Finanças

Mudança da Uber na categoria Black leva motoristas a rever financiamento pelo Move Brasil

Levantamento aponta que motoristas da categoria premium faturam R$ 1.546 a mais por mês do que os do Comfort

Agência O Globo - 19/06/2026
Mudança da Uber na categoria Black leva motoristas a rever financiamento pelo Move Brasil
Mudança da Uber na categoria Black leva motoristas a rever financiamento pelo Move Brasil - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O governo federal lançou o Move Brasil para ajudar motoristas de aplicativo e taxistas a comprar carro novo com juros abaixo dos praticados no mercado. Poucos dias antes do início da liberação do crédito, a Uber anunciou uma mudança que acendeu o alerta entre os profissionais: a partir de 2027, vários modelos deixarão de ser aceitos nas categorias premium do aplicativo.

Move Brasil

Para taxistas e motoristas de aplicativo

Entre os modelos afetados está o BYD Dolphin, carro elétrico bastante procurado por motoristas de aplicativo e justamente um dos veículos que podem ser financiados pelo programa do governo.

Pela atualização anunciada pela Uber, a partir de 11 de janeiro de 2027, dez modelos deixarão de ser aceitos na categoria Black, independentemente do ano de fabricação: Audi A3, Caoa Chery Arrizo 5, Chevrolet Cruze, Citroën C4 Cactus, Citroën C4 Lounge, Hyundai Ioniq, Renault Duster, Toyota Prius, Volkswagen Nivus e Volkswagen Virtus — este último a partir de 5 de julho de 2027.

Os motoristas que possuem esses veículos poderão continuar rodando na categoria Comfort, desde que atendam aos demais requisitos exigidos pela plataforma.

Outros onze modelos sairão da Comfort e passarão a operar apenas no UberX: Chevrolet Joy Plus, Chevrolet Prisma, Fiat Argo, JAC iEV40, JAC J3 Turin, Kia Rio, Peugeot 208, Renault Zoe, Toyota Yaris, Volkswagen Polo e Volkswagen Voyage.

A empresa também elevou o ano mínimo de fabricação exigido para permanência nas categorias premium — critério que varia conforme a cidade de cadastro do veículo. Segundo a Uber, a lista de modelos é revisada periodicamente e considera fatores apontados pelos próprios passageiros, como conforto, espaço interno e acabamento.

No caso do BYD Dolphin, a situação é específica: o modelo ainda poderá ser usado na Black, mas com prazo definido. Pela regra de transição, o acesso à categoria será permitido até 31 de dezembro de 2027.

Desistência do financiamento

A mudança fez a conta deixar de fechar para muitos motoristas. A preocupação é financiar, por até seis anos, um carro que perderá acesso à categoria mais bem remunerada antes do fim das parcelas, conforme mostram dados de um levantamento apresentado nesta reportagem.

Maycon Silva Canaan, de 38 anos, vive exclusivamente dos aplicativos, principalmente da Uber. Ele já possui um BYD Dolphin GS e havia estruturado um planejamento com base no Move Brasil: financiar um segundo carro, alugar o elétrico que já tem e continuar trabalhando, somando o aluguel à renda das corridas.

— A minha ideia era comprar outro carro, alugar esse que é uma fonte de renda e trabalhar no outro — afirma.

Segundo Maycon, o plano mudou quando a Uber divulgou a lista de veículos que deixarão as categorias premium em 2027. O Dolphin está entre eles.

— A Uber já lançou a lista de carros de 2027 antes do programa. Está pegando o meu carro e tirando da categoria Black — diz.

Maycon está com o nome negativado e contava com o fundo garantidor do programa para conseguir o crédito. Com a saída do carro da categoria mais bem paga, decidiu desistir — e afirma que não é o único.

— Tenho um grupo com 37 pessoas, só com carro elétrico, que queriam trocar. Ninguém mais quer, praticamente — relata.

De acordo com ele, a reclamação se repete em grupos de motoristas de veículos elétricos, que passaram a trocar mensagens sobre a mudança anunciada às vésperas do início do programa.

