Finanças

MP aponta desconto compulsório de R$ 81,7 milhões pelo PicPay na folha de servidores do DF

Operação Juro Zero, deflagrada nesta sexta-feira, mirou fintech, BRB e Secretaria de Economia do Governo do Distrito Federal

Agência O Globo - 19/06/2026
MP aponta desconto compulsório de R$ 81,7 milhões pelo PicPay na folha de servidores do DF
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Investigação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apontou que o banco digital PicPay teria descontado compulsoriamente R$ 81,7 milhões da folha de pagamento de servidores do Governo do Distrito Federal entre 2024 e agosto de 2025. Um diretor da fintech, controlada pelo grupo J&F, foi alvo, nesta sexta-feira, de mandado de busca e apreensão na Operação Juro Zero.

Em nota, o PicPay afirmou não reconhecer “qualquer irregularidade nas operações mencionadas” e rejeitou a alegação de cobrança indevida. A Secretaria de Economia do DF informou que a operação trata de “fatos relacionados a acordos para concessão de empréstimos consignados firmados em período anterior”. A pasta acrescentou que a investigação tem como objeto a conduta de agentes públicos, e não a atuação institucional da Secretaria. O BRB não se manifestou.

De acordo com a promotoria, a atuação do PicPay teve início após a publicação, em 2024, de um decreto do Governo do Distrito Federal que criou uma modalidade de crédito consignado sem cobrança de juros, com participação de instituições financeiras ou de pagamento.

Apesar de o decreto prever a ausência de juros, a empresa passou a cobrar uma taxa compulsória denominada “taxa de antecipação”, considerada irregular pelo MPDFT. Segundo a investigação, as cobranças variavam de 2,99% a 7,55% para períodos inferiores a 30 dias, o que equivaleria a taxas efetivas anuais superiores a 2.612,31%.

Conforme a apuração, em 2024 foram realizados R$ 11,7 milhões em descontos compulsórios pela fintech. Em 2025, até agosto, o valor chegou a mais R$ 70 milhões, informação já revelada pelo site Metrópoles em março.

A investigação do MPDFT também apontou que associações efetuavam descontos fraudulentos em favor da Associação dos Servidores Públicos do Distrito Federal (ASDF), também alvo da operação. Os repasses teriam apresentado crescimento significativo entre 2023 e agosto de 2025, conforme decisão do Tribunal de Justiça do DF que autorizou a ação.

A decisão destaca que, segundo apuração do Tribunal de Contas do DF, “a arrecadação da referida associação obteve crescimento de 48.000% em um período aproximado de 20 meses, o que evidencia um comportamento absolutamente desconectado da realidade da entidade, eis que possui sede em coworking, sem rede credenciada própria, sem corpo técnico minimamente compatível”.

Entre os alvos da operação estão Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, preso por envolvimento na tentativa de aquisição do Banco Master pelo banco; o ex-secretário de Economia do DF Ney Ferraz; e o diretor do PicPay Eduardo Chedid Simões.