Finanças
Move Brasil atrai interesse em SP, mas enfrenta entraves operacionais no primeiro dia
Concessionárias de veículos elétricos registraram maior procura; clientes relataram surpresa com prazos de entrega e falta de estoque
No primeiro dia de funcionamento do Move Brasil, novo programa do governo federal voltado a taxistas e motoristas de aplicativo, com juros reduzidos para a compra de carros zero-quilômetro, os veículos elétricos concentraram a maior procura em São Paulo.
Levantamento do jornal O Globo em sete concessionárias da capital paulista, nesta sexta-feira, encontrou pouco movimento na maioria das lojas. As exceções foram justamente as revendas de elétricos, que receberam mais interessados. Mesmo assim, vendedores e clientes relataram falhas na integração com sistemas bancários, o que impediu a conclusão de negócios.
O programa já reúne mais de 600 mil inscritos e prevê R$ 30 bilhões em recursos repassados pelo Ministério da Fazenda ao BNDES, com liberação intermediada por bancos e instituições financeiras parceiras. O valor máximo dos veículos contemplados é de R$ 150 mil.
Segundo estimativas da consultoria Bright Consulting, o Move Brasil pode impulsionar em até 15% as vendas de veículos leves, desde que os interessados consigam atender aos requisitos exigidos pelo programa.
Apesar do interesse, a estreia foi marcada por entraves operacionais. Na unidade da Geely da Avenida Europa, três motoristas buscaram atendimento pela manhã. Um deles chegou a tentar fechar a compra, mas não conseguiu avançar para a etapa de envio da documentação do financiamento.
Na loja da marca na Vila Leopoldina, o movimento foi mais intenso. Entre os clientes, havia um taxista em busca de informações e um motorista de aplicativo que decidiu comprar fora do programa para não aguardar o prazo de entrega do veículo. Em uma concessionária da BYD em Moema, o vendedor Carlos Marega atendeu dez interessados ao longo do dia, mas nenhuma venda foi concluída.
— Não conseguimos fechar nenhuma venda, porque ainda não foi configurado todo o processo. O BNDES está nos devendo um link para que possamos fazer a avaliação e passar a ficha da pessoa que está tentando comprar o carro — afirmou o vendedor.
Prazo de entrega
Um dos clientes que deixaram a loja sem o carro foi o motorista de aplicativo Weslley Souza, de 29 anos, que trabalha na atividade há quatro anos.
— Pretendia fechar a compra hoje, mas não conseguimos por conta de um problema no sistema do banco — relatou.
Weslley contou que escolheu um modelo da BYD pelo design e pela economia com combustível. No entanto, disse que o prazo de entrega de 90 dias dificulta os planos de quem pretende dar o veículo atual como entrada para obter desconto. Para quem depende do carro para trabalhar, a espera pesa na decisão.
— Com os juros menores, compensa, mas três meses sem trabalhar é muita coisa. Não esperava que seriam 90 dias — disse o motorista de aplicativo Alef de Souza, de 32 anos.
Ainda assim, Alef pretende aderir ao programa. Ele estima economizar entre R$ 1.800 e R$ 2.000 por mês com combustível, considerando uma rotina de até 160 quilômetros rodados por dia.
Em outras concessionárias, o movimento foi menor. Segundo Nilo Silva, gerente de uma unidade da Honda na Avenida Europa, a procura aumentou desde o anúncio do programa, com a formação de uma fila de espera de cerca de 15 a 20 motoristas de aplicativo. Mesmo assim, na manhã desta sexta-feira, nenhum cliente havia comparecido à loja.
O modelo mais procurado na unidade é o WR-V, que pode ser adquirido pelo programa e também com desconto na troca do usado. O gerente ressalta, no entanto, que a aprovação de crédito pode ser um obstáculo.
— Temos uma pesquisa mostrando que a média de aprovação de crédito para esse perfil de cliente, motoristas de aplicativo, gira em torno de 60% — afirmou.
Falta de estoque
Outro desafio é a falta de veículos disponíveis. Em uma concessionária da GWM na Vila Leopoldina, o gerente Yuri Sobral afirma que recebe ligações diárias de interessados, mas não há unidades em estoque dentro das condições previstas pelo programa.
— A montadora está tentando trazer. No fim do mês, chegam 900 unidades, mas 800 já estão comprometidas com vendas anteriores — explicou.
Ao todo, 11 montadoras e 42 modelos estão cadastrados no Move Brasil, incluindo veículos flex, híbridos flex, elétricos e movidos exclusivamente a etanol. Modelos a gasolina e diesel ficaram de fora.
De acordo com cálculos da Bright Consulting, um carro de R$ 100 mil, com 50% de entrada e financiamento em 24 meses a uma taxa de 0,99% ao mês, teria custo financeiro mais de R$ 6 mil menor em comparação com uma taxa média de mercado de 1,89% ao mês.
Confira uma lista resumida das principais montadoras habilitadas e modelos enquadrados no programa:
BYD: Dolphin e Dolphin Mini.
General Motors: Onix, Onix Plus, Spin, Tracker, Montana, Sonic e o elétrico Spark EUV.
Volkswagen: Polo, Tera, Virtus, Nivus e T-Cross.
GWM: Ora 03.
Honda: City Hatchback, City Sedan, HR-V e WR-V.
Hyundai: Creta, HB20 e HB20S.
Nissan: Kait, Kicks e Versa.
Renault: Duster, Kardian e Kwid.
Geely: Geely EX2.
Stellantis: Citroën Aircross, Basalt e C3; Fiat Argo, Cronos, Pulse, Mobi e Fastback.
Jeep: Compass e Renegade; Peugeot 208 e 2008.
Toyota: Yaris Cross.
Fonte: Montadoras, Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
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