Finanças

Move Brasil começa hoje; veja quais bancos vão financiar carros para motoristas de app e taxistas

Programa oferece juros mais baixos para a compra de veículos novos; contratação depende de análise de crédito

Agência O Globo - 19/06/2026
Move Brasil começa hoje; veja quais bancos vão financiar carros para motoristas de app e taxistas
- Foto: Ilustração de IA

Começa nesta sexta-feira a fase mais esperada do Move Brasil: a contratação do financiamento de carros novos por motoristas de aplicativo e taxistas. A partir de hoje, os profissionais que já tiveram o cadastro aprovado pelo governo federal podem procurar concessionárias e bancos participantes para solicitar o crédito, com taxas de juros menores do que as praticadas no mercado.

As condições foram definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e confirmadas pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante. Os juros serão de 12,6% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres. As duas taxas ficam abaixo da Selic, taxa básica de juros, atualmente em 14,25% ao ano.

O modelo é possível porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória que autoriza o Ministério da Fazenda a repassar R$ 30 bilhões ao BNDES para bancar as operações. O programa é voltado a taxistas e motoristas de plataformas como Uber e 99 que tenham realizado ao menos 100 corridas no período de um ano — o equivalente a cerca de duas corridas por semana.

O ponto de corte é uma tentativa do governo de restringir o crédito a quem efetivamente trabalha na atividade, evitando que a linha seja usada apenas como forma de acesso a um empréstimo mais barato.

Quais bancos vão operar o crédito

O C6 Bank confirmou que vai operar a linha e informou que começará a receber pedidos em 26 de junho. As taxas serão as do teto do programa — 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. A exigência de entrada e a documentação necessária dependerão da análise de crédito de cada cliente.

“Feita de forma on-line, a análise de crédito, na maior parte dos casos, ocorre em até um minuto”, informou o banco, em nota.

O Santander também vai operar o crédito, por meio da Santander Financiamentos, e deve começar a receber propostas na próxima semana, seguindo o calendário do programa. As condições serão apresentadas na simulação. A contratação, no entanto, ficará sujeita à elegibilidade do cliente e do veículo, à análise de crédito e ao envio da documentação exigida.

“As condições serão apresentadas durante a simulação, e a contratação estará sujeita à elegibilidade do cliente e do veículo, à análise de crédito e ao envio da documentação exigida na jornada, incluindo documentos pessoais, comprovação de elegibilidade ao programa e documentação do veículo”, esclareceu o Santander.

O Itaú Unibanco informou que não vai aderir à linha. O banco alegou questões de cronograma operacional e afirmou que seu teto de garantias no FGI já está integralmente alocado e consumido pelo fluxo de outras modalidades de crédito, como Renova Frota, FGI Capital de Giro, Pronampe e Desenrola.

“Em relação à nova linha voltada a motoristas de aplicativo e taxistas, o banco optou por não aderir a este desenho específico por questões de cronograma operacional e pelo fato de seu teto de garantias do FGI já estar integralmente alocado e consumido pelo fluxo atual de outras modalidades”, afirmou a instituição financeira.

O Bradesco preferiu não se manifestar. Procurados, Nubank, BTG Pactual, Banco Inter, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal não responderam até o fechamento desta reportagem.

“A esperança é a última que morre”

Motorista de aplicativo há dez anos e dono de um salão de festas, Carlos Coutinho, de 39 anos, é um dos profissionais que pretendem aproveitar o programa logo na largada. Morador de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ele usa os aplicativos como complemento de renda e hoje roda com uma Chevrolet Spin 2015, de sete lugares. A intenção é trocar o veículo por um modelo elétrico.

— Com esse programa do governo, estou vendo a possibilidade de trocar o meu carro por um veículo elétrico, que é o BYD Dolphin — conta.

Carlos já fez o cadastro e foi aprovado pelo governo em poucos dias. A aprovação, porém, é apenas a primeira etapa. Falta a parte mais incerta: a análise de crédito feita pelo banco.

Com o nome negativado, ele conta com o fundo garantidor para tentar viabilizar o financiamento.

— Tenho negativação no meu nome, mas não é nada muito grave, alguns cartões de crédito. Não regularizei porque existe uma luz no fim do túnel: muita gente falando que vai liberar para negativado — afirma. — A esperança é a última que morre.

Para tentar reduzir o valor financiado, ele e três amigos do bairro vão juntos a uma concessionária de carros elétricos nesta sexta-feira. Dos quatro, segundo Carlos, apenas um está com o nome limpo.

— A gente vai ver se consegue dar os nossos carros de entrada para financiar um valor menor — explica.

O que pesa na escolha pelo elétrico é a economia, segundo o motorista.

— A gente gasta de R$ 3 mil a R$ 3.500 por mês com combustível, fora a manutenção. Com o elétrico, fica em torno de R$ 800 a R$ 1.000 de recarga, e a manutenção é menor — compara.

