retomar o bem, levá-lo a leilão e absorver o custo dessa recuperação. Dependendo da qualidade do devedor, isso deteriora significativamente a carteira”, afirmou Santacreu.
Diante desse quadro, o banco decidiu interromper a originação de crédito para veículos e migrar para o consignado, modalidade considerada de menor risco de calote porque as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento do servidor público, antes mesmo de o salário ser creditado. A mudança estratégica, contudo, teria ocorrido tarde demais para conter os danos já acumulados.
É justamente na carteira de veículos que está o núcleo das suspeitas investigadas pela Polícia Federal. Créditos com alto nível de inadimplência teriam sido transferidos do balanço do banco para fundos de investimento, entre eles o Hermon, apontado como o mais relevante da estrutura do Digimais. O movimento contábil, por si só, não é proibido. O problema, segundo os investigadores, estaria no tratamento dado posteriormente a esses ativos.
De acordo com a apuração, o administrador dos fundos não teria marcado os ativos pelo valor real de mercado, mas por um montante inflado, criando uma aparência de solidez financeira que não corresponderia à real situação da instituição.
“Quando esses ativos fossem registrados pelo valor que realmente valiam, o banco teria apresentado um prejuízo muito maior do que o lucro de R$ 31 milhões declarado no ano passado. Provavelmente teria um resultado negativo que corroeria ainda mais o patrimônio, exigindo reforço de capital para continuar operando”, avaliou Santacreu.
A auditoria externa do balanço do banco, fechado com base nos dados de dezembro de 2025, não chegou a abranger os fundos, o que gerou ressalvas formais no documento. O auditor indicou que parte dos ativos não tinha avaliação externa verificável. Esses três fundos — um FIDC, um fundo de participações e um veículo multimercado — chegaram a representar quase 43% do total de ativos da instituição.
Nesse cenário, Carlos Henrique da Silva Junior, da Cross Harbor, avalia que o perfil de risco é concentrado, e não sistêmico.
“Os mais expostos são investidores com CDBs acima do limite de R$ 250 mil coberto pelo FGC, detentores de dívida subordinada e credores sem garantia. Clientes de consignado e financiamento de veículos continuariam devedores, com contratos possivelmente transferidos para outra instituição”, disse.
Estrutura da empresa
Negociação com BTG
Em abril, o BTG Pactual confirmou ter celebrado um acordo preliminar para a aquisição do Digimais. O banco de André Esteves havia consultado o Banco Central sobre a operação e era visto como o comprador com maior apetite em um eventual processo competitivo. As negociações também envolviam a possibilidade de um aporte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) da ordem de R$ 5 bilhões para viabilizar o negócio, mas as condições não foram cumpridas.
O Banco Central exigia que Macedo injetasse cerca de R$ 250 milhões no capital do banco até o fim de 2025, o que não ocorreu. O FGC, por sua vez, vinha exigindo uma série de documentos antes de comprometer qualquer linha de suporte. Fontes com conhecimento das negociações disseram ao GLOBO que o interesse do BTG já havia esfriado antes mesmo da operação desta terça-feira. Após a ação da Polícia Federal, as chances de o acordo avançar são consideradas próximas de zero.
Procurado, o BTG afirmou que não comenta o assunto. No balanço do segundo semestre de 2025 do Digimais, a auditoria externa responsável pelos números já havia alertado que parte dos ativos do banco tinha ressalvas quanto ao valor de avaliação. Maurício Quadrado, que foi sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, chegou a anunciar em janeiro do ano passado a compra do Digimais, mas o negócio foi abandonado poucos meses depois.
“O problema agora é que o banco está com a imagem comprometida, a auditoria dos fundos não foi concluída e o controlador não cumpriu as exigências de capitalização. O Banco Central vai ter que decidir se estreita a fiscalização, exige ajustes imediatos ou parte para uma intervenção. Não há mais espaço para o banco se arrastar”, avaliou Santacreu.
Em nota, o Digimais afirmou que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”, reiterando “compromisso com a transparência e a conformidade regulatória”. A instituição não se pronunciou sobre o impacto da operação nas negociações com o BTG. O FGC informou que não comenta casos envolvendo empresas associadas.
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