Finanças

Alvo de operação da PF, Digimais tinha governança concentrada em núcleo ligado a Edir Macedo

Bispo próximo ao fundador da Universal e o filho ocupavam, ao mesmo tempo, a presidência executiva e o comando do conselho de administração do banco

Agência O Globo - 23/06/2026
Alvo de operação da PF, Digimais tinha governança concentrada em núcleo ligado a Edir Macedo
Digimais

A ascensão do Banco Digimais coincidiu com a chegada ao comando da instituição de executivos ligados ao círculo empresarial de Edir Macedo , fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e líder do banco.

O caso mais emblemático é o de João Luiz Urbaneja . Bispo da Universal, Urbaneja substituiu o comando do então Banco Renner após a consolidação do controle da instituição por Macedo, em 2020. Anos depois, em maio de 2024, passou a presidir o Conselho de Administração do Digimais e se tornou um dos principais alvos da Operação Miragem , deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Federal.

Outro investigado é Thiago Rodrigues Urbaneja , filho do bispo, que exerce a presidência executiva do banco. Os dois ocuparam simultaneamente os postos mais estratégicos da estrutura de governança da instituição quando a operação foi desencadeada.

Enquanto João Luiz presidia o órgão responsável pela supervisão e pela definição das diretrizes da companhia, Thiago comandava o dia a dia das operações do banco. Na prática, pai e filho, ambos ligados a Macedo, concentravam posições centrais na estrutura decisória da instituição financeira.

Embora não haja evidências de participação institucional da Igreja Universal na gestão do Digimais, a presença de executivos ligados ao entorno empresarial de Macedo parece de forma recorrente tanto na composição da alta administração quanto na trajetória de parte dos dirigentes do banco.

A Operação Miragem também atingiu outros membros da cúpula da instituição, entre eles João Alves de Campos e Marcelo de Lima Brasil , ambos diretores estatutários. Juntos, eles integraram o núcleo responsável pelas principais decisões estratégicas e operacionais do banco.

Em nota, o banco afirmou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, informou. A reportagem tenta contato com a defesa dos investigados; o espaço segue aberto.

Conheça o Digimais

O Banco Digimais foi fundado em 1981, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, originalmente com o nome de Banco Renner, criado pela família homônima. A instituição passou por mudanças de controle e modificou o nome Digimais em 2020, quando foi reestruturada para atuar como banco digital.

Foi naquele ano que Edir Macedo assumiu o controle integral do antigo Banco Renner, ao adquirir a totalidade das ações da instituição. Ele já era acionista minoritário desde 2009, quando comprou 40% de participação no banco. Em 2020, ao assumir o controle total, rebatizou a instituição e colocou o bispo João Luiz Urbaneja para dirigi-la.

Dois anos depois, uma instituição descrita como de finanças sólidas na era Renner passou a registrar prejuízo. Em 2022, o balanço do banco apresentou resultado negativo de R$ 740 milhões .

O banco também vinha sendo alvo de disputas e suspeitas envolvendo carteiras de crédito. Desde novembro do ano passado, a gestora Yards, que administra um fundo de direitos creditórios, abriu uma disputa na Justiça com o Digimais. O gestor afirma que a instituição financeira causou perdas na carteira de créditos concedidas para se tornar cotista do fundo.

De acordo com a ação, ao menos 22 mil Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) , de um total de 54 mil ofertas para a participação, houve problemas de lastro. A parcela restante, segundo o fundo à época, apresentaria inconsistências relevantes que prejudicariam a cobrança dos créditos.

Em março, a revista Piauí revelou um suposto modus operandi fraudulento do Digimais semelhante ao atribuído ao Banco Master. Uma das irregularidades é comprovada na 13ª Vara, em ação movida pelo fundo EXP1, que acusa o banco ligado à Universal de vender R$ 650 milhões em carteiras de crédito falsas. Nesta semana, o Estado de S. Paulo mostrou que há repasses de carteiras do Digimais para outras instituições com cerca de 60% de inadimplência .