Finanças

Governo Lula vê negociação “no escuro” sobre tarifaço e avalia que Trump busca vitória política

Brasília tenta limitar discussão ao campo comercial, mas ainda aguarda definição de Washington sobre concessões para evitar sobretaxa de até 25% sobre produtos brasileiros

Agência O Globo - 18/06/2026
Governo Lula vê negociação “no escuro” sobre tarifaço e avalia que Trump busca vitória política
- Foto: © AP Photo / Julia Demaree Nikhinson

A menos de um mês do prazo previsto para que os Estados Unidos decidam sobre a aplicação de uma sobretaxa de até 25% sobre produtos brasileiros , integrantes do governo Lula avaliam que ainda há um cenário de incerteza nas tratativas para tentar reverter a medida.

A percepção em Brasília é que o governo de Donald Trump ainda não deixou claro quais medidas ou concessões consideradas suficientes para rever a proposta tarifária. Por isso, o processo foi descrito por interlocutores do governo como uma negociação “no escuro” .

A nova rodada de tensão comercial teve origem na investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que descobriu neste mês que as políticas brasileiras seriam “irrazoáveis” ou “discriminatórias” contra interesses americanos. O relatório serviu de base para a proposta de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos do Brasil.

O documento reúne críticas a temas que vão além da pauta comercial tradicional, incluindo decisões judiciais relacionadas a plataformas digitais, o sistema de pagamentos Pix, acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual e questões ambientais. O problema, na avaliação dos membros do governo, é que os americanos ainda não indicaram quais desses pontos são efetivamente negociáveis ​​e quais seriam apenas políticas justificativas para sustentar a medida.

A expectativa do governo brasileiro é que novas conversas ocorram nas próximas semanas entre equipes técnicas dos dois países. Interlocutores envolvidos nas discussões afirmam que o foco, neste momento, é identificar quais áreas poderiam comportar algum entendimento sem alcançar temas considerados inegociáveis ​​pelo Brasil.

Entre as linhas variáveis ​​pelo governo estão o Pix e qualquer questão relacionada ao sistema eleitoral brasileiro. A avaliação é que esses assuntos não serão objeto de negociação com Washington.

— Pix não dá. Está fora da mesa — afirmou uma fonte.

De acordo com avaliações internacionais, a dificuldade em avançar decorre da necessidade do presidente Donald Trump encontrar algum resultado que possa ser apresentado, internamente, como uma vitória política.

Essa descoberta é vista como o principal desafio das próximas semanas. O governo brasileiro avalia que pode ser difícil encontrar um ponto de convergência que satisfaça os interesses políticos da administração Trump sem gerar a percepção de que o Brasil cedeu em questões relacionadas à soberania nacional.

Apesar das divergências, o Planalto pretende manter as negociações abertas até o prazo final previsto pelos americanos.

As discussões devem continuar equipamentos em grupos técnicos. Durante a cúpula do G7, realizada nesta semana na França, o tema não foi tratado diretamente entre autoridades brasileiras e o representante comercial americano, Jamieson Greer, embora ele estivesse presente no evento. A expectativa é que uma nova reunião com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, seja realizada em breve.