Finanças

Brasil pode se beneficiar de novo cenário geopolítico do petróleo, aponta Firjan

Levantamento indica que conflitos no Oriente Médio devem ampliar o peso de fatores como segurança, logística e risco nas rotas de exportação

Agência O Globo - 22/06/2026
Brasil pode se beneficiar de novo cenário geopolítico do petróleo, aponta Firjan

O mercado de energia deve passar por uma transformação significativa, mesmo que as negociações de paz entre Estados Unidos e Irã avancem para um desfecho positivo — possibilidade que ainda não apresentava sinais concretos até a noite de ontem. Nesse novo cenário, Brasil e América Latina podem estar entre os principais beneficiados. A avaliação consta no Anuário do Petróleo no Rio 2026, divulgado pela Firjan.

Lá e cá

Tensão

De acordo com o estudo, o atual cenário geopolítico consolida a América Latina como uma nova potência petrolífera. O movimento é liderado pelo Brasil, que, por meio das reservas do pré-sal e de uma frota avançada de plataformas FPSO, assumiu a liderança da produção no continente.

Em síntese, a região ganha destaque por reunir potencial de expansão da produção e menor exposição a riscos geopolíticos em comparação com grandes produtores do Golfo Pérsico.

Na noite de domingo, após novas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atacar o Irã caso o Hezbollah mantivesse a ofensiva contra Israel, o barril chegou a ser cotado a US$ 82,30. As negociações tiveram início turbulento na Suíça, com a presença do vice-presidente norte-americano, JD Vance, de representantes do Irã e de mediadores do Catar e do Paquistão.

A imprensa iraniana informou que Teerã havia interrompido as conversas após a mais recente ameaça de Trump. Ainda assim, pessoas a par do assunto disseram à Bloomberg que os iranianos não abandonaram a negociação.

Entenda

É justamente essa instabilidade que deve ser incorporada à precificação dos ativos após o conflito. Segundo o levantamento da Firjan, o preço do barril tende a deixar de ser determinado apenas pelo custo de produção e deve passar a considerar com mais peso fatores como segurança, logística e risco geopolítico das rotas de exportação.

Diante desse quadro, produtores localizados fora de regiões sujeitas a turbulências ganham relevância, mesmo que apresentem custos de produção mais elevados.

Rio como polo nacional

Na América Latina, além do Brasil, os destaques são Guiana e Suriname, somados à perspectiva de crescimento da produção argentina e a uma possível retomada gradual da atividade petrolífera na Venezuela.

No Brasil, o pré-sal responde por mais de dois terços da produção nacional de petróleo e gás natural. A estimativa é que o pico da produção no país seja alcançado em 2032, com 5,1 milhões de barris.

“Como consequência, o Brasil deve se consolidar entre os principais exportadores globais de petróleo, com destaque para o papel do Estado do Rio como principal polo produtor nacional”, afirma o estudo.

O mercado de trabalho no Estado do Rio também deve avançar, com a geração de mais 1.400 postos até o fim de 2027. Com isso, o contingente de trabalhadores no setor chegaria a cerca de 96 mil.

Incerteza crônica

Em outra frente, o anuário aponta que a crise reforça o papel da diversificação energética como uma questão que vai além do aspecto ambiental. O tema passa a ser tratado também sob a ótica da segurança nacional, à medida que países com matrizes mais diversificadas se mostram mais resilientes a choques externos.

“Essa percepção pode acelerar a eletrificação em mercados-chave, reduzindo a demanda de petróleo no médio prazo enquanto a oferta já enfrenta restrições estruturais”, diz o estudo.

O levantamento afirma que uma das origens dessa nova configuração do mercado foi a transformação dos Estados Unidos de grande importador em exportador líquido de energia. O movimento foi impulsionado pela expansão da produção e pelo shale gas, reduzindo a dependência norte-americana do petróleo do Golfo Pérsico.

Impactos na economia

Ainda assim, os efeitos sobre a economia global e sobre o Brasil já começam a ser sentidos. A alta dos preços do petróleo tem pressionado a inflação em diversos países, incluindo o Brasil, e reforçado preocupações sobre os rumos da política de juros e da atividade econômica.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) já reduziu sua projeção de crescimento para a economia global de 3,3% para 3,1% neste ano. Caso o conflito se prolongue e mantenha o petróleo em alta, a expansão pode desacelerar para apenas 2%, patamar próximo ao observado na crise financeira de 2008 e na pandemia de Covid-19.

No Brasil, se a alta do petróleo aumenta a arrecadação ligada ao setor, também pressiona os preços de combustíveis, transporte e energia, elevando as expectativas de inflação. A projeção do Boletim Focus para o IPCA deste ano subiu de 4% em janeiro para 4,86% no fim de abril. Na semana passada, chegou a 5,3%.

As apostas em cortes de juros também mudaram. A expectativa para a Selic ao fim de 2026 passou de 12%, na previsão de janeiro, para 13% no fim de abril e, agora, para 13,75%.