Com o BYD, ele também poderia rodar na categoria Black da Uber, a mais bem paga. Mas já sabe que, para esse modelo, o acesso à categoria vai até o fim de 2027.

— Todo mundo foi pego de surpresa com essa informação que a Uber soltou, um dia antes de todo mundo comprar o carro — diz.

Quem está com o nome negativado pode conseguir?

A aprovação no cadastro do governo é apenas a primeira etapa e não garante o financiamento. A análise de crédito é feita pelo banco, caso a caso, depois do pedido. Cada instituição decide se aprova ou recusa a proposta, de acordo com suas próprias regras.

Para ampliar as chances de quem tem renda informal e poucas garantias a oferecer, a medida provisória incluiu taxistas e motoristas de aplicativo no Fundo Garantidor para Investimentos (FGI-PEAC), do BNDES, que pode cobrir até 80% do risco de cada operação. Na prática, o fundo protege o banco em caso de inadimplência, o que torna o crédito mais acessível. A dívida, no entanto, continua sendo do motorista.

O que diz o especialista

Para quem vive de renda variável, o maior risco não é o juro, mas o tamanho da parcela. A avaliação é de Rodolfo Takashi, CEO da Gooroo Crédito, fintech especializada em crédito para o trabalhador.

— Para um motorista sem renda fixa, a pergunta principal não deveria ser “quanto o banco aprova?”, mas sim “qual carro o meu faturamento consegue sustentar, mesmo nos meses mais difíceis?” — afirma.

Takashi lista alguns cuidados. O primeiro é fazer a conta pela pior semana, não pela melhor. Se a renda líquida oscila entre R$ 3.500 e R$ 7.000 por mês, a parcela precisa caber confortavelmente no cenário de R$ 3.500. Como regra geral, ele recomenda que a prestação não ultrapasse 15% a 20% da renda líquida média.

O segundo cuidado é não financiar o valor máximo apenas porque ele está disponível. O programa permite financiar veículos de até R$ 150 mil, mas, segundo o especialista, um carro de R$ 100 mil pode gerar praticamente a mesma receita nos aplicativos.

— Um veículo de R$ 100 mil pode gerar praticamente a mesma receita em aplicativos como Uber e 99 do que um veículo de R$ 150 mil. O custo adicional não necessariamente se traduz em maior rentabilidade — diz.

Takashi orienta ainda que a prestação seja encarada como uma espécie de aluguel, um custo fixo da atividade, e alerta para a diferença entre faturamento e renda. É possível faturar R$ 10 mil por mês e ter renda líquida bem menor depois de descontar combustível, manutenção, lavagem e seguro.

— O risco está em assumir uma parcela baseada nos meses de maior faturamento e descobrir, nos meses mais fracos, que o carro pertence mais ao banco do que ao motorista — resume.

Para ele, o Move Brasil pode valer a pena sobretudo para quem hoje gasta muito com aluguel de veículo, desde que a escolha seja pelo carro mais econômico capaz de gerar a mesma receita.

Quantos já se inscreveram

O governo não respondeu ao pedido da reportagem sobre o número atualizado de cadastrados e aprovados no programa.

O dado mais recente divulgado é de 3 de junho, quando o presidente da Anfavea, Igor Calvet, afirmou que as inscrições no Move Brasil já chegavam a 600 mil.

Atenção ao prazo

As contratações precisam ocorrer até 22 de julho de 2026, data final de vigência da medida provisória que sustenta o programa. Procurados, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o BNDES não esclareceram o que acontece com o motorista que pedir o financiamento dentro do prazo, mas tiver a análise de crédito concluída pelo banco depois dessa data.

Como faço para solicitar o financiamento?

Confira o passo a passo:

A primeira etapa é acessar a plataforma gov.br/movebrasil e rolar a página até encontrar a opção de cadastro a partir da conta Gov.br.

Insira o CPF e, em seguida, a senha do Gov.br.

Na página seguinte, clique em “Solicitar adesão”.

Informe se você é taxista, motorista da 99 ou motorista da Uber. Depois, leia e aceite o termo de consentimento e clique em “Solicitar adesão”.

Com isso, o perfil ficará em análise. O governo federal fará a validação das informações para confirmar o cadastro.

Em seguida, é necessário aguardar até cinco dias úteis para saber se está apto ou não a participar do Move Brasil. O motorista receberá a resposta pela caixa postal do Gov.br e por mensagem de WhatsApp.

No caso de motoristas de aplicativo, o governo verificará a elegibilidade diretamente com a plataforma.

No caso dos taxistas, a checagem será feita por meio da Receita Federal. Eles deverão autorizar o órgão a enviar às instituições financeiras a confirmação do registro como taxista e permitir que o banco pratique as condições de financiamento previstas no programa.

Por fim, os motoristas que receberem a confirmação de participação poderão procurar concessionárias e instituições financeiras participantes para passar pela análise de crédito e pela avaliação de viabilidade da concessão do financiamento.