Um carro de R$ 150 mil para rodar no Comfort

A alteração anunciada pela Uber entra em choque com as expectativas criadas pelo Move Brasil. O programa permite financiar veículos de até R$ 150 mil, desde que sejam flex, híbridos, elétricos ou movidos a etanol. O BYD Dolphin, vendido por cerca de R$ 149 mil, é um dos modelos que se encaixam nesse perfil.

Na prática, um motorista pode financiar o Dolphin em até 72 meses pelo programa e ver o carro perder o acesso à Black já no fim de 2027 — antes da metade do financiamento. Para Maycon, há uma contradição.

— Você vai comprar um carro de R$ 150 mil para ser Uber Comfort. Se pegar R$ 80 mil, compra um Corolla usado e entra no Black — resume.

Quanto se perde ao cair de categoria

O argumento dos motoristas — de que a mudança de categoria significa queda nos ganhos — é sustentado por números. Um levantamento da GigU, aplicativo usado por motoristas para acompanhar rendimentos nas corridas, comparou as três categorias da Uber com base em dados de 149.197 motoristas que atuam nas versões X, Comfort ou Black.

Os valores são medianas e foram medidos por hora trabalhada e por quilômetro rodado. Esse recorte evita distorções provocadas pela diferença de jornada entre motoristas que trabalham mais ou menos horas.

Em um mês de 260 horas trabalhadas, o motorista que roda na categoria Black fatura, na mediana nacional, R$ 10.825. Na Comfort, o valor é de R$ 9.279. No UberX, chega a R$ 8.119.

Isso significa que cair da Black para a Comfort representa R$ 1.546 a menos de faturamento por mês. Em lucro líquido — já descontados custos como recarga, manutenção e seguro —, a diferença é de cerca de R$ 1.240: R$ 4.983 na Black, contra R$ 3.742 na Comfort, segundo o estudo.

Por quilômetro, a categoria Black paga, em média, R$ 2,08, ante R$ 1,68 da Comfort e R$ 1,50 do UberX, de acordo com a GigU.

— A mudança da categoria Black, na Uber, impacta diretamente o planejamento de milhares de motoristas, que se programaram por anos para conseguir pagar um financiamento ou que investiram um valor alto para subir de categoria, porque ganhariam mais. Sob a ótica de lucro, há motoristas que podem ganhar metade do que ganham hoje — afirma Paolo Valle, líder de Dados da GigU.

Os números coincidem com a experiência relatada por Maycon, que acompanha os próprios ganhos por meio de um aplicativo de corridas. Ele estima receber de R$ 2,50 a R$ 3 por quilômetro na Black e de R$ 1,60 a R$ 1,80 na Comfort.

O levantamento mostra ainda que a vantagem da Black não decorre de uma jornada maior. Em cargas semelhantes, de 60 horas por semana, motoristas das três categorias percorrem distâncias parecidas — entre 5.200 e 5.500 km por mês. O que muda é quanto cada hora e cada quilômetro pagam.

O que a Uber respondeu

O EXTRA perguntou à Uber se houve, ao longo dos anos, redução no tempo em que um veículo permanece elegível na Black; quantos motoristas devem ser afetados pelo rebaixamento em 2027; qual é a diferença de remuneração por quilômetro entre as categorias; e como a empresa avalia o impacto na renda de quem ainda paga o carro.

Em nota, a Uber afirmou que todas as informações sobre a atualização, realizada anualmente, estão na publicação oficial do programa. A empresa disse ainda que “nenhum modelo de carro atualmente aceito deixará a plataforma da Uber”.

A companhia também explicou que “veículos são elegíveis para diferentes categorias da plataforma e os motoristas podem, inclusive, escolher mais de uma modalidade simultaneamente, de acordo com as suas preferências, desde que sigam os requisitos de cada uma delas”.

A Uber, porém, não informou quantos motoristas serão afetados pela mudança, não respondeu se o prazo de permanência na Black era maior no passado e não comentou a diferença de remuneração entre as categorias nem o impacto sobre a renda de quem financia o carro — justamente o ponto levantado pelos motoristas. A resposta também não aborda a principal queixa: o problema apontado não é o carro sair da plataforma, mas deixar a categoria que paga mais.